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Artigo
Problemas epistemológicos em Comunicação
Organizacional
Wilson Corrêa da Fonseca Júnior
Jornalista da Embrapa em Brasília, professor do Uniceub e doutorando
em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São
Paulo.
Resumo
O principal objetivo deste trabalho é analisar vários problemas
de ordem epistemológica referentes a área de Comunicação
Organizacional, à luz dos pensamentos de Gaston Bachelard e Thomas
Kuhn, em particular de seus conceitos de obstáculo epistemológico
e de paradigma, respectivamente. A partir da contribuição
de Kuhn, procura-se inserir a Comunicação Organizacional
em seu contexto histórico e social. Com Bachelard, a Comunicação
Organizacional é analisada sob a perspectiva de três obstáculos:
o problema da opinião, o declínio do conhecimento científico
e a busca de unidade pela ciência. A partir dessa análise,
conclui-se que o problema da busca de unidade pela ciência é
o mais instigante para a área de Comunicação Organizacional,
capaz de levá-la a um verdadeiro salto qualitativo, principalmente
porque o estudo sobre a relação entre comunicação
e organização ainda não foi totalmente desenvolvido.
Introdução
Este trabalho possui como principal objetivo analisar vários problemas
de ordem epistemológica referentes a área de Comunicação
Organizacional, à luz dos pensamentos de Gaston Bachelard e Thomas
Kuhn, em particular de seus conceitos de obstáculo epistemológico
e de paradigma, respectivamente. Para isso estão sendo utilizadas
não somente as obras basilares desses autores, mas também
alguns trabalhos realizados a seu respeito. Sobre Thomas Kuhn destacam-se
os textos A natureza do paradigma, de Masterman (1970), que realiza um
estudo com o propósito de elucidar a sua concepção
de paradigma, e Revoluções Científicas, de Epstein
(1988), que se preocupa com o pensamento de Kuhn num contexto muito mais
amplo, como o do movimento pela ciência unificada e os contextos
da justificação e da descoberta. Mais que isso, Epstein
também discute a obra de Kuhn considerando vários autores,
inclusive Bachelard. Além de Epstein, Bachelard é analisado
sob a perspectiva de Pessanha (1984) e de Lechte (2002).
A primeira observação a ser feita sobre este empreendimento
é que os exemplos utilizados por Bachelard e por Kuhn no desenvolvimento
de seus pensamentos são basicamente oriundos das ciências
físicas. Entretanto, na medida em que suas obras são reflexões
a respeito da ciência, suas abordagens bebem da fonte das ciências
humanas, com ênfase na psicanálise e na sociologia, respectivamente.
No caso de Bachelard, sua epistemologia é avaliada por Lechte (2002)
de forma positiva, por reunir ciência e filosofia de uma maneira
raramente vista antes: "as ciências humanas e naturais de fato
encontram nele seu intermediário" (Lechte, 2002:16). Além
disso, acredita-se que muitas das idéias e posturas epistemológicas
de ambos os autores, podem ser utilizadas numa análise mais refinada
sobre os problemas da Comunicação Organizacional. Essa análise,
porém, não pode ser desvinculada das grandes questões
do campo da Comunicação, ao qual a área de Comunicação
Organizacional está vinculada.
Gaston Bachelard e Thomas Kuhn
Nascido na França rural em 1884, na localidade de Bar-sur-Aube,
Champagne, Gaston Bachelard é considerado epistemólogo,
filósofo da ciência e teórico da imaginação.
Ao analisar a vida e a obra de Bachelard, Pessanha (1984), afirma que
a vida desse epistemólogo parece marcada pela descontinuidade,
da qual ele se tornou um dos teóricos do pensamento filosófico
contemporâneo: estudou matemática pretendendo formar-se engenheiro,
mas a guerra de 1914/18 cortou-lhe o projeto. Inicia então carreira
no magistério secundário, ensinando química e física
em sua cidade natal. Aos 35 anos, outro corte em sua vida: começa
novos estudos, agora em filosofia, que também passa a lecionar.
Em 1938, Bachelard publica uma de suas obras mais importantes, A formação
do espírito científico, na qual aborda os mais diversos
"obstáculos epistemológicos" que devem ser superados
para que se estabeleça e se desenvolva uma mentalidade verdadeiramente
científica. Entre os vários problemas relacionados ao campo
científico estão: 1) o problema da opinião - "A
ciência, tanto por necessidade de coroamento como por princípio,
opõe-se absolutamente à opinião (...). A opinião
pensa mal; não pensa: traduz necessidades em conhecimentos. Ao
designar os objetos pela sua utilidade, ela impede de conhecê-los"
(Bachelard, 1996:18, grifos do autor); 2) O problema do declínio
do conhecimento científico: "Hábitos intelectuais que
foram úteis e sadios podem, com o tempo, entravar a pesquisa (...).
Chega o momento em que o espírito prefere o que confirma seu saber
àquilo que o contradiz, em que gosta mais de respostas do que de
perguntas." (Bachelard, 1996:19); 3. O problema da unidade da ciência:
"Costuma-se dizer que a ciência é ávida de unidade,
que tende a considerar fenômenos de aspectos diversos como idênticos,
que busca simplicidade e economia nos princípios e nos métodos
(...). Ao inverso, o progresso científico efetua suas etapas mais
marcantes quando abandona os fatores filosóficos de unificação
fácil" (Bachelard, 1996:20).
Além dos "obstáculos epistemológicos",
outro aspecto importante do pensamento de Bachelard é sua concepção
bastante peculiar do método dialético, que encontra-se distante
do sentido marxista-hegeliano. Segundo Leche (1988) esse método
pressupõe a defesa inabalável da relação dialética
entre o racionalismo e o realismo (ou empirismo). O racionalismo - que
inclui filosofia e teoria - é o campo da interpretação
e da razão; o realismo, por outro lado, fornece ao racionalismo
o material para suas interpretações. Permanecer simplesmente
num nível intuitivo - o nível experimental - é condenar
a compreensão científica à estagnação,
pois ela não consegue tomar consciência do que está
fazendo. Da mesma forma, se alguém exagera a importância
do aspecto racionalista, pode resultar em um idealismo igualmente estéril.
"Para Bachelard, portanto, ser científico é não
privilegiar nem o pensamento, nem a realidade, mas reconhecer o elo inextrincável
entre eles" (Lechte, 2002:15).
Thomas Samuel Kuhn nasceu em 1922 em Cincinatti, nos Estados Unidos, mudando-se
ainda na infância para Manhattan e, depois, para Croton-on-Hudson,
pequena cidade próxima a Nova York. Segundo levantamento feito
por Mendonça & Videira (2002), Kuhn ingressou, em 1940, na
Universidade de Harvard para estudar Física mas, devido à
Segunda Guerra Mundial, seus estudos duraram apenas três anos em
vez dos quatro habituais. Durante a guerra, serviu nos Estados Unidos
e em Londres, trabalhando com grupos ligados a radares e construção
de bombas. Doutorou-se em física em 1949 pela Universidade de Harvard,
mas nesse período consolidou sua saída da Física,
passando a se dedicar à história da ciência e à
filosofia da ciência.
Com a publicação do ensaio A estrutura das revoluções
científicas, em 1962, Thomas Kuhn conseguiu transformar radicalmente
o cenário mundial em filosofia da ciência e história
da ciência. A principal razão disso é que, até
aquele momento, as correntes predominantes no mundo anglo-saxão
da filosofia da ciência eram o positivismo lógico, do Círculo
de Viena (1920-1950) e o racionalismo crítico do filósofo
austríaco Karl Popper, que atribuíam ao triunfo da ciência
a existência de um método científico universal, não-histórico.
Thomas Kuhn, entretanto, considerou a história um recurso imprescindível
na reconstituição da ciência e afirmou que seu triunfo
devia-se ao fato dela ser conduzida à luz de um paradigma, ou seja,
de um arcabouço intelectual através do qual o mundo é
visto e no qual ele é descrito, bem como de um conjunto de técnicas
experimentais e teóricas para fazer corresponder o paradigma à
natureza. É o paradigma que determina a cientificidade de uma área
específica de investigação num determinado momento
histórico. (Chalmers, 1993, Mendonça & Videira, 2000).
Ao contrário da perspectiva psicanalítica de Bachelard,
Thomas Kuhn desenvolverá sua obra privilegiando a linha sociológica.
Entretanto, seu pensamento é bem mais complexo, não podendo
ser reduzido a essa perspectiva. Ao analisar A estrutura das revoluções
científicas, com ênfase no aspecto científico, Masterman
(1970) encontrou 21 sentidos diferentes utilizados por Kuhn para a palavra
paradigma. Em seguida, num exercício de síntese, a autora
conseguiu classificar essa diversidade em três grupos principais:
1) Paradigmas metafísicos ou metaparadigmas, quando Thomas Kuhn
equipara o paradigma a um conjunto de crenças, a um mito, a uma
especulação metafísica bem sucedida, a um modelo,
a um novo modo de ver, a um princípio organizador que governa a
própria percepção, a um mapa e a alguma coisa que
determina uma grande área da realidade; 2) Paradigmas sociológicos,
empregado no sentido de uma realização científica
universalmente reconhecida, como realização científica
concreta, como conjunto de instituições políticas
e também como decisão judicial aceita; 3) Paradigmas de
artefato ou paradigmas de construção, quando empregado de
modo mais concreto, como verdadeiro manual ou obra clássica, como
fornecedor de instrumentos, como instrumentação real; lingüisticamente
como paradigma gramatical, ilustrativamente, como analogia; e psicologicamente,
como figura de gestalt e como um baralho de cartas anômalo. (Masterman,
1970: 79-80) (1).
Embora as obras de Bachelard e Kuhn possuam suas peculiaridades, Epstein
(1988:9) acredita que as expressões cortes epistemológicos
(oriunda de Althusser, a partir da idéia de descontinuidade de
Bachelard) e revoluções científicas (oriunda de Kuhn),
tratam da mesma questão: a das mudanças descontínuas
no campo do saber científico. Para Epstein,
"Bachelard apenas reconhece o pensamento verdadeiramente científico
na ruptura, na descontinuidade. A ciência é, para ele, sempre
(na terminologia de Kuhn) a ciência extraordinária, jamais
a ciência normal. A descontinuidade é, portanto, o centro
das reflexões suas, que concerne à epistemologia.. Levada
ao limite, a descontinuidade do saber científico toma o aspecto
de uma conversão da mente em suas tentativas de apreender a realidade"
(Epstein, 1988:23).
As obras de Gaston Bachelard e de Thomas Kuhn, pela sua relevância,
poderiam continuar merecendo uma série de considerações,
não fosse o objetivo final deste estudo, que é analisar
a área de Comunicação Organizacional sob o aspecto
epistemológico. Até este momento, foi possível perceber
que o trabalho de ambos possuem, como foco principal, o problema das mudanças
descontínuas ou das rupturas, no campo do saber científico,
seja sob o aspecto psíquico, no caso de Bachelard, seja sob o aspecto
sociológico ou psico-social no caso de Kuhn. Em razão disso,
a perspectiva temporal dessas rupturas também é diferente
para ambos. Ao valorizar o psíquico, Gaston Bachelard acredita
que o tempo só tem uma realidade, a do instante, presente no próprio
ato de conhecer, exigindo a constante superação dos obstáculos
epistemológicos que se manifestam na relação dialética
entre o pensamento e a realidade. Ao valorizar as perspectivas sociológica
e psico-social, Thomas Kuhn recorre ao tempo histórico para dele
extrair uma estrutura capaz de revelar tanto o processo, quanto o momento
da ruptura. De qualquer forma, ambas as abordagens, como poderá
ser verificado a seguir, são bastante relevantes na investigação
dos problemas epistemológicos da Comunicação Organizacional.
A eterna crise do campo da Comunicação
Discutir a comunicação como campo científico, levando
em consideração as perspectivas de Bachelard e Kuhn, é
um esforço que vem ocorrendo nas últimas décadas,
não somente no Brasil, mas também internacionalmente. No
Brasil, é possível citar o trabalho de Vassalo de Lopes
(1990), que desenvolveu ao mesmo tempo um estudo histórico e uma
proposta metodológica para a investigação científica
em Comunicação, adotando a premissa da relação
dinâmica entre o estado do conhecimento de uma ciência e seu
contexto social. Mais recentemente, Marques de Melo (2001:94) recorreu
a Kuhn para afirmar que o campo comunicacional assume a fisionomia típica
de uma ciência em crise. Em nível internacional, questões
sobre a definição e delimitação do campo da
comunicação vêm sendo debatidas desde 1983, com a
publicação de um número temático da revista
norte-americana Journal of Communication, "The ferment of de field".
Essa mesma revista retomou o assunto dez anos depois com a publicação
de outro número, "The future of the field" (2).
Outra perspectiva interessante sobre o campo comunicacional deve-se a
Rogers (1999), em seu artigo "Anatomy of the two subdisciplines of
Communication Study". Nesse trabalho ele discute a grande lacuna
intelectual existente entre os estudos de Comunicação Interpessoal
e os de Comunicação de Massa, a partir de três evidências
empíricas: a) o baixo grau em que ocorrem citações
cruzadas entre revistas científicas de comunicação
massiva e interpessoal; b) a especialização ao longo dessas
duas subdisciplinas por associações profissionais de especialistas
de comunicação e c) a separação organizacional
de muitos programas de doutorado nas universidades dos EUA dentro da comunicação
massiva ou da comunicação interpessoal. Para Rogers, esse
"etnocentrismo disciplinar" possui três conseqüências
disfuncionais: 1) a falta de integração da teoria da comunicação;
2) a compreensão limitada da comunicação humana sob
a ótica de apenas uma das duas disciplinas e 3) a inadequação
do estudo das tecnologias de comunicação interativas, como
a internet e a World Wide Web, que não podem ser classificadas
nem como comunicação de massa, nem como comunicação
interpessoal. Para amenizar esses problemas, Rogers sugere, entre várias
medidas, a combinação de programas de doutorado nas universidades
que possuem os dois programas, a junção das três maiores
associações de comunicação americanas (International
Communication Association - ICA, National Communication Association -
NCA e Association for Education in Journalism and Mass Communication -
AEJMC) em uma associação forte e a concessão de prêmios
para pesquisas, artigos e outras atividades acadêmicas que diminuam
as fronteiras subdisciplinares do estudo da comunicação.
Além da falta de integração entre as subdisciplinas
de Comunicação Interpessoal e Comunicação
de Massa, verifica-se ainda a falta de interação entre o
meio acadêmico e as demandas do sistema midiático na constituição
das ciências da comunicação. Esse problema já
havia sido alertado por Newcomb, cujo pensamento foi resgatado por Marques
de Melo (2001). O ponto de partida de Marques é a premissa de que
qualquer campo do conhecimento humano surge como conseqüência
de demandas coletivas. Com base nessa premissa, Melo faz uma retrospectiva
sobre a consolidação da Comunicação como um
novo campo do saber e o insere no bloco das ciências aplicadas.
Tendo por base as referências citadas anteriormente, é possível
fazer as seguintes considerações sobre os problemas epistemológicos
das ciências da Comunicação:
1) A constituição do campo das ciências da comunicação
é condicionado pela relação entre: a) o saber acumulado
pela sociedade, incluindo as corporações profissionais;
b) a reflexão e sistematização do saber teórico
e prático pela academia e c) a relação dialética
entre o conhecimento acadêmico e o saber acumulado pelos vários
segmentos da sociedade.
2) A discussão sobre os problemas epistemológicos das ciências
da comunicação deve levar em conta: a) a perspectiva kuhniana,
na medida em que se verifica a estreita relação entre o
estado do conhecimento de uma ciência e seu contexto social; b)
a perspectiva bachelardiana, pois os problemas encontrados também
são da ordem dos obstáculos epistemológicos e da
relação dialética entre o pensamento e a realidade
(racionalismo e empirismo).
Os problemas da área de Comunicação
Organizacional
Classificada por Fadul, Dias e Kuhn (2001) como uma área da Comunicação,
a Comunicação Organizacional também padece de vários
problemas. O mais evidente encontra-se em sua própria denominação,
para a qual ainda não existe consenso. É o que revela, por
exemplo, o Dicionário de ciências da comunicação
(Szymaniak, 2000), cujo verbete Comunicação Organizacional
também contempla várias outras denominações,
como Comunicação Empresarial, Comunicação
Corporativa e Comunicação Estratégica. Uma análise
consistente da origem desses termos deverá relevar implicações
não apenas de ordem semântica, mas também relacionadas
a práticas profissionais exercidas em vários contextos.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a International Communication Association
- ICA informa em seu site (www.icahdq.org) a existência de várias
divisões, entre elas a Organizational Communication. A gama de
fenômenos estudados dentro dessa divisão inclui a relação
entre líderes e subordinados, práticas discursivas, a comunicação
de emoções, negociação e barganha, cultura
organizacional, socialização e processos grupais, entre
outros. Esses temas demonstram que o entendimento da ICA sobre Comunicação
Organizacional refere-se a fenômenos de comunicação
exercidos prioritariamente dentro das Organizações, com
ênfase na Comunicação Interpessoal. Já os fenômenos
relacionados à comunicação das organizações
com seu ambiente externo são abordados pela ICA dentro da divisão
de Relações Públicas, com ênfase na Comunicação
de Massa.
Com uma abordagem divergente da ICA, a Asociacion Latinoamericana de Investigadores
de la Comunicación - ALAIC criou o núcleo de pesquisa Relações
Públicas e Comunicação Organizacional, cujo principal
objetivo, segundo informações de seu site (www.eca.usp.br/associa/alaic),
é estudar o papel da comunicação no contexto das
organizações complexas, considerando o funcionamento da
comunicação administrativa, interna, institucional e mercadológica.
Já na Europa, Van Ruler e Vercic (2001:158-159) informam que "em
muitos países, ao utilizar os idiomas nativos, é praticamente
impossível falar de relações públicas com
os mesmos significados que o termo possui nos Estados da América"
e que "muitas associações européias de relações
públicas mudaram seus nomes e se converteram em associações
de 'comunicação', embora ainda mantenham seus nomes de relações
públicas em inglês. Isto já ocorreu até o momento
na Dinamarca, Finlândia, Holanda, Noruega e Suécia".
Sob o aspecto da prática profissional, costuma-se atribuir a origem,
tanto das Relações Públicas, como da Comunicação
Organizacional, à atuação do jornalista americano
Ivy Lee, que em 1906 criou um bem-sucedido projeto de relações
com a imprensa. De forma geral, essa origem das relações
públicas também é aceita na Europa, a partir da utilização
de textos norte-americanos. Algumas dessas obras, inclusive, afirmam que
as Relações Públicas vieram dos Estados Unidos para
a Europa depois da Segunda Guerra Mundial com o Plano Marshall. No entanto,
diversos pesquisadores daquele continente vêm questionando a versão
hegemônica. A partir de várias referências bibliográficas,
Van Ruler e Vercic (2003:157), por exemplo, afirmam que a prática
de relações públicas existe há mais de um
século na Europa, iniciada em 1879, com a criação
de um departamento de relações com a imprensa pela Krups,
empresa alemã de equipamentos para cozinha, fundada em 1846. Na
Inglaterra, acredita-se que o início das relações
públicas tenha ocorrido em 1920 e os holandeses alegam possuir
a associação profissional mais antiga do mundo, criada em
1946. De qualquer forma - afirmam Van Ruler e Versic - muito pouco se
conhece sobre relações públicas na Europa.
Enquanto área do conhecimento, a Comunicação Organizacional
é reflexo do que vem ocorrendo no campo da Comunicação,
como as colocadas por Rogers (1999). Talvez um dos principais problemas
da Comunicação Organizacional esteja na própria origem
da área. Segundo Linda Putnam (2002), os primeiros estudos surgem
como forma de contribuir para promover a efetividade da organização.
Esse ponto de vista instrumental dominou a área durante décadas,
mesmo quando os pesquisadores entravam em campos como os da cultura organizacional,
dos símbolos e dos significados, pois o objetivo final, nestes
casos, era permitir o desenvolvimento de redes de apoio, facilitar a identificação
organizacional, promover a integração ou controlar o trabalhador.
A Comunicação Organizacional em vias de
transformação
A década de 1980 pode ser considerada um marco de referência
para as transformações que se verificam na Comunicação
Organizacional, tanto sob o aspecto acadêmico, quanto profissional.
No âmbito acadêmico, Putnam (2002) afirma que as mudanças
na área passaram a ocorrer sem que isso significasse o completo
rompimento com a visão instrumental. Uma das grandes críticas
da academia nessa época, e que ainda permanece, refere-se à
ausência de marcos teóricos e à concepção
da natureza da realidade organizacional apresentada pelos estudos tradicionais,
que encaram a comunicação de forma linear, como o estudo
de mensagens, informação, sentido e atividade simbólica.
O novo enfoque passou a contemplar, por exemplo, a análise do sentido
dos eventos organizacionais, a ambigüidade das estratégias,
as regras de comunicação, o discurso público corporativo
e o exercício de poder e controle através das distorções
da comunicação. Apesar desses novos enfoques, a Comunicação
Organizacional ainda luta, num nível meta-teórico, para
a definir melhor a relação entre Comunicação
e Organização.
A necessidade de uma visão mais integrada e estratégica
sobre o exercício da comunicação pelas organizações
tem motivado, no âmbito acadêmico e editorial, uma série
de novas denominações para esse fenômeno. Como se
já não bastasse a antiga polêmica existente entre
Relações Públicas, Comunicação Empresarial
e Comunicação Organizacional, surgem agora, com mais freqüência,
publicações com o título Comunicação
Estratégica e Comunicação Corporativa. Mais que isso,
surgem também novas associações acadêmicas
e profissionais incorporando essas outras denominações.
Para completar esse quadro, verificam-se ainda, muitas vezes, uma trágica
(no pior sentido do termo) relação entre a academia e o
mercado, cuja interação dialética pouco tem contribuído
para a superação de questões empíricas e conceituais.
Um sintoma desse problema é a constatação, por Simões
(2001), da ausência de uma razão lógica (rationale)
na habilitação de professores e profissionais de Relações
Públicas, problema que se deve, em grande parte, à produção
acadêmica:
"Observa-se que documentos, ditos científicos, ou pelo
menos elaborados no âmbito da academia sobre Relações
Públicas misturam as esferas da epistemologia, da teoria, da prática,
do mercado de trabalho, dos aspectos legais, da ética e da política
deste setor da economia, sem se dar conta da miscelânea que estão
construindo e da confusão que estão provocando nos diversos
segmentos da comunidade de Relações Públicas."
(Simões, 2001:29).
Diante do quadro apresentado até agora, é possível
afirmar que a superação das questões relacionadas
à Comunicação Organizacional, pelo menos no âmbito
da academia, não implica apenas na constatação, ou
mesmo no aprofundamento teórico, sobre seus problemas. Faz-se necessário
também entrar no âmago do conceito de campo científico
proposto por Bourdieu (3) (um dos discípulos de Bachelard), estabelecendo,
a partir dele, uma relação dialética entre o pensamento
e a realidade da área em questão. Essa relação
exige, mais que a vigilância epistemológica, verdadeiros
atos epistemológicos, movidos por aquilo que Barthes (1986) denominou
de "sentimento trágico da vida", que ensina mais a despojar
do que a construir. Como criar novas denominações para o
estudo e intervenção da comunicação nas organizações,
se o próprio entendimento sobre a relação entre comunicação
e organização ainda não foi devidamente solucionado?
A realização do empreendimento de construção
da área de Comunicação Organizacional não
deve ser fácil. É preciso ter cuidado com os obstáculos
epistemológicos apontados por Bachelard. O primeiro deles, fartamente
verificado nas publicações especializadas sobre comunicação
empresarial, organizacional, estratégica e corporativa é
o problema da opinião, que ao designar os objetos pela sua utilidade,
impede de conhecê-los. Esse problema encontra-se estreitamente relacionado
à origem instrumentalista da Comunicação Organizacional.
O segundo obstáculo é o declínio do conhecimento
científico: acadêmicos da comunicação organizacional
que em determinados momentos foram referência no assunto, acabam
estagnando, seja por não conseguirem superar sua fragilidade intelectual,
seja por oportunismo em relação ao mercado. Como já
dizia Bachelard (1996:19), "chega o momento em que o espírito
prefere o que confirma seu saber àquilo que o contradiz, em que
gosta mais de respostas do que de perguntas". O terceiro obstáculo
é o problema da unidade da ciência, que ao considerar fenômenos
de aspectos diversos como idênticos, impede o progresso científico
diante do conforto da unificação fácil.
Dos três obstáculos citados por Bachelard, o mais instigante,
cuja preocupação pode levar a um verdadeiro salto qualitativo
na área de Comunicação Organizacional, é o
da unidade da ciência. Levando em conta que o estudo sobre a relação
entre comunicação e organização não
foi totalmente desenvolvido e que o sentido amplo dessas palavras da margem
ao estudo de uma gama de fenômenos, bem como à intervenção
em diversas realidades, então ainda há muito o que se fazer
pela Comunicação Organizacional. Para isso, é preciso
existir uma consciência coletiva, seja no ambiente acadêmico,
seja no mercado, ou mesmo em determinados setores na sociedade, direcionada
tanto para a solução de problemas quanto para a reflexão
sobre suas causas, estabelecendo uma relação dialética
entre o pensamento, o sentimento e a realidade.
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Notas
(1) É interessante observar que, no campo da Comunicação,
trabalho semelhante ao de Masterman foi elaborado por Signates (1988)
sobre o conceito de mediação. Este autor, entretanto, não
se limita a apenas uma obra, como a de Martín-Barbero, De los medios
a las mediaciones (1987).
(2) Uma amostra dessa discussão pode ser encontrada numa edição
da revista Comunicação & Sociedade (2001).
(3) O campo científico, de acordo com Bourdieu (1976), é
também um campo social, com suas relações de força,
lutas e estratégias, onde o que está em jogo é o
monopólio da autoridade científica.
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