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Assessoria de Imprensa / Relacionamento com a mídia
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Artigo
Todos somos repórteres
Marcos Vicente Cóffani Lock
Jornalista, pós-graduado em Gestão de Processos Comunicacionais
pela ECA/USP, mestrando no programa de Comunicação Midiática
pela UNESP/Bauru e profissional com experiência de 21 anos em Comunicação
Empresarial, tendo passado pelas áreas de comunicação
do Senai, IOB, Grupo Santista e atuado à frente da própria
empresa durante sete anos, a Credencial Consultoria & Comunicação.
Atualmente é docente do curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação
Social da UNIRP- Centro Universitário de Rio Preto e consultor
de empresas na região de São José do Rio Preto
Resumo
Na atual era, em que a informação tornou-se comum, farta
e, portanto, essencial para nossa localização enquanto cidadãos
planetários, a mídia ocupa papel de destaque; por isso merece
tantos estudos. Neste processo de onipresença dos meios de comunicação
social e intensa segmentação, processo acelerado pela internet,
a produção de informações é avassaladora.
Em grande parte esta avalanche assume o caráter jornalístico,
adotando a forma e o sotaque noticioso para apresentar o fato às
audiências. Diante de uma análise mais detida (que começo
a realizar por conta de meu curso de mestrado na Unesp/Bauru), repara-se
que nem tudo é, ou mereceria, ganhar o status de noticia. Esta
mercadoria vai deixando cada vez mais para trás a sua vocação
natural, para revestir-se de intencionalidade planificada.
Este fenômeno, ao meu ver, dá-se em dois planos: no primeiro,
abrange as pessoas físicas, capazes de gerar informações
de muitas ordens e coletivizá-las através de todos os instrumentos
virtuais à sua disposição. O jornalista vai gradualmente
perdendo a posição de privilégio em sua postura de
determinar o que será ou não discutido socialmente. No segundo
plano, estão as organizações públicas, privadas
ou filantrópicas, gerando diariamente boa parte das pautas a serem
aproveitadas pelas redações dos jornais. A informação
que vem destes corporações está estreitando de forma
perigosa e inusitada as fronteiras entre o jornalismo e a propaganda.
Acadêmicos como o professor Manoel Chaparro acusam com freqüência
a intensificação deste fenômeno.
Em ambos os casos a natureza da informação funde-se com
a vocação da notícia e deste universo vai-se forjando
uma sociedade permeada por grande quantidade de informações,
o que estimula o aparecimento de muitas fontes que, antes, só se
manifestavam quando acionadas. Agora, muitas delas estão tomando
a iniciativa sem formação técnica ou com a devida
compreensão de sua responsabilidade social enquanto emissoras de
notícias. Por isso, defendo entre várias idéias,
que cursos superiores que formam pessoas para cargos de direção
deveriam incluir formalmente disciplina(s) com noções de
mídia em seus currículos.
Abstract
In the current it was, in that the information became common, it satisfies
and, therefore, essential for our location while planetary citizens, the
media occupies prominence paper; that it deserves so many studies. In
this process of omnipresence of the means of social communication and
intense segmentation, process accelerated by the internet, the production
of information is overpowering. This avalanche largely assumes the journalistic
character, adopting the form and the informative accent to present the
fact to the audiences. Before a more detained analysis (that beginning
to accomplish due to my mestrado course in Unesp/Bauru), it is repaired
that nor everything is, or it would deserve, to win the status of it informs.
This merchandise is going leaving its natural vocation more and more back,
to cover of planned intencionalidade.
This phenomenon, to mine to see, he/she gives him in two plans: in the
first, it embraces the individuals, capable to generate information of
a lot of orders and you collectivize them at your disposal through all
the virtual instruments. The journalist is going losing the privilege
position in its posture of determining gradually what will be or not discussed
socially. In the second plan, they are the public, private or philanthropic
organizations, generating good part of the lists daily be she taken advantage
of by the compositions of the newspapers. The information that comes from
these corporations is narrowing in a dangerous and unusual way the borders
between the journalism and the propaganda. Academic as teacher Manoel
Chaparro they accuse the intensificação of this phenomenon
frequently.
In both cases the nature of the information is founded with the vocation
of the news and of this universe it is going a society permeated by great
amount of information being forged, what stimulates the aparecimento of
a lot of sources that, before, they only showed when worked. Now, many
of them are taking the initiative without technical formation or with
the due understanding of its social while issuing of news responsibility.
That, I defend among several ideas, that superior courses that form people
for direction positions should include formally with media notions in
its curricula.
1. A compreensão do que é notícia
1.1 A notícia enquanto valor
O que faz, afinal de contas, um acontecimento qualquer ganhar o status
de noticia? Todos os dias ocorrem no mundo milhares de eventos. Por que
alguns deles são pinçados pela mídia e se transformam
em notícia, enquanto outros permanecem ignorados? Eles são
escolhidos aleatoriamente pelos repórteres a seu próprio
critério e julgamento? Ou é porque estes fatos têm
certos atributos ou "valores-notícia", que os transformam
em eventos potencialmente noticiáveis, bastando para isso serem
identificados por algum jornalista? É muito conhecida o bordão
que diz: "Se um cachorro morde um homem, não é notícia.
Mas, se um homem morde um cachorro, isto sim é notícia".
O que não é conhecida é a autoria desta frase. Ela
foi proferida por Amus Cummings, ex-editor do New York Sun, considerado
uma das melhores referências daquilo que conhecemos hoje como jornalismo
impresso de massa.
Com isto ele quis indicar como valor-notícia, o caráter
de anormalidade e de excepcionalidade da afirmação. Ou seja,
para um acontecimento ganhar o nível noticioso, ele teria de apresentar
um rompimento com a ordem natural das coisas, um desvio do comportamento
esperado. Mas, é somente este caráter de transgressão
que transforma um acontecimento em notícia?
Não é o que diz a literatura. A atenção principal
dos conceitos usuais de notícia se concentra nos atributos do fato
em si e não necessariamente em sua excepcionalidade. Diz-se que
para ser notícia, um fato também deve ter atualidade, proximidade,
proeminência (da pessoa envolvida), impacto e significância.
Mauro Wolf é, certamente, o autor que melhor sistematizou estes
atributos dos fatos noticiáveis, utilizando o conceito de noticiabilidade
para descrever a aptidão de um fato para tornar-se notícia.
Segundo ele, a noticiabilidade é constituída pelo conjunto
de requisitos que se exigem dos acontecimentos para adquirirem a existência
pública de notícia. Não adquirindo o estatuto de
notícia, o acontecimento é excluído do elenco de
informações midiáticas e permanece como "matéria-prima".
Para adquirir o nível de notícia, portanto, o fato necessita
ter as qualidades chamadas valores-notícia, cujo referente comum
devem ser sempre a realidade. Seguindo o raciocínio de Wolf é
preciso também cruzar a noção de noticiabilidade
com a natureza e as necessidades dos jornalistas e dos meios para os quais
eles trabalham. É da negociação que um fato deve
passar envolvendo o próprio acontecimento e suas qualidades, aliado
a algumas exigências decorrentes das influências do trabalho
jornalístico, que a notícia começa a tomar forma.
Negociação essa que, muitas vezes, é subjetiva e
ocorre de maneira involuntária no cotidiano das redações.
Os fatos poderiam ser divididos, ainda em negativos e positivos. Reparem
que coloquei propositalmente o item "negativos" em primeiro
lugar. Costuma-se dizer que "notícia boa é notícia
ruim". Por que as notícias tristes tem mais espaço
na mídia do que as boas? Galtun e Ruge elaboraram uma interessante
teoria sobre a transgressão social enquanto notícia que
nos ajuda a encontrar uma resposta para esta indagação.
Dizem eles que quando ocorre um fato negativo, há uma forte ruptura
social, e que este fato exige menos tempo, é menos ambíguo
e se desenrola integralmente entre duas edições de jornal,
ou entre dois telejornais, sendo assim mais noticiável. Acontecimentos
positivos, por outro lado, são por natureza mais lentos, mais esperados,
mais programáveis e, portanto, menos noticiáveis. Por isso,
segundo Wolf, a organização do trabalho jornalístico
está orientada para captar mais os acontecimentos ruins, ou seja
mais pontuais, que representam maior ruptura social, do que aqueles constantes,
que se traduzem em permanência, em estabilidade.
Estamos falando aqui da ruptura não planejada, não intencional,
espontânea. A literatura de ciência política não
ajuda muito, porque trata sempre da ruptura ou da transgressão
enquanto ato consciente. Não é o nosso caso nesta análise.
Estamos nos referindo a uma ruptura inconsciente, quase sempre involuntária
e no nível individual, e não no coletivo. Estamos tratando
aqui não da ordem pública estabelecida, mas dos comportamentos
e relações sociais esperados no nível individual.
Infração, por parte de indivíduos isolados das relações
que regulam e organizam o comportamento do homem e estabelecem as condições
de ordem social. Ou infração dos princípios éticos
que definem as fronteiras da vida e da sociedade humana.
Os acontecimentos relatados nas noticias são, comumente, desvios
das normas e dos comportamentos das pessoas e não das coisas. Eles
contém algo que Luiz Gonzaga Motta chama de "anormalidade
negativa". Ou seja, uma verdadeira quebra de rotina. Antonio Serra,
na análise de um jornal popular brasileiro encontrou uma expressão
no título de uma coluna diária que talvez defina com precisão
o caráter deste tipo de notícia: o "avesso da vida",
ou seja, um caráter de excepcionalidade que no jornalismo é
entendido como "extraordinário".
Para Adriano Duarte Rodrigues, é um acontecimento noticiável
tudo aquilo que irrompe na superfície da história a partir
de uma multiplicidade aleatória de fatos virtuais. Pela sua natureza,
quanto mais menos previsível for um fato, mais probabilidade ele
terá de se tornar notícia e de integrar o discurso midiático.
Para ele o discurso do acontecimento jornalístico seria uma anti-história,
algo que nega a racionalidade.Todos os demais acontecimentos, portanto,
regidos por causalidades facilmente determináveis ficam fora do
alcance deste raciocínio.
1.2 A notícia planejada
Dito isso, inicio esta nova etapa deste trabalho reiterando um outro aspecto
deste fenômeno que envolve a concepção de notícias.
Enquanto linguagem o jornalismo tem como dimensão mais pragmática
a função e a aptidão pragmática, ou seja,
a capacidade lingüística de viabilizar ações
e produzir efeitos sociais. Por meio do jornalismo, usando-lhe os atributos
interativos e deles tirando proveito, os protagonistas do cotidiano, entre
eles os próprios jornalistas, agem sobre o mundo e entre si, com
o objetivo de realizar intervenções na atualidade, de modo
a transformá-la ou a explicá-la. Dentro dessa visão
é essencial compreender que o jornalismo não é um
discurso autônomo. São muitos, cada vez mais, os sujeitos
sociais competentes que ousam para agir e interagir no mundo presente.
O jornalismo tem, na sua natureza, a aptidão de captar, compreender,
reorganizar e difundir os discursos que a sociedade produz, agregando-lhes
a credibilidade de uma mediação crítica. Por este
entendimento, ele assume com convicção o papel de macrointerlocutor,
elaborando significados e construindo sentidos.
O sucesso da intervenção jornalística, no entanto,
depende de um atributo vital: o seu caráter asseverador.que quer
dizer: é da natureza do jornalismo a qualidade de merecer fé.
Para preservar e enriquecer este atributo fundamental, é preciso
que todas as decisões e ações jornalísticas
tenham como suporte uma tríade interativa, complementar e inseparável
que são:
1) A técnica, que garante precisão, densidade e clareza
à informação;
2) A ética: somos todos responsáveis pelos efeitos de nosso
trabalho e de nossas intervenções no processo informacional;
e
3) A estética, que deve ser a do relato veraz e das razões
do interesse público, na construção das mensagens.
As redações são ativadas diariamente por duas famílias
distintas de aconte-cimentos: uma delas é a dos acontecimentos
imprevistos, cujos sinais são sempre percebidos pelas redações
através de seus métodos eficazes de captação.
Há rotinas, canais, pessoas, estratégias permanentemente
de plantão para que este tipo de informação não
passe despercebida ou fique à margem do processo jornalístico.
Outra família é a dos acontecimentos planejados, produzidos
e controlados por pessoas ou instituições com aptidão
para tal. Cada vez, numa escala crescente e sem precedentes, o espaço
das pautas do jornalismo, seja aquele praticado pela mídia impressa
(jornais e revistas), eletrônica (rádio e televisão)
ou virtual (sites e webjornais), é ocupado pelos acontecimentos
programados. Quer os editores e pauteiros gostem, ou não, os produtores
competentes de acontecimentos exercem influência direta sobre o
que será divulgado, ajudando a moldar a função de
gatekeeper dos jornalistas. Isto em nada reduz a importância do
trabalho jornalístico nas redações, pois, por causa
da indispensável credibilidade do processo, pertence-lhes a prerrogativa
de decidir o que deve e como deve ser divulgado, impondo-se, nessa decisão,
os critérios da cultura jornalística, ente os quais o que
atribui ao jornalismo a responsabilidade de uma mediação
independente e crítica.
O interesse é a palavra-chave nos critérios da cultura jornalística.
Investiga-se, seleciona-se e divulga-se o que se tem interesse, prevalecendo
como referência a perspectiva do interesse público. Sem esquecer,
porém, que os intervenientes ouvidos, os entrevistados, os observados,
os pesquisados, têm seus próprios interesses, legítimos,
que também devem ser conhecidos e levados em conta na seleção
dos fatos que vão compor a próxima edição.
No momento de elaborar ou atribuir significados às mensagens, é
preciso estimular e orientar o público consumidor do jornalismo.
Em outras palavras, é preciso ir em busca da conexão com
o "cliente-leitor-espectador-internauta" e elevar seu nível
de atenção para com as informações escolhidas
e veiculadas. Um veículo jornalístico só consegue
impor-se se produz um noticiário de alguma relevância para
o seu público prioritário.
Mas voltando à velha questão, que inclusive, deu início
à esta comunicação: o que faz um acontecimento (programado
ou espontâneo; planejado ou imprevisto) ser importante e despertar
interesse? Que atributos ele deve ter para merecer relevância jornalística?
A resposta passa indubitavelmente pelo conceito de atualidade, que torna
compreensível o jornalismo enquanto área de conhecimento.
Outro fator, além dos já citados por Wolf, é a pressão
exercida pelos organismos que funcionam como verdadeiras pautas externas.
Qualquer pesquisa aplicada às redações hoje revelará
que a esmagadora maioria dos conteúdos jornalísticos oferecidos
à opinião são relatos ou análises de acontecimentos
planejados e controlados por instituições ou pessoas que
decidiram promovê-los, sabiam como fazê-lo e tinham competência
e credibilidade para isso.
Um flagrante que demonstra que este é um fenômeno que ultrapassa
nossas fronteiras é o artigo de Líriam Spnholz retirado
da internet onde ela argumenta que mais da metade das notícias
publicadas nos jornais americanos e alemães vêm de assessorias
de imprensa ou foi "provocada" por estratégias de relações
públicas. Segundo ela, desde o começo dos anos 90, nos Estados
Unidos há mais assessores de relações públicas
e de imprensa do que jornalistas empregados em redações.
Estudos das fontes das notícias contribuiriam para mostrar o quanto
a influência externa é forte. Uma pesquisa americana nos
anos 70 já apontava para isso: mesmo em jornais como The New York
Times ou The Washington Post, 60% do material das redações
tinham origem em assessorias de imprensa. Segundo Líriam, estudos
mais recentes como os de Günter Bentele, pesquisador e professor
da Universidade de Lípsia, mostram um relacionamento de dependência
recíproca entre jornalismo e assessorias de imprensa: o material
enviado por elas torna possível o trabalho do jornalista, do qual
depende o sucesso do trabalho do assessor.
O artigo aponta que um item importante a se analisar e a se observar é
que há uma crescente pressão sobre o mercado jornalístico
no que se refere à atualidade, à abrangência e ao
alcance das mensagens. Como conseqüência, a necessidade de
vender acabaria por sobrepor-se às regras jornalísticas
e o conteúdo empobrecer-se-ia, com cada vez menos condições,
pessoas e tempo para se produzir uma boa reportagem e para a investigação
jornalística.
Como se vê a quantidade e a qualidade desses acontecimentos mobilizam,
aqui e no exterior de tal forma as energias e os espaços do jornalismo
que, segundo Chaparro, tornaram raras, na imprensa diária, as reportagens
de desvendamento do atual, ou seja, o agora tal como está e é,
no mundo presente das pessoas.
É sabido que as pautas jornalísticas sofrem substantiva
interferência crescente dos produtores de acontecimentos, em cujas
aptidões se inclui o domínio das habilidades jornalísticas.
A divulgação eficaz é uma condição
de sucesso para as decisões, ações, idéias,
falas, produtos, serviços e saberes que, embora vinculados aos
interesses particulares de quem os gera, têm relevância para
a sociedade, pela influência transformadora ou explicativa que exercem
sobre o mundo presente das pessoas.
De acordo com Jorge Pedro Sousa é preciso notar que ainda restam
muitas estranhezas neste relacionamento com as fontes ativas e, apesar
de muitas desconfianças que ainda restam com relação
a certas fontes, ambos estes pólos são atualmente interdependentes,
pois geralmente os jornalistas estão tão interessado nas
fontes como as fontes nos jornalistas. Há muitos problemas que
se levantam nas relações entre eles, pois elas podem atingir
graus problemáticos de cumplicidade. Acrescente-se que as fontes
nunca são iguais. Não são iguais em relevância
social, não são iguais em poder de influência e não
são iguais no volume de informação. Somente podem
ser alinhadas no tocante à responsabilidade dos efeitos ao nível
da construção social da realidade, fenômeno originado
de sua relação com as redações.
Os jornalistas estão sempre interessados em fontes abertas, capazes
de providenciar toda a informação crível de que eles
necessitam todos os dias, para que o produto noticioso possa ser fabricado.
Em contrapartida, as fontes estão interessadas em que os jornalistas
usem tudo o que elas pretendem, ou seja, que toda a informação
que disponibilizem passe pelos "portões" dos gatekeepers.
Os problemas de acesso às fontes podem levar os jornalistas a usar
mais fontes organizacionais que as individuais, pois, geralmente, as organizações
tem um horário de funcionamento mais ou menos coincidente com o
expediente das redações, além de possuir um staff
mais confiável.
Todo este quadro promoveu ou foi acompanhado de inovações,
incluindo-se as inovações tecnológicas, nos processos
de seleção, processamento, distribuição e
mesmo consumo de notícias. Quase ao mesmo tempo novas mídias
estabeleceram-se, como os computadores em rede, a televisão a cabo
e satélite, os jornais eletrônicos e, agora, uma nova tendência
parece desenhar-se com o aparecimento destes novos media: a interatividade.
Dito isso, a questão crucial volta à tona. Um dos debates
que atualmente mais vem agitando o mundo da comunicação
social, acadêmico e em particular do jornalismo, consiste em saber
até que ponto é o mercado ou são os jornalistas a
ditar as leis e os critérios na produção e difusão
de notícias.
1.3 As notícias e a internet
A propagação de informações, noticiosas ou
não, têm se alterado profundamente neste último lustro,
por conta do fenômeno da internet, que tem diminuído a importância
da figura do jornalista como gestor privilegiado dos fluxos de informação
no meio social. Por exemplo, quando o relatório sobre o caso Clinton-Lewinsky
foi disponibilizado na internet, milhões de pessoas puderam acessar
as informações diretamente. Os órgãos jornalísticos
para esta multidão não funcionaram como gatekeepers. Com
a previsível perda de influência dos mediadores culturais
tradicionais, esta nova situação anuncia um salto sem precedentes
na liberdade de expressão. Pois o que se está oferecendo
é precisamente a mais ampla liberdade de expressão e de
navegação, De fato, a diversidade informacional e a liberdade
de expressão continuam a aumentar rapidamente apesar dos movimentos
de fusão. O que está ocorrendo é que também
os cidadãos têm maior capacidade de evitar o "crivo"
jornalístico no que diz respeito a obtenção e à
emissão de informações públicas.
Pela primeira vez há uma capacidade de comunicação
maciça, não mediada pelos meios de comunicação
de massa. A Internet está se convertendo no coração
articulador dos distintos meios, da multimídia e se transformando
no sistema operativo que permite interconectar e canalizar a informação
sobre o que acontece, onde acontece, o que podemos ver e o que nos é
invisível.
A Internet não é simplesmente tecnologia; acredito que ela
seja o meio de comunicação que constitui a forma organizativa
de nossas sociedades; ela seria o equivalente ao que foi a fábrica
ou a grande corporação na era industrial. É o coração
de um novo paradigma sociotécnico, que constitui na realidade a
base material de nossas vidas e de nossas formas de relação,
de trabalho e de comunicação.
O fato de ser uma comunicação horizontal, de cidadão
a cidadão, significa que eu posso criar meu próprio sistema
de comunicação na internet, posso dizer o que quiser, posso
comunicá-lo a qualquer momento. Sousa frisa que o ciberespaço
é um suporte cada vez mais usado para a comunicação,
até porque é mais fácil comunicar-se on line do que
fazer as pessoas deslocarem-se e já é possível do
celular acessar a internet, enviar e-mails, obter informações
em chats, navegar etc.
Tudo muito interessante e até divertido. Mas eis que um problema
se apresenta: em que medida podemos acreditar naquilo que nos chega através
da internet? Os temores a respeito da verdade das informações
disponíveis na internet são legítimos. Eles concernem
em particular aos documentos não assinados ou que podem ser atribuídos
a uma instituição que ponha sua credibilidade em jogo nas
informações que coloca à disposição
do público. É preciso dizer, contudo, que a verdade resulta
de um processo coletivo de busca e de produção que, quanto
mais livre e múltipla é a palavra, mais eficaz é.
Além do mais, uma ampliação da liberdade de expressão
e de acesso à informação implicam necessariamente,
com um aumento de riscos, uma transferência de responsabilidade
para os indivíduos e os múltiplos atores sociais. Mais do
que reforço da censura, esta nova responsabilidade pede uma educação
ética e crítica renovada.
Ainda que seja um processo ainda com muitas incertezas, o fato é
que os os cibercidadãos, de acordo com Lévy, estão
aprendendo a expor suas idéias em seu websites e a prática
do diálogo nas comunidades virtuais os está habituando à
discussão, à deliberação pública. Sendo
capazes de exprimir-se, eles esperam agora ser ouvidos. O emérito
professor francês é positivo quando projeta que novas formas
de governança deverão encontrar lugar para essa "nova
raça de cidadãos", educados, informados, habituados
a se exprimir, trabalhadores do intelecto e da comunicação
na nova economia, para quem os homens políticos e os altos funcionários
jamais serão mais do que outros trabalhadores intelectuais e relacionais
como eles.
Se parece consenso que todos teremos um comprometimento inquestionável,
inevitável e inalienável com o processo de geração
das informações, que podem ser apropriadas pela mídia
de massa e de pós-massa (internet), já cabem estas questões:
quais as dimensões deste envolvimento? Que grau de complexidade
atingirá? Como ele pode servir bem aos propósitos da sociedade
e como ele pode alavancar carreiras profissionais? Talvez já se
possa antever que, em um futuro bem próximo, todos os internautas
possuirão seu site pessoal, a exemplo do que já acontece
com os e-mails. Afinal orientações múltiplas e hospedagem
gratuitas já são comuns na rede. Neste sentido, ainda de
acordo com Lévy, será preciso preparar as pessoas do mercado
de trabalho não apenas para exercitar o discernimento no momento
em que consomem as informações que chegam pela mídia,
mas também para saber relacionar-se com ela e extrair dividendos
positivos deste processo.
Então, se as informações de interesse coletivo estão
sendo processadas mais e mais fora das redações e as questões
individuais tornam-se públicas com facilidade nunca vista, certamente
porque está havendo domínio maior do que se poderia chamar
de a "consciência do valor da informação".
É, portanto, oportuno que a sociedade internauta compreenda os
verdadeiros fundamentos da importância social da informação,
suas influências, seus desdobramentos, o que pode acarretar, a capacidade
de ser original e capacidade de responder juridicamente por uma inverdade
que tenha absorvida por alguém e que sofreu reveses pessoais ou
profissionais.
2. Conclusões
Para finalizar, cito Max Weber que, ao meu ver sintetiza bem a questão
da intencionalidade que precisa ser depositada no ato da projeção
social ao indicar a profunda alteração no modo de colocação
do indivíduo na sociedade. Diz Weber que já não são
mais os laços de sangue ou os valores da tradição
que determinarão a inserção no contexto público,
mas trata-se agora de um problema que cada indivíduo tem diante
de si, e que não pode ser resolvido sem levar em consideração
a vontade racional de se inserir na coletividade. Dito de outro modo,
os valores da tradição não garantem mais a colocação
da pessoa no espaço coletivo, pois este ultrapassa o âmbito
da simples comunidade. De estrutura muito mais complexa, a organização
em forma de sociedade pressupõe o convívio de uma multiplicidade
de comunidades que, por vezes, chegam a se recobrirem parcialmente e cuja
forma é dada, em grande parte, pela divisão social do trabalho
e pelos grupos de afinidades, mas que não se restringe a este único
aspecto. Trata-se de um aglomerado de comunidades mais ou menos efêmeras,
que refletem, na realidade, as múltiplas associações
circunstanciais que o indivíduo estabelece ao longo de suas relações
com grupos locais (trabalho, vizinhança, escola, círculo
de amizades etc) no processo de formação de sua identidade.
Desse modo, o indivíduo não tem seu vínculo coletivo,
nem sua identidade assegurados de antemão pela tradição,
mas deve construí-los através de seu engajamento espontâneo
na diversidade das formas coletivas de agrupamento. O processo comunicativo
deixa de ser analisado em sua generalidade, não sendo mais tratado
como o fundamento da consciência humana (quer em sua forma coletiva
ou individual); ele passa a ser investido como estratégia racional
de inserção do indivíduo no meio social.
Produzir informações é cada vez mais espontâneo
nesta nova sociedade mediada pelos diversos tipos de mídia. É
claro que esta ampliação da liberdade de expressão
e de acesso à informação implicam necessariamente,
num aumento de riscos diante desta transferência de responsabilidade
da geração e circulação de informações
para os indivíduos e outros atores sociais além da mídia
constituída.
O que se precisa agora é caminhar para o domínio da consciência
de que é preciso grande dose de responsabilidade social ao tornar
esta informação coletiva. É preciso que todos dominem
a noção do que é notícia e saibam respeitar
o fato tal qual ele é. É preciso, enfim, firmar-se nesta
posição de agentes da informação (e da notícia).
Afinal, trata-se de um processo que parece ser inevitável, cada
vez mais cerebral e planificado, e que nos levará cada vez mais
perto para a posição de geradores e gerentes da informação
geral.
Referências bibliográficas
CASTELL, Manuel. Internet e sociedade em rede, in MORAES, Denis de (org.).
Por uma outra comunicação - Mídia, mundialização
cultural e poder. Rio de Janeiro: Editora Record, 2003.
CHAPARRO, Manuel Carlos. Jornalismo na Fonte in Jornalismo
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LÉVY, Pierre. Pela ciberdemocraia. in MORAES, Denis de (org.).
Por uma outra comunicação - Mídia,
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MARTIN-BARBERO, Jesús. Globalização comunicacional
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SOUSA, Jorge Pedro. Teorias da Notícia e do
Jornalismo. Chapecó: Editora
Argos, 2002
WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação.
Lisboa: Editorial Presença, 1987.
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