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TV, Crianças e irResponsabilidade Social
Renata Boutin
Radialista, mestranda em Comunicação Social na UMESP e pesquisadora da relação entre mídia e público infantil.


A televisão é um meio muito eficaz de divulgar uma mensagem a um grande número de pessoas. O problema está em definir que tipo de mensagens e para quem. Na prática é qualquer mensagem para qualquer pessoa que esteja em frente ao aparelho de TV. E isto se torna preocupante, à medida que observamos que grande parte do público que assiste à televisão é formado por crianças, que são, justamente, os indivíduos mais vulneráveis.

No período de um ano, as crianças em idade escolar passam duas vezes mais tempo assistindo televisão do que na sala de aula (ZAVASCHI, 1998).A televisão influencia a formação do caráter e da personalidade infantil, e a criança na maioria das vezes tem mais contato com a televisão que com a escola ou até mesmo com seus pais. Uma criança chega a vida adulta depois de ter assistido a quinze mil horas de televisão e mais de 350 mil comerciais, contra menos de mil horas de escola (COSTAS, 1991). Além de babá a televisão atua como professora, conselheira e, provavelmente como companheira.

Infelizmente, nem sempre a criança está preparada para receber as mensagens que lhe são transmitidas.Normalmente, elas não conseguem distinguir o que é real do que não é. A confusão entre a imagem e a realidade atinge todos os tipos de programas, inclusive os que são originalmente taxados de programas de ficção.Este é um dos fatores que faz com que elas se tornem especialmente vulneráveis às mensagens da televisão. Conforme as etapas do desenvolvimento cognitivo de Piaget, a criança só é capaz de distinguir entre fantasia e realidade numa idade avançada. Para as crianças uma história possui vida própria.Inclusive quando admitem a existência de simulação em alguma história, as incorporam de alguma forma à realidade e, incapazes de fazer abstrações criam um modelo peculiar de realidade (FERRÉS, 1996).

A criança aprende por experimentação e observação, fenômenos inconscientes. As reações de adesão ou rejeição dos personagens tendem a ser produzidas mais por envolvimentos emotivos que por considerações ideológicas ou éticas. As reações emotivas provocadas pelos personagens induzem as crianças a assumir ou rejeitar os valores por eles representados.

As mensagens da telinha, porém, também agem por impregnação, de modo quase subliminar, pois o "conteúdo" é mascarado pela forma, por apelos comunicacionais muito eficazes, tais como alusões arquetípicas, situações humorísticas ou de grande dramaticidade, personagens vividos por galãs ou atrizes muito apreciadas (BELLONI, 2001).

E a televisão impressiona, e muito, a criança. Pessoas, animais, objetos ou espetáculos que haviam sido assistidos pela televisão costumam decepcionar quando vistos ao vivo. A televisão imprime nesses espetáculos uma aura mágica que eles não possuem na realidade. Causa inclusive sentimentos de frustração, muito negativos pra qualquer um, especialmente nesta idade.

Este turbilhão de imagens que preenche o cotidiano das crianças e adolescentes vai formando sua personalidade ao mesmo tempo (mas provavelmente não da mesma forma) que suas experiências do mundo exterior, real, concreto. É importante lembrar que a televisão é um objeto técnico absolutamente integrado ao cotidiano das crianças que com ela interagem "naturalmente" da mesma forma como elas interagem com o gatinho ou com seus brinquedos. Esta presença constante de imagens fictícias, que ocupam partes cada vez maiores do tempo livre das crianças, rouba-lhes (ocupando-o) o tempo da não-escola, dedicado ao brinquedo e á imaginação, à vida social cheia de experiências interativas com seus pares e com os adultos. (BELLONI, 2001, p.65).

Quando se trata de televisão, tudo é aprendizagem: o noticiário, as inserções, as novelas, os programas de auditório...Não só os programas infantis e os desenhos animados devem ter preocupações educativas. Embora, na maioria das vezes, nem estes preencham as necessidades do seu público. Não é preciso muito (ou quase nenhum) conhecimento teórico para que qualquer adulto razoavelmente consciente fique chocado com a programação oferecida as crianças.

Mas não quero que pensem que sou apocalíptica.A televisão tem muitos efeitos positivos, sem dúvida.Crianças que vêem muita televisão têm melhores aptidões para construir conceitos de relações espaço-temporais, para compreender as relações entre o todo e suas partes e até para identificar os ângulos das "tomadas de imagens", o que significa um reforço das faculdades de abstração (LOBO, 1990).

Ela desenvolve também o vocabulário, o raciocínio matemático, instiga a capacidade de resolução de problemas, estimula a criatividade. Quando a criança tem contato com um material de boa qualidade (como os infantis da TV Cultura, por exemplo), pode ter estimulada além da criatividade, o senso crítico, a vida em sociedade, a cooperação, a solidariedade, a amizade, o esforço escolar, entre outras qualidades.

O que se nota, no dia-a-dia, é que o que acaba prevalecendo são as influências negativas, como a tendência á imitação, submissão, isolamento, apatia. O desenvolvimento do consumo exagerado, da violência, da falta de organização, da atividade sexual precoce e diminuição da comunicação familiar. Diminuição da capacidade crítica, dificuldade para ordenar o pensamento, dispersão, respostas estereotipadas (LOBATO, MORAES, VANNUCHI, 2003, P-57).

Uma criança assiste a programas que prendam sua atenção e despertem sua curiosidade. Para enriquecer sua vida este programas deveriam, além disso, estimular-lhe a imaginação, ajuda-la a desenvolver seu intelecto e tornar claras as suas emoções, estar harmonizado com suas ansiedades, medos e aspirações, reconhecer plenamente suas dificuldades e, simultaneamente, sugerir soluções para os problemas que a perturbam (LOBO, 1990).

O que acontece de fato não corresponde a este ideal. O meio, especialmente os canais comerciais (que são os canais aos quais o grande público tem acesso) não têm este tipo de ideal e muito menos esta preocupação. E as crianças pequenas aceitam o que a televisão lhes mostra como sendo correto e só mais tarde elas se revelam aptas a julgar o conteúdo de realidade de um programa. E nem poderia se esperar que elas pudessem distinguir qual programação seria interessante ou útil para elas, considerando que ainda não têm este discernimento.

Na Espanha, segundo o estudo "Televisão e Programas Infantis", publicada em 1993 pelo Ministério de Assuntos Sociais, os programas infantis não são os de maior audiência entre as crianças. Apesar de serem oferecidas semanalmente mais de 60 horas de desenhos animados, os espectadores infantis assistem principalmente a programas destinados ao público adulto numa porcentagem de 75% entre crianças entre 3 e 8 anos e de 80% de crianças entre 9 e 14 anos. Embora sem estes estudos quantitativos, sabe-se que no Brasil esta tendência se repete.

Buscando combater este tipo de dado e mediante pressões populares, segundo indicação do Ministério da Justiça, a programação é livre até as 20 horas. Das 20h às 21h, deve ser indicada para maiores de doze anos; das 21h às 22h, para maiores de 14; das 22h às 23h, para maiores de 16. Só quem é maior de 18 anos deve permanecer assistindo à TV após as 23h, simples assim, está tudo resolvido. Claro que não!Quem tem criança em casa (ou vizinhos) sabe disso. Não vou ficar discorrendo sobre Ratinhos, Gugus, Leões, Datenas, Márcias, Lucianas, Sérgios... Seria "lugar-comum à nona potência". Acho que até a audiência fiel destes programas reconhece, lá no fundo, que trata-se de lixo disfarçado de programação.

É impossível simplesmente limitar o acesso da criança a TV e, mesmo se fosse possível, os programas ditos "feitos para o público infantil", incluindo os desenhos animados, estão longe de corresponder ao ideal de transmissão de uma programação adequada.E quanto aos "programas infantis" apresentados por loiras magérrimas, super maquiadas e com roupas que as deixam seminuas ou sensuais? E, como se não bastasse, despejam sobre a criança (especialmente meninas) uma infinidade de produtos que as tornarão "mais bonitas, interessantes, descoladas", como sandálias de salto alto, roupas de gente grande e muita maquiagem e perfume. Estamos falando de crianças de quatro a nove, dez, anos. Claro, porque a mídia já transformou os maiores de dez em "pré-adolescentes" e/ou "Ultrajovens", que já não admitem ser tratados como crianças. Embora o sejam. E nos intervalos, desenhos-animados. Bom, não é? Péssimo! A maioria atualmente explora a violência explícita.São apresentadas lutas e mais lutas (que atingem especialmente os meninos) e falsas justificativas para esta violência. As crianças assimilam esta pancadaria como justificável e solução para problemas e, não raro, têm este comportamento em casa e na escola, com seus coleguinhas.Cria-se toda uma série de estímulos: Álbuns, fantasias, jogos de videogame, cards. E a criança passa o dia inteiro neste mundo imaginário, reagindo no mundo real com as ferramentas que aprendeu nele.

E a violência não é apresentada somente nos desenhos, mas em toda a programação, seja ela de entretenimento ou jornalística. Passam uma imagem onde a violência física (lutas corporais, mortes violentas, ferimentos, explosões, tiroteios, tortura) tende a ser encarada como um elemento natural, comum, presente na via cotidiana (BELLONI, 2001). Isto confirma a tese da banalização da violência como resultado da recorrência de mensagens de violência nas mídias. A violência aparece como demonstração de coragem, de valor e a não-violência, como signo de covardia e caminho para a derrota e a frustração.

Nos canais por assinatura (sem apresentadoras seminuas) não há apelação à sexualidade e a violência fica encapsulada nas animações japonesas. E o consumo pode correr solto nos inúmeros artigos que acompanham os heróis do desenho. O videogame, os 'cards' e os diversos produtos de marca dispensam anúncios comerciais. Aqui o programa é, em si mesmo, a propaganda.

E por favor, não me venham com o discurso "a programação é ruim porquê o público gosta, eles não gostam de programas de qualidade", porque me dá enjôo. Levemos em consideração o enorme sucesso que canais por assinatura destinados às crianças conseguem apresentando vida animal, curiosidades, flora, os "porquês" de uma série de coisas que, sem dúvida, chamam a atenção das crianças, alem de desenhos educativos, e também inteligentes. E sem ir tão longe, é fácil lembrar de programas muito bons da TV Cultura, como "Bambalalão" (cheguei, inclusive, a participar de um programa...que saudade), "Rá-tim-bums", "Co-có-ri-có"...O que sinto, como radialista e pesquisadora, é que o problema é uma grande preguiça, um grande comodismo...Pra quê criar novos programas se estes já estão aí há tantos anos (e tome "Mundo da Imaginação", "Fábrica Maluca" e outros piores do SBT que não dá nem pra citar). Falta o conceito de Responsabilidade Social permeando as produções, como uma luz que as atravessa. O que temos é uma enxurrada de programas de péssima qualidade no que diz respeito ao conteúdo, e a inexistente preocupação com a transmissão de conceitos importantes para a formação intelectual do cidadão.

Quando estou sem sono fico "zappeando" entre as emissoras de rede aberta (é melhor que "Maracujina", podem comprovar) me vem a questão: Afinal, as emissoras e produtoras sabem o que quer dizer conteúdo? Sabem ou pelo menos, querem saber o que é esta tal de "Responsabilidade Social" ? Elas não sabem que tem gente viva aqui? Respiro fundo, dou um suspiro... Ah...que pena.

Bibliografia

BELLONI, Maria Luiza. O que é mídia-educação.Campinas: Autores Associados, 2001.

COSTAS, Jose Manuel Moran. Como ver televisão - Leitura crítica dos meios de
comunicação
. São Paulo: Paulinas, 1991.

FERRÉS, Joan. Televisão e educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.

LOBATO, Eliane; MORAES, Rita; VANNUCHI, Camilo. Descontrole Remoto - Fictícia ou
real, a violência na tevê afeta o dia-a-dia dos pequenos e deve ser motivo acompanhamento e bate papos entre pais e filhos.Isto É, São Paulo, n. 1751, p. 52-57, abril. 2003.

LOBO, Luiz. Nem babá eletrônica nem bicho-papão - a criança diante da TV.
Rio de Janeiro: Lidador, 1991.

ZAVASCHI, Maria Lucrecia. A televisão e a violência.Impacto sobre a criança
e o adolescente
. Porto Alegre : [s.n.], 1998