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Comunicação e Responsabilidade Social
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Comunicação
Imprensa e Responsabilidade Social: avacalhando o conceito
Wilson da Costa Bueno
Jornalista, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa,
professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação
Social da UMESP e professor de Jornalismo da ECA/USP.

Quem percorre, desavisadamente, as páginas dos nossos principais
jornais e revistas, ou ouve e vê, distraído, os programas
jornalísticos no rádio ou na TV, deve imaginar que atingimos,
em nosso País, uma situação ideal: as nossas principais
organizações já estão, definitivamente, comprometidas
com a sociedade e estão, mais e mais, empreendendo ações
cidadãs. Enfim, a gestão e a cultura organizacionais de
empresas e entidades amadureceram, abruptamente, e estamos, hoje, diante
de um conjunto formidável de organizações socialmente
responsáveis.
Mas será isso verdade? Antes fosse. Na prática, prevalecem
uma hipocrisia e um cinismo, que contam com a complacência da mídia,
quase sempre focada mais na sua saúde financeira (que, em geral,
anda combalida no Brasil) do que na sua independência. E a realidade
é bem distinta: é preciso muito esforço para encontrar
uma organização absolutamente íntegra e que possa,
sem maiores questionamentos, ser rotulada de cidadã.
O conceito de Responsabilidade Social andou criando clones e mais clones,
de tal modo que qualquer organização pode, agora, lançar
mão do seu conceito, fabricado em casa, ou manipular (impunemente)
o conceito dos outros, para ver-se, finalmente, enquadrada como parceira
da cidadania. Um bom trabalho de assessoria de imprensa ou de comunicação
amplifica esta mentira e , sem mais nem menos, lá está a
empresa, entidade ou Governo, nas manchetes dos jornais ou nas capas das
revistas, proclamando a sua contribuição à sociedade.
Muitas são recorrentemente convidadas a relatarem os seus cases
em congressos ou aquinhoam prêmios, concedidos ingenuamente ou por
motivos comerciais, de que resultam diplomas ou estatuetas, exibidos,
ostensivamente, assim como os predadores exibem as suas caças.
Este grande equívoco conceitual é resultado de vários
pequenos equívocos, não menos danosos. Muita gente assume
o conceito de Responsabilidade Social, sem refletir profundamente, e acredita
que ser socialmente responsável é fazer algo pela comunidade,
como, por exemplo, doar cestas básicas ou manter uma creche. Se
fosse assim tão fácil, que tal considerar o traficante como
socialmente responsável? Pois ele, quase sempre, desempenha também
um papel social e é admirado por alguns segmentos da comunidade
para a qual contribui. Ele doa cestas básicas, encaminha pessoas
da comunidade aos pronto-socorros e faz o que o Governo não anda
fazendo: até protege os membros da comunidade da ação
de bandidos... de fora.
Epa, mas assim não dá! Pois é, existe empresa socialmente
responsável que, na verdade, pouco difere do traficante ou do bicheiro,
se se adota um conceito de responsabilidade social tão tímido
ou flexível. Logo, a saída não é por aí,
concorda?
O conceito de responsabilidade social implica em vislumbrar a organização
com um todo e analisar a sua relação com a sociedade , e
com públicos específicos, de maneira abrangente. A empresa
agride o meio ambiente? Não é socialmente responsável.
A empresa não permite a ascensão profissional e pessoal
dos seus funcionários, não paga impostos em dia , não
paga salários adequados, é autoritária, não
é transparente? Então, não é socialmente responsável.
A empresa fabrica produtos danosos à sociedade? Puxa, de maneira
alguma ela pode ser socialmente responsável. Ou seja, não
dá para aceitar que a indústria tabagista, que mata milhões
de pessoas e torna doentes outros milhões , em todo o mundo, possa
sair por aí proclamando a sua responsabilidade social. O mesmo
vale para a indústria de bebidas, armas e assim por diante.
O conceito de responsabilidade social tem que ser tomado em sua integridade.
Só teria condições de ser considerada como socialmente
responsável a organização que não ferisse
qualquer um dos princípios de transparência, ética,
comportamento social saudável etc. Uma ação isolada
(patrocínio de show, doação para hospitais etc) ,
ainda que possa ser valorizada, não garante a etiqueta de responsabilidade
social para organização alguma. Será que vamos ter
que invocar de novo a figura do traficante? Mesmo os ditadores ou os políticos
corruptos (eles também dão cestas básicas, não
é verdade?) não são o tempo todo ruins, pelo menos
para seus comparsas e familiares.
A imprensa, ao não assumir o conceito de maneira abrangente, acaba
caindo nessas armadilhas e está disposta a acreditar que uma campanha
que se baseia no incentivo ao consumo de cigarro e de bebidas, mas que
tem como slogan: fuma ou beba com moderação, é um
sinal de ação cidadã. Ou que acredita que, ao acrescentar
o famoso "se persistirem os sintomas, consulte o seu médico",
ao término de suas mensagens publicitárias, os laboratórios
farmacêuticos são a melhor coisa do mundo, mesmo que estejam
estimulando a automedicação e não mencionem os efeitos
colaterais dos medicamentos que anuncia. A imprensa reproduz, sem ficar
vermelha, as falas de empresas de agrotóxicos , mesmo quando elas
estão prometendo jogar veneno no país inteiro, e pode até
acreditar que a Monsanto é cidadã, ao associar transgênicos
e saúde.
Se a imprensa fosse mais investigativa, e se dispusesse a fazer uma releitura
da trajetória de boa parte das empresas que se proclamam cidadãs,
iria encontrar motivos suficientes para desconfiar delas e não
lhes dar crédito. A história da Philip Morris (ou da indústria
tabagista como um todo) é um amontoado de deslizes éticos,
de mentiras, de ações "por debaixo dos panos",
tanto assim que o grupo até resolveu mudar de nome para ver se
limpava a imagem. Quem quiser saber um pouco dessa história, pode
ler o livro O fumo, da Publifolha, ou fazer uma
busca (nem dá muito trabalho) na Internet. Há laboratórios
farmacêuticos (não são poucos) que manipulam pesquisas
e, sobretudo, adotam uma propaganda mentirosa, com a complacência
da legislação brasileira, que é frouxa, e da Justiça,
que sempre acoberta os poderosos. A Shell propaga sua transparência
de gestão e sua excelência ambiental e está aí
envolvida na poluição da Vila Carioca e em escândalos
de manipulação de dados sobre as reservas de petróleo.
Enfim, não é possível enxergar as organizações
pelo que elas falam (assessoradas por agências "competentes",
mas muitas vezes pouco éticas), mas pelo que elas efetivamente
são.
Nos cursos de comunicação e no mercado , infelizmente, muitos
professores, profissionais e uma literatura comprometida vendem um conceito
de cidadania e de responsabilidade social que se adapta a qualquer coisa.
Responsabilidade Social não deve ser como sapato: existe um modelo
e um formato para cada tipo de pé.
A imprensa tem uma responsabilidade (e bota responsabilidade social nisso!)
enorme ao propagar esses conceitos inadequados, porque , com isso, faz
o jogo de organizações inescrupulosas que pretendem lançar
mão deles para "ficarem bem na foto".
É preciso acabar com essa hipocrisia, exigir seriedade e, sobretudo,
estar vigilante para não cair no logro desta parceria (organizações
e mídia), estabelecida para enganar a opinião pública.
É preciso reagir às investidas destas organizações,
que ficam "cavando" (e comprando, a partir de apoios e patrocínios)
espaços em eventos da área de Comunicação
Empresarial, Marketing/Publicidade, comparecendo em revistas e jornais,
ou promovendo campanhas publicitárias milionárias, visando
criar uma imagem mentirosa, fruto deste cinismo organizacional.
Se a imprensa não cumprir o papel que dela se espera neste caso,
estará contribuindo para reforçar essa mentira e avacalhar
um conceito importante, que, se visto de maneira adequada, poderia constituir-se
em referência, permitindo separar empresas vilãs (e coloca
vilania nisso!) de empresas verdadeiramente cidadãs.
A nós, profissionais de comunicação , resta-nos abrir
bem os olhos e ouvidos, enxergar além das notícias e dos
comerciais e pesquisar a trajetória destas organizações
que, hoje, comparecem na mídia, rotulando-se cidadãs. Não
devemos compactuar com colegas que, a pretexto de estarem fazendo o seu
trabalho ("sou profissional e faço o melhor para divulgar
o meu cliente"), se prestam a enganar a opinião pública
(e alguns até dão uma bela caprichada!).
Como profissionais liberais, os comunicadores não podem invocar
a ética da guerra:" apenas estou cumprindo ordens do comandante"
e lavar, impunemente, as mãos . A ética profissional (que
implica em compromisso com a sociedade) deve estar acima de tudo.
Uma Comunicação Empresarial prostituída e uma imprensa
omissa não servem para coisa alguma. As organizações
não éticas devem ser colocadas no lixo da história.
E não há conceito fluido de Responsabilidade Social que
possa tirá-las de lá. Por aqui, a gente se compromete, além
de empurrá-las para o lixo, a colocar a tampa na lixeira, porque
não é saudável ficar contemplando esta sujeira toda.
Responsabilidade Social clonada cheira muito mal.

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