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Artigo

A gestão da informação e da comunicação como fator determinante para o novo perfil de competências do cidadão/trabalhador na Sociedade da Informação
Patrícia de Tillio Claro
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da FAAC - UNESP - Bauru


Resumo

Estudo teórico, não exaustivo, onde descreve-se o contexto da Sociedade da Informação dando destaque aos novos perfis de competências preconizados para o cidadão/trabalhador. Relaciona-se a grande circulação de informações, intermediadas pelas novas tecnologias em todos os espaços sociais, a formação de tais perfis e reflete-se sobre a importância da gestão da informação e da comunicação como elemento estratégico para favorecer a formação do trabalhador para a competitividade e a cidadania dentro das necessidades do novo modelo sócio-econômico.

Palavras-chave: Sociedade da Informação, tecnologias, competências, educação e gestão da informação e da comunicação.

Introdução

Hoje, o novo padrão organizacional e tecnológico exige das pessoas capacidades para lidar com diferentes tipos de informações. Governo, empresários e a sociedade civil empenham-se para educar a população. É preciso, no entanto, estar atentos para o processo de gestão das informações e da comunicação no processo de ensino-aprendizagem oferecido à maioria da população, dentro e fora do universo do trabalho, para que não se priorize uma formação puramente tecnicista que se tornará obsoleta num tempo restrito. Na Sociedade da Informação necessita-se formar mais do que o trabalhador, objetiva-se formar o "cidadão" que atuará na transformação social, um indivíduo capaz de aprender que é preciso aprender sempre, já que agora a formação do ser humano tornou-se um diferencial competitivo para todos os setores sociais.

1-Sociedade da informação e universo do trabalho

Alguns referenciais teóricos sobre a concepção moderna de sociedade baseada na informação consideram a Sociedade da Informação (SI) como conseqüência direta das novas formas de organização, produção e circulação de produtos, serviços e bens culturais mundiais que têm se pautado no intenso uso das novas tecnologias da informação e da comunicação (NTIC).

As formas de uma sociedade conhecer, pensar e sentir tem íntima relação com a época, a cultura e as circunstâncias técnicas que envolvem seu contexto histórico/social. Uma mudança técnica influi diretamente na dinâmica da sociedade, pois amplia seu universo de produção de bens materiais e simbólicos, assim como as interações físicas e comunicativas entre homens-máquinas e homens-homens.

Após a invenção da máquina a vapor, as empresas modificaram completamente suas estruturas de produção, assim como a gestão das estruturas humanas, sociais e comerciais. Gradativamente, o avanço da economia industrial foi pautando-se em investimentos científicos e tecnológicos, que proporcionaram o desenvolvimento de modernas tecnologias como a microeletrônica.

Estes avanços tecnológicos no decorrer da história culminaram, de acordo com alguns teóricos da administração de empresas, em várias revoluções industriais, pois a cada mudança estrutural e administrativa das organizações advinda de renovações tecnológicas desencadeou, paralelamente, mudanças na economia, na política e na vida sócio-cultural mundial, influindo nos comportamentos individuais e sociais, ou seja, nas maneiras de pensar, sentir e agir de toda a sociedade.

O processo de Globalização e a política neoliberal que o acompanhou introduziram propostas de reorganização à sociedade mundial, atingindo as esferas política, econômica, social e cultural, o que redefiniu algumas concepções de espaços públicos e privados. Ou seja, o intenso uso das tecnologias fez desenvolver a Sociedade da Informação no mundo, redefinindo o trato das informações estratégicas, nas esferas já citadas, reorganizando as formas dos países se inserirem na sociedade internacional e no sistema econômico mundial.

Takahashi (2000), afirma que: "A sociedade da informação não é um modismo. Representa uma profunda mudança na organização da sociedade e da economia, havendo quem a considere um novo paradigma técnico-econômico. É um fenômeno global (...)." (2000, p.5).

Dentro de um amplo universo de tecnologias, as tecnologias da informação e da comunicação (TICs) formam um dos grupos mais dinâmicos e provocam um grande impacto na competitividade dos setores industriais e comerciais, pois ao encurtarem as distâncias e reformularem as noções de tempo e espaço sociais, influem na organização do trabalho e nos perfis de capacitação dos cidadãos/trabalhadores.

No século XX, "as próprias bases do funcionamento social e das atividades cognitivas modificaram-se a uma velocidade que todos podem perceber diretamente." (LÉVY, 1993, p.8), devido ao desenvolvimento das tecnologias da informação e da comunicação (TICs). Hoje, os usos das TICs ditam regras às relações do mercado econômico global através de seu ritmo ágil de funcionamento, impondo produtividade, qualidade e competitividade, o que redefine o perfil de competências dos indivíduos e os modos como as organizações e a sociedade atingirão suas metas.

Chiavenato (1994), ao tratar das "revoluções industriais" pelas quais as empresas passaram no decorrer do tempo, considera que vivemos a terceira Revolução Industrial, identificada por ele como a fase da incerteza, também chamada de revolução do computador e de era digital. Uma transformação das culturas empresariais que abarca economia, informação e a comunicação, constituindo para Chiavenato, uma "revolução" sem precedentes, pois para ele nunca a humanidade teria evoluído tanto tecnologicamente em tão pouco tempo.

Lojkine (1995), por exemplo, considera que as mudanças do final do século XX somente se comparam a invenção da ferramenta e da escrita, e supõe que possam até mesmo ultrapassar os efeitos sociais da Revolução Industrial do século XVIII. O teórico acredita que esta nova "Revolução", denominada por ele como Revolução Informacional, vá ultrapassar as divisões que opõe os homens desde o início das sociedades de classes, pois Lojkine acredita que o trabalho humano abrangerá muito mais que a manipulação da tecnologia, voltando-se ao tratamento da informação.

O capitalismo industrial cedeu lugar ao capitalismo financeiro e nas últimas décadas do século XX houve uma enorme aceleração do processo de integração comercial através das tecnologias, o que fez as relações financeiras crescessem significativamente. O comércio mundializou-se e tornou a economia internacional, ou melhor, transnacional, por meio da proliferação de empresas multi e transnacionais presentes nos "quatro cantos" do mundo, com os processos de trabalho integrados pela rede tecnológico-informacional.

O avanço tecnológico teve papel fundamental na ampliação das relações comerciais e políticas em todos os níveis de contato do homem com a sua realidade, seja ela local ou internacional, virtual ou não. Mas, em diversos setores sociais ocorreram e ocorrem "resistências" as mudanças trazidas pelas TICs, pois elas rompem com hábitos antigos de estruturas organizacionais tradicionais, restritas e rudimentares e decretam a necessidade do aprendizado continuado e compartilhado em todos os níveis organizacionais.

Neste novo contexto político e econômico, os países em desenvolvimento são os que vivenciam os mais diversos desafios relacionados a efetiva participação no mercado global e ao estabelecimento na Sociedade da Informação mundial. Eles, preconizam maiores níveis de participação e de competitividade e, por isso, articulam internamente e externamente estratégias políticas e de mercado para promoção do desenvolvimento nos setores político, econômico, cultural e social.

Desde o final do século passado, os países em desenvolvimento têm adotado políticas com iniciativas para estabelecerem-se na Sociedade da Informação. No entanto, cada país está construindo a sua SI em diferentes condições, de acordo com sua realidade sócio, político, econômica e cultural, traçando assim os suas metas de desenvolvimento social. Mas, de modo geral, tem-se priorizado a questão do planejamento e desenvolvimento de tecnologias nacionais e a educação permanente dos cidadãos.

A grande maioria das organizações públicas e privadas está adaptando-se, fazendo uma revisão de suas filosofias e políticas, considerando que o uso das TICs faz parte uma questão técnica central do atual modelo de sociedade, a filosofia do conhecimento.(LÉVY, 1993) Conhecimento que advém da passagem do desenvolvimento de tecnologias para a gestão humana estratégica das informações que são indispensáveis ao desenvolvimento dos diversos setores sociais.

2-As Novas Tecnologias e o novo perfil de competências para o cidadão/trabalhador

A adoção das novas tecnologias no universo do trabalho, os processos de automação industriais e a atual necessidade de educação continuada das pessoas para atuação nos diversos setores da sociedade tornaram-se questões imprescindíveis, pois têm a ver com a gestão e distribuição do poder que advém do domínio de informações e conhecimentos.

Desde a primeira Revolução Industrial a adoção de novos recursos tecnológicos, instalou nas empresas novas formas de "educar" o trabalhador, selecionando as competências que lhe seriam necessárias para bem desempenhar suas funções. Sendo assim, logo que o modelo de processo produtivo baseado na divisão de atividades, funções e pessoas predominou nas empresas, exigiu-se do trabalhador uma especialização funcional.

Ao mesmo tempo, houve um reflexo destas divisões e especializações em outras instâncias sociais, ou seja, até mesmo o tempo livre, as atividades domésticas e diversas outras atividades do espaço público e privado foram sendo estruturadas dentro do mesmo modelo. (CÉBRIAN, 1995)

Assim, em cada época histórica, os cidadãos/trabalhadores foram sendo educados dentro das concepções que refletiam os modelos da divisão de trabalho, de classes, atendendo as necessidades do poder econômico/produtivo vigentes. Portanto, sempre houveram influências dos modelos de ação produtiva, baseados na relação do trabalhador com as máquinas/ferramentas vigentes nas empresas, nas relações sociais mais amplas.

Estudos sobre a educação ao longo da história apontam para influências da concepção dos modelos dos processos produtivos industriais no sistema educacional, desde o final do século XIX. A concepção taylorista do homem/trabalhador nas políticas educacionais esteve presente durante várias décadas e a educação formal seguiu a perspectiva do adestramento, configurando uma educação parcelar.

Quando o sistema fordista passou predominar no sistema produtivo, a escola adotou um modelo de ensino baseado na nova divisão, especialização e hierarquização rígida do saber, semelhante à estrutura organizacional da produção nas empresas. Neste momento, o mercado necessitava de um trabalhador especialista, ou seja, não era preciso que o mesmo desenvolvesse sua capacidade criativa e inovadora, pois suas funções estavam pré-determinadas na empresa, tanto nas atividades administrativas quanto nas produtivas. Não havia, portanto, espaço para o desenvolvimento da autonomia e da criatividade.

A ideologia fordista de produção entrou "em crise" devido o processo de aceleração dos meios e das técnicas de produção pelas novas tecnologias, principalmente pela incorporação da microeletrônica. Entrou em cena o modelo toyotista, com ênfase nos processos de "qualidade total".

E, assim, cada modelo foi sendo "substituído" ou "remodelado" por um novo sistema produtivo e exigiu-se do trabalhador novas posturas e competências, ou seja, um novo tipo de formação. Cabe ressaltar, no entanto, que um modelo não foi eliminando de uma vez as características do outro, mas reajustando-as e redefinindo-as em alguns aspectos para incorporação de novos, um processo que requer dos trabalhadores esforços adaptativos-interpretativos e de aprendizagem continuada.

O mercado de trabalho modifica-se vertigiosamente em virtude da globalização e da revolução informatizada. Antigas profissões desaparecem e as que permanecem, mesmo aquelas mais tradicionais e conhecidas, têm seu perfil modificado, exigindo novas habilidades e conhecimentos. A revolução tecnológica torna as tarefas cada vez mais abstratas, obrigando o jovem trabalhador a utilizar cada vez mais o raciocínio e criatividade em vez de atitudes convencionais e retóricas.(...) (COSTA, 2003, p. 48-49)

O atual modelo produtivo está ligado as novas técnicas de produção, aos processos de automação e o capitalismo flexível onde se permite aos trabalhadores maior maleabilidade nas funções. O contexto de economia e cultura globais, aponta para a necessidade de novas qualidades profissionais do trabalhador, alterando as características de seu perfil de competências tanto para a atuação no trabalho quanto na vida em sociedade. Observa-se, em todos os níveis organizacionais, o surgimento de novas ocupações e funções para o trabalhador, que contemplam maiores conhecimentos e responsabilidades e, por isso, sugerem um novo tipo de qualificação.

Este singelo relato sobre os processos produtivos suas influências sobre os modelos educativos destinados à formação do cidadão/trabalhador nos serve para sucintamente demonstrar como as mudanças técnicas na produção de bens materiais e simbólicos determinaram historicamente as relações entre os indivíduos e os saberes necessários ao trabalho e a vida.

Assis cita cinco atributos de qualificação identificados por uma pesquisa do IEI/UFRJ como os mais relevantes para o profissional do futuro. Segundo esta pesquisa espera-se que o profissional do futuro tenha: "raciocínio lógico; habilidade para aprender novas qualificações; conhecimento técnico geral; responsabilidade com o processo de produção; iniciativa para resolução de problemas." (ASSIS, 1994, p.194) Por isso, a criatividade, a inovação e autonomia nas ações são as competências valorizadas como as novas diretrizes a serem atingidas na re-qualificação da mão-de-obra.

O mercado de trabalho tem requerido profissionais mais autônomos frente aos novos aparatos tecnológicos, informações e conhecimentos que organizam e operacionalizam o mundo moderno. Necessita-se de "capital intelectual":

A capacidade de gerar, tratar e transmitir informação é a primeira etapa de uma cadeia de produção que se completa com sua aplicação no processo de agregação de valor a produtos e serviços. Nesse contexto, impõe-se, para empresas e trabalhadores, o desafio de adquirir a competência necessária para transformar informação em um recurso econômico estratégico, ou seja, o conhecimento. (TAKARASHI, 2000, p.17)

Na economia global, a Sociedade da Informação indica como principal recurso de crescimento, individual e social, o domínio de conhecimentos, por isso o desenvolvimento humano se torna um diferencial competitivo. Para Frigotto (2001), os "homens de negócio" querem um trabalhador com uma nova qualificação que contribua para tornar as empresas competitivas, de acordo com ele estes empresários já perceberam que o baixo nível de escolaridade caracteriza um obstáculo para as empresas, pois influi no modo como o trabalhador se apropria das informações, constrói seus conhecimentos e os aplica em suas atividades.

No Brasil, o Livro Verde (2000), documento oficial do Ministério da Ciência e da Tecnologia, criado para impulsionar ações de desenvolvimento da Sociedade da Informação, expressa a perspectiva acima destacada da seguinte forma:

A mão-de-obra qualificada, capaz de atender às exigências do novo paradigma técnico-econômico, é, assim, fundamental para assegurar ganhos de produtividade às empresas brasileiras e melhorias da competitividade, permitindo-lhes ampliar a oferta de empregos e trabalho dignos e adequadamente remunerados.(TAKAHASHI, 2000, p.7)

Percebe-se que hoje as novas qualificações ou competências dos indivíduos dizem respeito à formação de um trabalhador polivalente, ou seja, com conhecimentos técnicos gerais, capacidade de análise crítica, interpretação e resolução de problemas, participativo, responsável pelo processo de produção e decisão, adaptável as freqüentes transformações do mercado de trabalho.

Na análise de Sodré (2002), passamos por diversas mutações pedagógicas e, hoje, o modelo adotado destaca a relação entre ciências e tecnologias, procurando por fim na dicotomia entre a formação escolar e a vida ativa, dando destaque para a formação polivalente dos indivíduos, devido à porosidade das ocupações. Mas, a educação tecnicista, ainda tem se mantido presente dando ao ensino ainda um caráter utilitarista e fragmentado.

Diante deste contexto, cabe-nos questionar qual a importância que vem sendo oferecida à gestão da informação e da comunicação para a formação do trabalhador/cidadão dentro de um novo perfil de competências? Como os novos recursos tecnológicos e de mídia têm sido utilizados por organizações públicas e privadas no desenvolvimento de processos comunicativos-educativos internos e externos? Quais tipos de programas educacionais têm sido utilizados em maior escala como ações estratégicas para formação do trabalhador? Que incentivos o trabalhador tem recebido para aprender continuamente? Como o governo e as empresas tem atuado oferecendo oportunidades e facilidades para a aprendizagem dentro das perspectivas da nova sociedade?

3-A Sociedade da Informação brasileira: a gestão da informação e da comunicação na educação do cidadão/trabalhador

No Brasil e nos demais países em desenvolvimento, a baixa escolaridade e a má qualidade de ensino tornam críticas as circunstâncias para a formação do trabalhador que o mercado requer, visto que a formação escolar básica destes cidadãos influi no desempenho deles no trabalho e na competitividade das empresas.

Em 2003, foi amplamente divulgada pela mídia nacional um relatório da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) e a Organização para o Desenvolvimento Econômico (OCDE) que tornou público o resultado de um estudo sobre a Educação mundial. Estudantes na faixa etária de 15 anos, de 41 países foram avaliados em três competências consideradas básicas: leitura, matemática e ciências. Para nossa tristeza, o Brasil, teve um desempenho lastimável, ficando entre os piores resultados. (VEJA, p.53, 9 jul. 2003).

Os problemas educacionais estiveram e ainda estão em pauta nas discussões nacionais e internacionais entre educadores, governantes, empresários e outros setores da sociedade. Os governantes são pressionados, pela sociedade civil organizada e por organismos internacionais, a buscarem alternativas para modelo de educação vigente. Alternativas que conduzam a real democratização das informações e a produção de conhecimentos técnicos e científicos. Para isso, as novas propostas de ensino incluem a criação espaços que darão aos cidadãos acesso à escolaridade formal de qualidade e também aos recursos tecnológicos. Entram em cena, diversas projetos de reformulação do ensino regular e profissionalizante.

A Educação ou Ensino a Distância (EAD) com uso de tecnologias da informação e da comunicação, aparece em destaque por ser uma alternativa para suprir a demanda e atender a necessidades de flexibilidade no período de dedicação aos estudos pelos educandos.

No Brasil, EAD recebe incentivos do Estado, sendo encarada como alternativa para a formação acelerada e contínua que o mercado vem exigindo dos trabalhadores. Esta modalidade de ensino permite, principalmente as pessoas que não têm disponibilidade para freqüentar cursos regulares, adquirir e ampliar seus conhecimentos, devido à flexibilidade dos horários e locais dedicados ao estudo. Sendo, como já mencionamos, uma alternativa para atender jovens e adultos que não concluíram seus estudos em período regular e necessitam concluí-los, seja por interesse pessoal ou exigência do trabalho. E, configurando também uma alternativa para a educação continuada daqueles que desejem ou necessitem atualizar e ampliar seus conhecimentos.

Em 1995, foi criada, pelo Ministério da Educação (MEC) brasileiro, a Secretaria de Educação a Distância (Seed), sendo este o órgão responsável pelo Programa Nacional de Educação a Distância, mantendo como principais programas a TV Escola, o Programa Nacional de Informática na Educação (Proinfo) e o Programa de Apoio à Pesquisa em EAD (Paped), além da Universidade Virtual Pública do Brasil (UniRede).

O uso das tecnologias da informação e da comunicação na educação presencial e a distância vem crescendo. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional -LDBEN (BRASIL, 1996), no artigo 80, prevê o incentivo do Poder Público para o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e de educação continuada, podendo-se fazer o uso de uma ou mais tecnologias.

Na EAD, os meios de comunicação social e as novas tecnologias da comunicação e da informação são mediações educacionais que compõem do processo educativo informal e formal, tendo o papel, ou seja, a função de educar, além de divertir e informar.

No Livro Verde (2000), aponta-se a inserção do país no novo paradigma técnico-econômico (a Sociedade da Informação) como um meio de mudança da organização social da nação. Esta inserção será capaz de impulsionar o desenvolvimento e a competitividade do país no mercado mundial e contribuir paralelamente na melhoria das condições sociais, econômicas e culturais internas, sem prejuízo a preservação da identidade nacional. Neste documento, o capítulo IV é destinado a diretrizes sobre a educação da população para consolidação da SI. No referido capítulo, a educação é identificada como um fator primordial, pois é a base para eliminar os desníveis entre indivíduos, organizações, regiões e países. Educar, segundo o Livro Verde, abrange muito mais do que oferecer condições de acesso às novas tecnologias:

Na nova economia, não basta dispor de uma infra-estrutura moderna de comunicação; é preciso competência para transformar informação em conhecimento. É a educação elemento-chave para a construção de uma sociedade da informação e condição essencial para que pessoas e organizações estejam aptas a lidar com o novo, a criar, e assim, a garantir seu espaço de liberdade e autonomia. (TAKAHASHI, 2000, p.7).

Atualmente, embora o ensino básico já tenha sido "universalizado", tem crescido as iniciativas de "responsabilidade" de diversos setores sociais (empresarial, financeiro, midiático, organizações de classe, etc.) em programas de educação voltados aos jovens e adultos trabalhadores dentro ou fora do local de trabalho, devido as deficiências dos sistemas públicos de ensino e/ou as dificuldades de acesso para estes cidadãos ao ensino regular.

Não podendo contar com a eficiência da política educacional pública, estes setores visam, principalmente, formar o trabalhador de acordo com as demandas ocupacionais em crescimento e para isto a EAD, via tecnologias é uma alternativa bem aceita.

Não são as novas tecnologias, no entanto, que predominam quando se pensa em oferecer a educação básica (Ensinos: Fundamental, Médio e Profissionalizante) via EAD. São as "antigas" tecnologias, como a televisão, que se destacam como meios de transmissão/mediação midiática de informações e de conteúdos curriculares, devido as facilidades para o acesso e ao baixo custo. Mas, há estudos apontam grande tendência para a convergência das diversas tecnologias utilizadas como instrumentos de mediação das informações e da comunicação na EAD.

No Brasil, um exemplo de EAD via "antiga" tecnologia é o Telecurso 2000, uma iniciativa da Fundação Roberto Marinho (FRM) e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). Atualmente, é o maior programa de educação a distância a atingir trabalhadores no país, por abranger os ensinos fundamental, médio e profissionalizante, através de canais abertos e fechados de TV e fitas de vídeo. O Telecurso foi incorporado por inúmeras organizações privadas e públicas, incluindo as escolas estaduais públicas através do projeto Telessalas 2000, que é desenvolvido com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), em parceria com o Ministério do Trabalho e do Emprego, com apoio da Secretaria de Formação e Desenvolvimento Profissional (Sefor), da Confederação Nacional da Indústria (CNI), do Serviço Social da Indústria (Sesi), da FIESP, da FRM e do Canal Futura.

A EAD, mesmo recebendo incentivos e sendo considerada como alternativa para suprir as demandas educacionais e as necessidades de educação continuada, por muitas vezes recebe críticas de pesquisadores que percebem em determinados modelos educativos a falta de interatividade homens-tecnologias-informações e a produção de conhecimentos, apontando a presença de uma educação "massificada". As críticas se devem ao fato do caráter educacional massificado fugir das expectativas de formação do cidadão para a nova sociedade, o que não faz das tecnologias, nem das mídias, verdadeiros instrumentos de aprendizagem. Não adianta, portanto, criar simulacros do uso ideal das novas tecnologias, colocando os indivíduos em contato mecânico com os equipamentos e informações.

Para diversos estudiosos, a capacitação do trabalhador para o uso das informações advindas das tecnologias no universo do trabalho e no dia-a-dia, deve considerar, além dos interesses econômicos, os interesses e as necessidades reais dos indivíduos, partindo de seus conhecimentos e capacidades, ligando teoria e prática, através da mediação do diálogo destes indivíduos com os recursos tecnológicos e com as informações circulam através deles.

Neste ponto, a Comunicação Social destaca-se no exercício do papel técnico, científico e prático para investigar e articular de processos e planos de ação estratégica que identificarão as necessidades de empresas e trabalhadores, delineando os caminhos a seguir para atender as expectativas de ambos. Já que a comunicação, quando bem planejada, pode servir como uma ferramenta estratégica para a empresa, pois é capaz de manter a identidade organizacional ao aliar necessidades e interesses da mesma aos dos trabalhadores, num processo dialógico de comunicação.

De acordo com Cortelazzo (1998), comunicação, tecnologias e educação compõem um tripé fundamental para a formação do homem do século XXI. A tecnologia cria as condições para que a Comunicação Social se insira nos espaços de aprendizagem formais e informais, pois favorece a socialização do saber, através de suas dinâmicas de distribuição das informações entre emissores e receptores.

Procuramos evidenciar que o novo cenário mundial está de certa forma alicerçado nos indivíduos, na formação de perfis de competência sólidos já que, por melhores e mais sofisticadas que sejam as tecnologias, elas são criações humanas e não substituem o pensamento nem a criatividade do homem. Ou seja, o fundamental para empresas e sociedade é investir no potencial humano para garantir um diferencial na competitividade.

A aprendizagem continuada do homem inclui formal ou informalmente a mediação tecnológica das informações e a gestão comunicativa. Sendo a gestão das informações e da comunicação um aspecto que merece grande atenção, pois não basta ao ser humano receber e repetir informações, ou seja, é indispensável o estabelecimento de espaços de dialogicidade homem-máquina, máquina-homem e homem-homem.

Formar novas competências, portanto, não é colocar o cidadão em contato com a tecnologia, transformando-o em simples operador. É necessário a todas as organizações sociais investir em processos de desenvolvimento de competências que estão além dos limites do processo econômico/produtivo. Sendo assim, há necessidade de investimentos em processos de gestão da informação e da comunicação, pois, cada vez mais se torna importante desenvolver ações reais que despertem nos indivíduos as competências para lidarem com as informações e tecnologias dentro e fora do sistema produtivo, tendo em vista a produção e domínio de conhecimentos essenciais para a vida e o trabalho na nova realidade.

Sem o processo de gestão da informação e da comunicação não se efetiva o processo de educação, pois "educação é comunicação, é diálogo, na medida em que não é a transferência de saber, mas um encontro de sujeitos interlocutores que buscam a significação dos significados" (FREIRE, 1977, p.69). Freire nos lembra que a educação não é transferência de conhecimentos e que o educando não é um ser passivo. Figueiredo (1999), destaca que é necessário conciliar a preparação adequada do homem para o trabalho sem perder de vista o ideal de ampliação de sua capacidade de reflexão crítica, o que sugere um processo de trocas e diálogo entre sujeitos propiciado por uma gestão comunicativa planejada de informações e conhecimentos.

A gestão da informação e da comunicação torna-se um o eixo essencial dos processos educativos em todos os espaços sociais. Isto porque é através do processo de gestão da informação e da comunicação que a humanidade transmite e perpetua suas experiências e conhecimentos. E, também, é pela gestão da comunicação que se estabelece a interatividade criando espaços de dialogicidade para efetiva participação dos cidadãos nos processos de formação e capacitação, tendo em vista a real produção e apropriação dos conhecimentos.

Sendo assim, é imprescindível para os governos e as empresas que desejem firmar-se na sociedade global investir em programas de comunicação que se destinem a planejar estrategicamente os processos de gestão da informação e da comunicação nos espaços educativos que utilizam mídias e tecnologias para formar o cidadão/trabalhador, sejam estes espaços em escolas ou nos próprios locais de trabalho. Um programa de gestão da informação e da comunicação tem potencial para investigar, pensar, discutir, planejar e orientar as organizações, através de estudos teóricos e de campo, a escolher as melhores formas de atingir os objetivos referentes a formação dos novos perfis de competências dos cidadãos/ trabalhadores relativos as novas demandas ocupacionais do universo do trabalho e ao exercício da cidadania.

4- Algumas Considerações

Na atualidade, os homens não podem mais ser tratados como platéias diante do grande universo de informações que conduz as relações na sociedade global, onde bens materiais e simbólicos de diferentes origens estão sendo internacionalizados por meios tecnológicos de informação e comunicação. Os cidadãos, portanto, não podem mais ficar perplexos diante dos "avanços" ou alheios a eles.

As pessoas precisam conhecer as reais condições, limites e possibilidades que a modernidade lhes oferta dentro dos contextos local, nacional e mundial, aprendendo a atuar sobre estes contextos para poder transformar o que for necessário.

No mundo globalizado, o domínio de competências básicas são imprescindíveis para os processos de trabalho e de consumo, por isso a aprendizagem tornou-se um desafio para a vida toda. O domínio do conhecimento, no entanto, não se resume ao acesso à meios técnicos e a um número infinito de informações.

Incorporar, processar e produzir conhecimentos envolve a aquisição de competências para a seleção e apropriação reflexiva, seletiva, crítica e criativa das informações e a produção de conhecimentos. Estas capacidades dizem respeito à educação do cidadão principalmente nas instâncias formais e também levantam a necessidade de criação de novas e melhores oportunidades para que os indivíduos adquiram as informações e desenvolvam os conhecimentos que influirão em sua competência como cidadão/trabalhador.

Consolidar a sociedade da informação é um desafio prioritário para todos os setores sociais. Para Cebriam (1999), esse desafio envolve diversos profissionais como sociólogos, psicólogos, educadores, políticos, filósofos, economistas, juristas, etc., num esforço conjunto para promover e orientar investimentos em ensino que preconizem uma sociedade moderna e igualitária. Ou seja, num trabalho conjunto colaborativo como gestores da informação e da comunicação estratégicas.

Tornou-se compromisso de organizações públicas e privadas formar o cidadão/trabalhador que a nova sociedade e o mercado requer. Mas deve-se formar o cidadão sem restringir, no entanto, a aprendizagem ao preparo para a produção de bens materiais e simbólicos. Sabe-se que um país não construirá sua Sociedade da Informação sem se tornar e se manter competitivo tanto técnico, econômico como intelectual e culturalmente. Embora ainda, muitas ações priorizem mais os investimentos técnico-instrumentais, podemos entender que a S.I. se esteia, principalmente, no investimento e no desenvolvimento das competências humanas que vão lidar com informações e tecnologias em diversos setores sociais.

No momento que a educação emerge como um dos desafios prioritários, sendo encarada como uma das estratégias para a superação das deficiências internas dos países e de desenvolvimento econômico de empresas e da sociedade, dentro e fora do universo do trabalho, a gestão da informação e da comunicação nos processos de aprendizagem revela-se como um suporte indispensável para o governo e empresas. Cabendo a esta gestão pesquisar, planejar, orientar e articular as diretrizes que facilitarão o desenvolvimento do novo perfil de competências do cidadão/trabalhador interligando-o as necessidades de cidadania e das demandas de "capital intelectual" para a competitividade das empresas.

Referências

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