 |
Comunicação
e Responsabilidade Social
Comunicação
no Terceiro Setor
Assessoria
de Imprensa / Relacionamento com a mídia
Comunicação Interna
Publicidade/Marketing
Comunicação
e Cultura Organizacional
Comunicação
e Crise nas organizações
Auditoria
de Imagem das organizações
Comunicação
Pública (Governamental etc)
Diversos
|
|
Diversos
• Comunicação
• Artigo
• Case
• Resenha
Resenha
Ciência sem Comunicação?
Heloiza Dias da Silva
Jornalista, com especialização em divulgação
científica, ex-chefe da Assesoria de Comunicação
da Embrapa e mestranda em Comunicação pela UMESP.
DUARTE, Jorge; BARROS, Antônio Teixeira de (editores técnicos).
Comunicação para ciência, ciência para comunicação.
Brasília, DF: Embrapa Informação Tecnológica,
2003.
"Numa sociedade democrática é fundamental levar
até aos cidadãos conhecimentos sobre ciência e tecnologia
que invadem suas vidas, que cada vez mais moldam os seus cotidiano e o
seu futuro, permitir-lhes que compreendam, as vejam de uma forma crítica,
que desenvolvam as ferramentas para o seu controle social e que consigam
fazer conscientemente as suas escolhas individuais (Granado & Malheiros)
Fundamental para reduzir a distância entre pesquisador, ciência
e o desenvolvimento tecnológico da vida das pessoas, o papel estratégico
da comunicação é reconhecido nos meios acadêmico
e profissional seja como instrumento de popularização da
ciência, seja como ferramenta de educação para a alfabetização
científica, construção da cidadania e luta contra
a exclusão social.
A importância dada à divulgação científica
e ao jornalismo científico pode ser constatada, por exemplo, pelo
surgimento de cursos de pós-graduação voltados à
formação de profissionais mais bem preparados, do apoio
crescente de agências de fomento à pesquisa a projetos da
área, bem como do maior espaço nos fóruns para discussões
do tema Esse novo posicionamento também vem recebendo respaldo
dos órgãos responsáveis pela elaboração
das políticas de ciência e tecnologia do país, como
MCT, SBPC e Academia Brasileira de Ciências. Embora o avanço
seja inquestionável, muito ainda há de ser feito para consolidar
essa atividade no Brasil.
O leitor interessado em compreender o cenário que se vislumbra
para a comunicação científica brasileira na chamada
Sociedade da Informação e da Nova Economia encontra na publicação
Comunicação para Ciência, ciência para comunicação,
organizada pelos jornalistas e professores Jorge Duarte e Antônio
Teixeira de Barros, artigos que retratam um novo cenário para a
produção e divulgação do conhecimento científico
e tecnológico no Brasil.
Produtos da experiência e pesquisa de seus autores, os doze textos
que compõem o livro abordam e analisam, sob diferentes enfoques,
referenciais téoricos e questões práticas da comunicação
científica, e em especial do jornalismo científico, levando-nos
a refletir sobre as complexas relações existentes entre
Ciência, Mídia, Estado e Poder.
O pressuposto maior que norteia a obra, segundo seus editores, é
a concepção de que a comunicação dos resultados
de estudos científicos é um imperativo social, cultural
e institucional. Assim, ressaltam o papel crucial da mídia no novo
modo de se produzir ciência, cujos principais atributos são
assim por eles assim listados: "a) predominância de interesses
ligados ao contexto de aplicação; b ) interdisciplinaridade;
c) heterogeneidade de tendências, mesmo em âmbito nacional
ou regional; d) organizações científicas diversificadas,
descentralizadas e transitórias; e) valorização do
saber reflexivo; f) ênfase à responsabilidade social da ciência;
g) maior valorização da divulgação científica;
ou seja, a divulgação dos resultados de pesquisa não
se limita ao circuito fechado (intrapares) mas atinge o grande público."
Estruturado em duas partes, o livro contempla desde temas referentes aos
valores e comportamento dos cientistas brasileiros a questões específicas
do jornalismo científico como os fenômenos que ocorrem na
transformação de entrevistas com cientistas em textos jornalísticos.
Novas abordagens são colocadas em discussão a exemplo da
nova postura dos jornalistas que atuam na divulgação de
C&T frente aos interesses oriundos da concentração dos
meios de comunicação e agências de publicidade.
Ciência e Comunicação, a primeira parte da obra, é
composta por quatro artigos: "Quando o amor à ciência
ainda basta...", por Maria das Graças Targino, Roberta Targino
Correia e Cristiane Portela de Carvalho; Comunicação da
Ciência, de Paulo César Alvim; Poder, Saber e Discursos Ecológicos
no Brasil: Ciência, Estado e Imprensa, um estudo de Antônio
Teixeira de Barros; e Comunicação rural: em busca de novos
paradigmas, de Wilson Corrêa da Fonseca Júnior.
O primeiro apresenta resultados de uma pesquisa junto a cientistas da
Embrapa Meio-Norte em 2002. São analisadas a atualidade e a pertinência
das normas mertonianas- universalidade, compartilhamento, desapego material
e ceticismo sistemático - no comportamento da comunidade científica.
Os resultados indicam que a comunidade científica não dispensa
valores éticos e morais e que as normas mertonianas ainda persistem
e direcionam atitudes comportamentais dos pesquisadores e, portanto influenciam
a produção científica.
No artigo seguinte, Paulo César Alvim, reitera o papel da comunicação
como instrumento de alavancagem e disseminação da geração
do conhecimento e apresenta histórico do processo de comunicação
científica, defendendo que pesquisas científicas e comunicação
são inseparáveis. Identifica a necessidade de novas formas
de sistematizar e padronizar os processos de apresentação,
divulgação e armazenamento das publicações
científicas.
Antônio Teixeira de Barros analisa as diferentes formas de poder
que permeiam três tipos de discurso sobre ecologia no Brasil nos
últimos vinte anos: o Oficial (do Estado), o Científico
e o da Imprensa. Especificamente, aponta as características desses
discursos; os pressupostos de cada um; relações entre discurso
governamental, científico e jornalístico e como se dão
essas relações (se de oposição/contradição
ou de complementação de abordagens e argumentos.
O último artigo da primeira parte do livro parte de ampla revisão
teórica para sugerir um novo objeto de investigação
da comunicação rural. A partir da perspectiva gramsciana,
dos estudos culturais ingleses, o autor, Wilson C. da Fonseca Júnior,
propõe que o "rural" não seja mais estudado pela
comunicação de forma segmentada e isolado em si mesmo, mas
como processo inserido em contexto histórico e sócio-cultural.
Um outro aspecto importante da concepção proposta pelo autor
é que o "rural" não se define por sua origem,
mas por seu uso, o que permite a abordagem de temas estreitamente relacionados
com a problemática rural até então ignorados nos
estudos da comunicação rural.
Intitulada Ciência e Jornalismo, a segunda parte da obra é
composta de oito artigos que abordam especificamente a divulgação
científica. O primeiro artigo, de Wilson da Costa Bueno, Jornalismo
Científico, Lobby e Poder, analisa os novos desafios da divulgação
científica em especial o papel a ser desempenhado pelos jornalistas
científicos, buscando ampliar o debate sobre as relações
entre ciência, divulgação científica e poder
na sociedade contemporânea. Jornalista, professor e autor da primeira
dissertação de mestrado em jornalismo científico
no Brasil, Bueno demonstra, por meio de exemplos, que a produção
de ciência e tecnologia deixou de ser há muito preocupação
exclusiva do cientistas e que a sua divulgação deve ser
respaldada em pressupostos e atributos que extrapolam a comunicação
científica e em particular o jornalismo científico tradicionais.
Com muita propriedade defende postura mais crítica do jornalismo
científico, frente a rede complexa de interesses e compromissos
que permeia, hoje mais do que nunca, as relações entre ciência,
tecnologia e sociedade "Os desafios do jornalismo científico
no século 21 não são pequenos. Simplesmente porque
a eles se vinculam interesses poderosos situados nos campo da ciência
e da indústria da comunicação. Cabe ao jornalista
estabelecer parcerias, mobilizar consciências, consolidar a sua
competência informativa, munir-se de coragem e espírito crítico
para enfrentá-los".
Também propõe a abordagem de três grandes temas que
afetam diretamente o trabalho de divulgação do processo
de produção científica e tecnológica: a informação
científica como mercadoria num comércio viciado; o mito
de liberdade e o Big Brother (o controle da comunicação
on line); e informações desqualificadas. Ele ainda analisa
outras tendências presentes na indústria da comunicação
que se constituem em desafios para a informação jornalística
e, em particular, para o jornalismo científico: a segmentação/especialização;
parceria informação e marketing, a relação
tensa entre ciência e outros saberes; e a "biologização
do social".
Recorrente como objeto de estudos na área de comunicação,
a relação entre jornalista e cientista é tratada
nos três artigos seguintes , mas sob óticas diferentes. Duelo
do Dueto? A controvertida Relação ente Cientista e Jornalista,
de autoria de Maria da Graça Monteiro, analisa comportamentos e
práticas dos cientistas e jornalistas no processo de produção
de notícias científica dentro de um instituição
de pesquisa. Partindo da realidade vivenciada por jornalistas da Embrapa,
aborda a relação entre pesquisador e mídia, concluindo
que tal relação é mais simbiótica do que tensional,
pois envolve no processo de divulgação dos resultados de
pesquisa uma "negociação de interesses e valores"
entre os atores envolvidos .
No mesmo tema, mas com outro objeto, Isaltina Maria de Azevedo Gomes,
aponta em Cientistas e Jornalistas: um Diálogo Possível,
os fenômenos lingüísticos envolvidos na transformação
de entrevistas realizadas com cientistas em textos jornalísticos
publicados na imprensa diária. O estudo demonstra que há
modificações substanciais entre os textos básicos
obtidos por entrevistas e os textos jornalísticos, mas que, no
entanto, a idéia central é normalmente preservada. O trabalho
constitui-se na análise comparativa entre matérias publicadas
no Jornal do Commercio (Recife-Pe) e entrevistas que as originaram. Sustenta-se
também em diversos referenciais teóricos nas áreas
do jornalismo científico e da análise do discurso.
Ainda sobre o relacionamento cientista e jornalista, merece destaque artigo
Jornalistas e Cientistas: uma Relação de Parceria, da jornalista,
pesquisadora e professora Graça Caldas. De forma didática
ela apresentada as recentes mudanças na formação
e práticas desses profissionais, que têm contribuído
para a melhoria na qualidade da divulgação científica
no país. A autora afirma que o paradigma das relações
mudou, e pode ser percebido pela crescente participação
dos cientistas brasileiros na divulgação da produção
científica e tecnológica. "Há hoje cooperação
entre parceiros naturais", que só se consolidará no
momento em que esses profissionais entenderem que têm os mesmos
objetivos, ou seja, buscam o avanço do conhecimento e a divulgação
da produção científica e tecnológica. Como
avalia a autora, as óticas podem ser diversas quanto à forma,
linguagem e abrangência do conteúdo, mas não resta
dúvida de que cientista e jornalista têm em comum a responsabilidade
social no processo de democratização da informação.
Cabe a ambos uma postura educativa na comunicação púbica
da ciência. A reflexão sobre as tipologias dos jornalistas
e dos cientistas, descritas, respectivamente, pelo Labjor/Unicamp e Ângelo
Machado, é também inserida no artigo como importante instrumento
para a melhoria da relação entre esses profissionais.
Inserção, papel e Atuação: jornalistas na
Embrapa é um estudo de caso de Jorge Duarte. O trabalho retrata
a trajetória dos jornalistas da Embrapa no período em que
precedeu a implementação da Política de Comunicação
da Empresa. Rico em detalhes, o relato enfoca experiências, problemas
e conquistas dos profissionais de comunicação da Embrapa
e que, seguramente, constituem exemplos para outras instituições
de pesquisa, públicas ou privadas, que desejem aprimorar ou estruturar
uma área de comunicação.
Os dois artigos que se seguem, Primórdios do Jornalismo Científico
no Brasil, de Valdir Gomes, e Hipólito da Costa - Precursor do
jornalismo científico no Brasil, de autoria de José Marques
de Melo, têm no resgate histórico suas características
principais. O primeiro traça paralelo entre os debates sobre a
validade das terapias alternativas na mídia com exemplos semelhantes
ocorridos no Brasil durante o século 19, extraídos do Jornal
do Commercio (RJ), bem como analisa o comportamento jornalístico
diante de um tema presente há mais de cem anos nos meios acadêmicos
e científicos. Já José Marques de Melo, com a precisão
e detalhamento característicos, reconstrói a trajetória
pioneira de Hipólito da Costa, analisando a natureza do trabalho
informativo realizado por ele no século 18. O autor identifica
evidências do protagonismo de Hipólito da Costa como precursor
do jornalismo científico no Brasil.
Ensino de Jornalismo Científico no Brasil: evolução
e perspectiva, de Mônica Macedo, fecha estrategicamente esta Coletânea.
O texto apresenta panorama de programas e estudos sobre o ensino do jornalismo
científico, comparando, inclusive experiências de vários
países com as do Brasil. Chama atenção os dados apresentados
pela pesquisadora que, ao mesmo tempo em que demonstram evolução
no ensino de divulgação cientifica e do jornalismo científico
no país nos últimos anos, deixam claro o reduzido número
de cursos e que os programas de ensino são heterogêneos.
Mas como observa a autora, mais do que evoluir quantitativamente, o ensino
de jornalismo científico no Brasil precisa de investimentos na
qualidade, incluindo reflexão humanística sobre a ciências
e a divulgação científica, incorporando ou reforçando
disciplinas de história e sociologia da ciência., ética
e filosofia. Somente assim, será possível ao jornalista
contribuir positivamente na formação da opinião pública.
A variedade das abordagens sobre a comunicação da ciência
e a profundidade com que são tratados alguns temas, notadamente,
o jornalismo científico, Comunicação para a Ciência,
ciência para comunicação oferece um leque de estudos
que remete à uma maior reflexão sobre o papel da ciência
e da comunicação no processo de construção
da cidadania.
|
|