 |
Comunicação
e Responsabilidade Social
Comunicação
no Terceiro Setor
Assessoria
de Imprensa / Relacionamento com a mídia
Comunicação Interna
Publicidade/Marketing
Comunicação
e Cultura Organizacional
Comunicação e
Crise nas organizações
Auditoria de Imagem
das organizações
Comunicação Pública
(Governamental etc)
Diversos |
|
Comunicação Interna
• Comunicação
• Artigo
• Case
• Resenha
Artigo
A dimensão de retorno nos processos comunicacionais
e sua importância para a comunicação interna nas organizações:
uma crítica ao sistemismo
Germano Azambuja
Professor, jornalista e pesquisador da Comunicação
Organizacional. Mestre em Ciências da Comunica-ção
pelo Pós-Com/Umesp e doutor pela ECA/USP.
Resumo
Este estudo parte da hipótese de que as teorias sistêmicas
utilizadas na análise do organizacional impedem que se perceba
as nuanças das dimensões de retorno nos processos comunicacionais.
Tal distorção leva a se acreditar, na prática, que
ao ator social, desde o ambiente, cabe apenas absorver irrefletidamente
as imposições sistêmicas. Esse engano pode trazer
prejuízos, tanto aos objetivos organizacionais, quanto para os
relacionamentos interpessoais. Um primeiro e importante passo à
superação desse problema está, acreditamos, no reconhecimento
de uma instância extra-sistêmica, a partir da qual o ator
social forma os seus limites de sintonia com o sistêmico. E é
a retroalimentação da comunicação que e nos
fornecerá a matéria-prima desse entendimento.
Abstract
This study is based on the hypothesis that the systemic theories used
in the or-ganizational analysis prevent the perception of the nuances
of the return dimen-sions in the communicational processes. Such distortion
carries the beliefs, in prac-tice, that to the social actor, in the environment,
it just fits to absorb thoughtless the systemic impositions. That misleading
could bring damages, so much to the organizational objectives, as for
the interpersonal relationships. The first and more important step to
overcome that problem is, we believed, the recognition of an ex-tra-systemic
instance, from where the social actor form their syntony limits with the
systemic. And it is the feedback of the communication that will supply
us the raw material of that understanding.
Resumen
Ese estudio parte de la hipótesis de que las teorías sistémicas
utilizadas en la análisis de lo organizacional impiden que se veja
los matices de las dimensiones de retorno en los procesos comunicacionales.
Tal distorsión lleva a creerse, en la practica, que el actor social,
desde lo ambiente, cabe solamente absorber sin reflexión las imposiciones
sistémicas. Ese engaño puede traer prejuicios, tanto a los
objetivos organizacionales, como también a las relaciones interpersonales.
Un primero e importante paso a la superación de ese problema está,
creemos, en el reconocimiento de una instancia extra-sistémica,
a partir de la cual el actor social forma sus limites de sintonía
con el sistémico. Y es la retroalimentación de la comunicación
que nos fornecerá la materia-prima de ese entendimiento.
A Comunicação Organizacional padece de um dilema congênito:
o de não saber quais paradigmas abraçar com mais carinho.
De um lado, sofre a influência das principais teorias do campo que
lhe empresta o nome, o das Ciências da Comunicação.
Ela mesma uma área do conhecimento humano formada pela convergência
das mais diversas disciplinas que, por isso mesmo, na busca de sua identidade,
já flertou com vários matizes de um espectro teórico
muito amplo. Nesse leque se tem, por exemplo, numa de suas pontas, a adoção
de quadros explicativos advindos do funcionalismo de tipo quantitativista
e até mesmo de um tecnicismo positivista ab-solutamente incompatível
com a índole humanista das Ciências Sociais. Uma visão
teórica que buscou, inclusive, dar ao campo o suporte matemático
das ciências exatas.
Não nos esqueçamos de SHANNON & WEAVER, os dois engenheiros
norte-america-nos que, estudando interferências em transmissões
telefônicas para a empresa Bell, desenvolveram um modelo que, se
trouxe contribuições teóricas importantes para que
se entendesse a problemática do ruído nos processos comunicacionais,
esque-ceu que comunicação se produz, acima de tudo, entre
seres humanos e não a partir de um diálogo virtual entre
máquinas; uma fórmula que não levou em conta também
que aparatos tecnológicos podem, no máximo, fornecer visões
complementares às teorias da comunicação. E essa
aproximação da Comunicação com campos com
os quais não pôde gerar qualquer espécie de sinergia,
talvez tenha sido uma das origens da enorme confusão que se faz,
ainda hoje, entre informação e comunicação;
entre ato e processo comunicacional.
Na outra ponta desse leque teórico estão os paradigmas de
uma sociologia que se pretende mais humanista, apoiados em visões
que vão desde os diversos estru-turalismos à dialética
marxista. Há ainda as teorias mais recentes, que pretendem fundamentar
os estudos voltados à comunicação mediada, bem como
aqueles que se propõem a entender plenamente a complexidade das
relações interpessoais. Essas últimas, mais hermenêuticas
e lastreadas em quadros explicativos voltados ao social, priorizam as
perspectivas de ordem qualitativa. Mas a comunicação nas
organizações não pode prescindir também do
entendimento (e uso) de outra estrutura paradigmática, da qual
depende igualmente para funcionar de forma ade-quada: a das Ciências
da Administração, campo do saber que remói, da mesma
forma, seus próprios dilemas.
Fayol e o paradigma sistêmico
E o mais visível deles é, não a dificuldade de refinar
uma gama aparentemente incontrolável de tendências teóricas,
mas o apego ao seu mais ilustre paradigma, o de HENRI FAYOL, com seus
cinco ensinamentos: prever, organizar, comandar, coor-denar e controlar.
Assim, dentro da estrutura teorética do administrativo, a comu-nicação
interpessoal lhe interessa, não para entender, porém, a
idéia da mútua espreita entre sistemas ou a improbabilidade
da comunicação entre estes e os am-bientes que os produzem,
como defendia LUHMANN; não também na direção
do consenso alcançável através do debate livre de
coações e pontificado pelo melhor argumento, conforme preconiza
HABERMAS. Mas no sentido de aumentar a eficiência do discurso que
pretende transformar a vontade do comandante na ação do
co-mandado.
E aí, em linhas gerais (e pelo seu determinismo), é LUHMANN
e sua teoria dos sistemas que passam, então, a interessar. Claro!
Sistemas e ambiente surgem, dentro desse novo paradigma, para "ser
o que são" e às pessoas, prostradas no ambiente, reagindo
apenas a estímulos, dentro de uma ontologia que tolhe - quando
não impossibilita - a ação, resta apenas a obediência
às estruturas sistêmicas. Dentro da novidade, FAYOL sobrevive.
O ator social, entretanto, teima em reagir. E o faz com base no seu cultural,
no seu doméstico
; o faz também a partir de um ambiente
no qual o conflito deve ser reconhecido como matéria-prima importante
ao devir pessoal e onde a teleologia tem de ceder lugar à ação
comunicativa. E essa é uma instância negada pelas teorias
sistêmicas, que insistem em desconhecer a existência do Lebensvelt
habermasiano, de um mundo da vida que funciona como o alter ego antitético
dos sistemas. E em função dessa negativa, ficam, quase sempre,
sem entender porque alguns sistemas nunca funcionam como o esperado.
Nas organizações, mais do que imprudente, negar a existência
de um universo extra-sistêmico, no qual o sujeito verbaliza e exercita
a "liberdade" do falar e do agir, é um ato de irresponsabilidade
teórica; uma irresponsabilidade que quase sempre traz conseqüências
danosas ao funcionamento do próprio organizacional. Numa época
em que motes como os da "responsabilidade social", da "gestão
participativa" e da "qualidade total" funcionam positivamente
como fatores de distinção empresarial, o entender aquele
que produz por um olhar holístico é, da mesma forma, fundamental.
Aí, tudo indica uma vantagem para os comunicadores, se comparados
aos seus colegas administradores também envolvidos com a comunicação
organizacional (profissionais de marketing, de recursos humanos, etc.).
E porque isso ocorre? Mais afinados aos paradigmas humanistas, relações
públicas, jornalistas e mesmo os profissionais de publicidade que
trabalham nas e para as organizações sabem, mesmo que instintivamente,
que devem funcionar como mediadores, como facilitadores, para diminuir
a tensão e o conflito dentro das em-presas e instituições.
Não só o conflito interpessoal, mas da mesma forma, o conflito
pessoa versus sistema. E isso não se obtém sem um máximo
de dialogicidade. Uma farta literatura adotada pela maioria dos cursos
de Administração de Empresas nos leva facilmente a concluir
que o administrador, ao contrário, é treinado para ser apenas
um ordenador eficaz; uma espécie de "feiticeiro" que
deve ter sempre a "porção mágica" para
dinamizar a produção e aumentar a produtividade. Isso por-que
à administração (que não definiu ainda, sequer,
se a atividade que exerce deva ser considerada ciência ou "arte"
) interessa o funcionamento do sistema, ao passo que a comunicação
percebe com mais facilidade a efervescência do mundo da vida.
Resta escolher qual das duas posturas é a mais adequada às
organizações mo-dernas. Porém, a discussão
dessa questão, sem um tratamento teórico, ficaria com certeza
na esfera do palpite. Por isso, somente a percepção da dimensão
de retorno nos processos comunicacionais poderá balizar a melhor
forma de forjar relaciona-mentos. É preciso entender as demandas
do produtor, para melhor produzir. E isso não é nem fácil,
nem instantâneo. Assim, a teoria dos sistemas - que tem sido largamente
utilizada para explicar o organizacional - precisa ser revisada. E numa
dimensão epistemológica dessa ordem, o entendimento que
ela assume da comuni-cação deve, no nosso caso, ser posto
na berlinda.
Auscultando o processo comunicacional
A escolha do paradigma luhmaniano como eixo de análise é
aqui adotada para tentar reintroduzir o ator social nos inexoráveis
processos comunicacionais do or-ganizacional. Cabe, inclusive, uma observação
sobre o próprio conceito de para-digma, indevidamente deslocado,
pela Administração e campos correlatos do saber, da ciência
e dos cientistas para o sujeito comum. Mas há nesse deslocamento
um certo grau de utilitarismo. Isso porque, ao satanizar comportamentos
e atribuir às visões de mundo individuais (agora transformadas
em "paradigmas") as imper-feições do sistema,
resolvem-se dois problemas: agrega-se glamour científico a uma
conceituação duvidosa, ao mesmo tempo em que se esquiva
da necessidade de auscultar (para entender) a retroalimentação
dos processos comunicacionais. A dimensão de retorno, quando foge
aos propósitos organizacionais, não interessa; será
sempre mais um paradigma a ser quebrado.
Aí surge a reinvenção do feedback, que deixa de ser
um "teste" de realimentação do processo, passando
agora a se transformar na necessidade de compreensão e introjeção
da mensagem pretendida pelo emissor. Para LUHMANN há três
níveis num processo de comunicação: "(a) que
a mensagem alcance outros; (b) que, ao encontrar outros, a mensagem seja
entendida; (c) e que ela - se recebida e en-tendida - seja aceita".
Mas aí é o próprio LUHMANN quem depõe contra
essa inter-pretação. Isso porque a comunicação
entre atores sociais é, para ele, improvável, uma vez que
as visões de mundo individuais são únicas e intransferíveis.
Assim, a mensagem somente encontrará acolhimento em condições
especiais de sintonia entre emissão e recepção. Mas
as Ciências da Administração terão sempre FAYOL
e o seu paradigma de assimetria comunicacional para auxiliá-la.
Por isso, o entendimento e a aceitação na comunicação
dificilmente deixarão de ser fundamentais. Ao mesmo tempo, qualquer
dimensão de retorno que não cumpra essa rotina será
vista - por administradores com a formação que hoje se oferece
- como patologia.
A chuva sistêmica
No entendimento deste autor, "apesar de não haver como negar
a existência de um mundo sistêmico, não se pode também
deixar de seguir HABERMAS e desconhecer a existência de uma outra
instância na qual a comunicação (e a ação
comunicativa) se realiza de forma muito mais plena: o mundo da vida. Ao
não levar em conta essa dimensão NIKLAS LUHMANN precisa
criar uma visão própria de comunicação. Daí
ser possível identificar algumas incoerências e muita inconsistência
no seu entendimento sobre ela. ARMIN MATHIS, um dos comentadores do pensador
alemão, procura explicar, através de um exemplo bem simples,
o conceito luhmaniano de comunicação. Tentaremos utilizar
a mesma exemplificação para demonstrar que, no afã
de dar força explicativa à idéia de fechamento sistêmico,
LUHMANN induz os seguidores de sua teoria a tomar processos de comunicação
como simples cir-culação de informações. O
exemplo apresentado de MATHIS é o seguinte:
"Alter diz: Está chovendo. Isto é a mensagem, que é
resultado de uma seleção. Ele poderia ter dito outra coisa,
ou poderia ter ficado calado. Está chovendo, a informação,
é também uma seleção, porque divide o mundo
entre aquilo que foi dito, e aquilo que está excluído (está
fazendo sol). Essa informação não é resultado
de uma transmissão - como no entendimento comum da comunicação
- que passou de um (que deixou de tê-la) para outro (que passou
a tê-la), mas sim, produto da construção de uma seleção
específica. A compreensão da diferença entre mensagem
(Alter diz) e a informação (está chovendo) realiza
a comunicação, que se torna um acontecimento de curta duração.
Tudo o que aconteça em seguida, já não faz parte
da unidade da seleção do ato comunicativo. A comunicação
sobre a comunicação (uma pergunta de esclarecimento, por
exemplo) já é outra comunicação. No processo
de comunicação, comunicação produz constantemente
comunicação e mantém assim o sistema social. No mesmo
lado, comunicação é sempre comunicação
dentro do sistema social. Ela é operação interna
e, por isso, não há comunicação entre sistemas
sociais e o meio, assim como o sistema não recebe informação
do meio. O que existe é comunicação do sistema, tendo
como referência o seu meio. Nesse caso, o sistema constrói
internamente - através da observação - a informação
sobre o seu meio."
Se a teoria do sociólogo alemão guarda uma intensa complexidade,
o conceito de comunicação que ele introduz na perspectiva
sistêmica é reduzido a uma mera transmissão de informação,
já que elimina, de pronto, a dimensão do teste de re-torno
corporificado na retroalimentação (ou feedback). E mais
do que isso: elimina a recepção. Seguindo LUHMANN, o autor
do exemplo se engana ao tomar a iniciativa de Alter dizer que chove como
a comunicação em si. Alter, enquanto emissor, ape-nas dá
início ao tráfego de uma informação. Tudo
o que acontece depois é que vai determinar o processo (e não
o ato) de comunicação. Ao mesmo tempo, a compre-ensão
da mensagem também não determina, necessariamente, a conclusão
de um processo comunicacional.
No exemplo dado por MATHIS, o fato observável de chover é
transformado em conteúdo (mensagem) e emitido por Alter como informação.
Mas essa ação, esse ato, por si só não garante
a existência de um processo comunicacional (Alter pode berrar que
está chovendo e ninguém ouvir ou não dar ouvidos).
Este último somente se dará quando Ego compreender (aceitar/rechaçar)
ou não (questionar/ (re)questionar) a informação
de que chove e materializar tal compreensão/incompreensão
(psíquica e/ou verbalmente) em forma de algum retorno perceptível,
que pode, até, ser não verbal. Além do mais, a exclusão
do não dito é algo muito mais complexo do que a dicotomia
chover/fazer sol possa formular. A chuva pode ser noturna; o tempo pode
permanecer nublado, trovejando, sem chover; e pode, inclusive haver precipitações
pluviométricas mesmo com os raios do sol brilhando (a popular chuva
e sol).
LUHMANN, na explicação provida por MATHIS, não percebeu
também, que mensa-gem e informação equivaleria, mutatis
mutandis, à idéia dual de unicidade que o próprio
sociólogo alemão faz entre sistema e meio, ou seja, um não
pode existir (acontecer) sem o outro. Por isso, repetimos: a iniciativa
de Alter dizer a Ego sim-plesmente que está chovendo não
realiza a comunicação. Até porque o fato de cho-ver
só pode ser transformado em mensagem - e conseqüentemente
ser, como informação, a matéria-prima inicial de
um processo de comunicação - através de uma mediação
lingüística qualquer e aí, pela perspectiva da recepção,
o Está cho-vendo, em nosso idioma, se diferencia do It's raining,
do inglês, por exemplo, que por sua vez não é igual
ao Il pleut francês ou ao Es regnet, da língua pátria
de LUHMANN. O fato é o mesmo, as percepções não.
Ao mesmo tempo, são necessárias outras variáveis
para se completar (ou mesmo existir) um processo de comunicação
em sua integralidade. A capacidade plena de decodificação
aqui exemplificada - que conduz ao conceito habermasiano de competência
verbal -, contudo, é apenas um desses quesitos. Haveria outras
interferências, e algumas verificadas mesmo nas condições
intrínsecas do meio. Pode ser dado como exemplo a propagação,
na mesma chuva de MATHIS, de intensos trovões cujo ruído
estivesse a impedir que a mensagem de Alter chegasse, sem distorções,
a Ego.
Mas mesmo aí pode estar havendo um outro tipo de processo de comunicação,
embora de ordem incompleto; Alter diz a Ego: Está chovendo! Ao
que Ego apenas responde: Hein!!! Houve comunicação, testada
através da retroalimentação, mas não a sua
plena compreensão. O processo tem, então, de ser retomado,
caso haja a intenção de realizá-lo in totum; retomado
nas mesmas ou em outras bases, com o uso do mesmo ou de um outro código
(gestual, por exemplo), ou de outros ele-mentos do mesmo código
(como palavras diferentes), mas necessariamente em condições
materiais diversas: o emissor, no caso Alter, terá de chegar fisicamente
mais perto do receptor, ou seja, Ego, ou informar o conteúdo de
sua mensagem em tom mais alto. Mas para isso, tanto Alter como Ego têm
igualmente de saber "ler" os sinais (índices) emitidos
pelo ambiente, pois são estes que se transformam em informações
relevantes para o primeiro poder decidir como superar a barreira pro-vocada
pelo ruído evidenciado - com o fito de ver plenamente "fechado"
o processo comunicacional que intenta perpetrar -, na medida em que o
segundo venha a decodificar (no todo ou em parte) a mensagem conforme
as pretensões da produção.
O que existe de problemático no pensamento de LUHMANN sobre a comunicação,
portanto, começa com a confusão entre ato e processo. E
isso inviabiliza a percepção de que o ato de propagar a
mensagem, para informar, não garante o processo de comunicação
ou, às vezes, nem o garante apenas parcialmente, ou, amiúde,
não o garante, ao menos, de forma incompleta e/ou distorcida. E
isso compromete, ao nosso ver, toda a conceituação que LUHMANN
possa ter feito sobre comunicação, já que nessa,
mensagem (e o conseqüente uso de um código) é elemento,
matéria-prima; informação é ato; e a comunicação,
de per si, processo. Fora desse enten-dimento está se criando uma
nova disciplina acadêmica".
Há ainda uma última observação necessária
às considerações de MATHIS. Comu-nicação
não é um produto, não é algo físico
que se transfere de um indivíduo a ou-tro. Assim, fica extremamente
comprometido um outro entendimento a respeito do processo clássico
(que ele momeia como comum) pelo qual, segundo o autor, a comunicação
se reduz à passagem de um conteúdo de alguém "(que
deixou de tê-la) para outro (que passou a tê-la)". Ora,
nem a mais primária análise do comuni-cacional poderia ser
dessa forma. Conteúdos não são transferidos, mas
sim com-partilhados. Não fosse assim, por exemplo, professores
somente poderiam dar uma única aula, já que os seus conteúdos
comunicados deixariam de existir.
A retroalimentação no organizacional
LEONARD DOOB nos ensina que o processo comunicacional inclui várias
outras di-mensões, além daquelas sintetizadas no modelo
tricotômico que, desde a dialética aristotélica, procura
dar forma ao processo comunicacional (emissor Ô mensagem [canal]
Ô receptor). Fala-nos do ambiente, que deve estar propício
à troca de in-formações; mostra-nos a importância
do estado de espírito, ou de ânimo (mood, no original, em
inglês), para que as mensagens transitem com um mínimo de
distorções; chama ainda nossa atenção à
utilidade do uso adequado dos meios de extensão (na avaliação
de DOOB, o aparelho telefônico, tão valorizado no modelo
de SANNON & WEAVER, por exemplo, passa a ser exatamente o que realmente
é, ou seja, apenas uma máquina, ocasionalmente útil
para o processo de comunicação); seu diagrama indica também
que a comunicação não pode ser reduzida a uma observação
cibernética que define pessoas e coisas pelo que existe ou não
existe, pelo presente ou ausente, pelo sim ou não
; mostra
finalmente que deve conter em tais processos a dimensão de retorno,
que indica a existência de um retrabalhar cons-tante de idéias,
materializado nessa retroalimentação (feedback), que dá
sempre início a uma nova sessão da permuta informacional
que transforma em comunicação uma simples emissão
de mensagens. Há, enfim, vida no modelo de DOOB.
No âmbito do organizacional o entendimento dessa dimensão
teórica é fundamental. Mostra-nos que não existe
um sistema que dita e, externo a ele, um sujeito que apenas se adapta.
Indica-nos que as funções de comando, gerenciamento, as-sessoramento
e, principalmente, de planejamento não podem prescindir da com-preensão
do homem na sua dimensão mais integral. E isso não se faz
sem o enten-dimento da comunicação, seus processos, suas
possibilidades e, sobretudo, suas limitações. Nem tudo pode
ser feito a toda hora e na velocidade que se quer. Exis-tem limites impostos
por instâncias externas ao sistêmico. Existe aquilo que se
pode exigir e aquilo que não se pode; existe o que se pode esperar
e o que não se obterá nunca; existem "modelos mentais"
possíveis de serem substituídos ou ajustados e outros que
jamais se modificarão.
E por que isso? Porque há, com certeza, uma instância externa
ao sistêmico que indaga e reclama, avalia e se opõe, sabe,
enquanto produtor, seus limites à realização, como
sabe impor limites à aceitação dos ditames oriundos
do sistema. Por isso, é necessário entender que na empresa
ou na instituição, o céu da produtivida-de não
é, simplesmente, o limite, como preconizam a maioria das formulações
teóricas administrativas. Há - para utilizar uma expressão
cara à Economia e à Administração - um fator
de inelasticidade a criar defasagens cada vez maiores entre a vontade
do planejador e o resultado do planejamento. Aí comunicação
e negociação se confundem e o sucesso está nitidamente
vinculado ao saber "ler" a retroalimentação dos
inúmeros processos que, de momento a momento, eclodem nos ambientes
organizacionais. Até para que não se caia naquilo que igualmente
a administração e a economia condenam e chamam de retrabalho
Dessa forma, então, se evitará mais facilmente ouvir a famosa
frase: "Meu Deus! Eles não entenderam nada do que eu disse".
E ter de partir para apagar incêndios.
Conclusão
É possível concluir, portanto, que os planejamentos, sejam
quais forem, voltados ao aperfeiçoamento da produtividade em empresas
e instituições, não podem pres-cindir do pleno entendimento
dos processos específicos de comunicação que nelas
se dão. Alguns desses, seja pela sua contundência, seja pela
sua repetição, podem fornecer material riquíssimo
à superação de problemas de relacionamento (tanto
funcionais como interpessoais) e mesmo criar condições ao
aumento da produtividade. Mas para isso duas coisas são fundamentais:
o reconhecimento de que o ator social não é um receptor
passivo, adestrado para aceitar os "ensinamentos superiores"
e a aceitação de uma instância extra-sistêmica
que, desde o ambiente, permite a transformação em ação
a partir da troca inesgotável de sentidos que o mundo da vida não
cessa de produzir. E essas duas dimensões podem ser melhor entendidas
através da "leitura" isenta da retroalimentação.
Notas
1)Tratou-se da monografia The Mathematical Theory of Communication, publicada
em 1948. Cf. MATTELART, Armand & MATTELART, Michèle. História
das Teorias da Comunicação. Trad. de Luiz Paulo Rouanet.
2. ed. São Paulo: Loyola, 1999, p. 61. Sobre o modelo de SANNON
& WEAVER consulte ainda: RABAÇA, Carlos Alberto & BARBOSA,
Gustavo. Dicionário de Comunicação. Rio de Janeiro:
Codecri, 1978, p. 109-110.
2) Usaremos a palavra comunicação com inicial minúscula
sempre que nos referirmos ao ato de se comunicar; a palavra será
escrita com inicial maiúscula, contudo, quando estiver no sentido
de identificar o campo acadêmico.
3) Cf. LUHMANN, Niklas. A Improbabilidade da Comunicação.
Lisboa (Portugal): Ve-ga, 1993.
4) "The environment contains no information. The environment is
as it is" (O ambiente não contém nenhuma informação.
O ambiente é como ele é). A frase, do físico austríaco
HEINZ VON FOERSTER, é citada por LUHMANN na fundamentação
de sua teoria. Cf. FOERSTER, von Heinz. Observing Systems. Seaside (EUA):
1981, p. 270, apud LUHMANN. Niklas Luhmann: a nova teoria dos sistemas.
Trad. de Eva Machado Bar-bosa Samios. Diálogos Brasil-Alemanha
nas Ciências Humanas, n. 9, Porto Alegre: Editora da Universidade
- UFRGS/Goethe-Institut-ICBA, 1997, p. 41 e 47. Com grifos nossos.
5) No sentido da possibilidade de a ação redundar em transformação,
proposto por HANNAH ARENDT. Cf. ARENDT, Hannah A Condição
Humana. Trad. de Roberto Ra-poso. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária,
2001.
6) Mesmo sendo fundamental a consciência de que o conflito capital
versus trabalho será, sempre, insuperável.
7) Sobre esse aspecto veja, por exemplo: MEGGINSON, Leon C.; MOSLEY,
Donald C. & PIETRI JR., Paul H. Administração: conceitos
e aplicações. Trad. de Maria Isa-bel Hopp. 4. ed. São
Paulo: Habra, 1998, p. 13. Consulte ainda: FERREIRA, Ademir Antonio; REIS,
Ana Carla Fonseca & PEREIRA, Maria Isabel. Gestão Empresarial:
de Taylor aos nossos dias - evolução e tendências
da moderna administração de em-presas. São Paulo:
Pioneira, 1997, p. 17. Uma crítica a essa formulação
dicotômica pode ser encontrada em: AZAMBUJA, Germano Augusto de.
Entre o Branco e o Ne-gro - as opções do funcionalismo público
na comunicação organizacional entre as im-posições
sistêmicas e as negociações do mundo da vida. 2003.
713 f. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação)
- Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São
Paulo, São Paulo, 2 v, p. 84-86.
8) Produtor aqui no sentido de quem produz, ou seja, de quem cumpre tarefas.
9) Sobre o conceito é fundamental a leitura da obra de THOMAS
KUHN, A Estrutura das Revoluções Científicas.
10) LUHMANN, A improbabilidade
, op. cit., p. 41.
11) Cf. LUHMANN. Niklas Luhmann
, op. cit.
12) Ou seja, forte em ensinar os meandros sistêmicos, mas fraca
no ensino das urgências comunicacionais extra-sistêmicas que
vêm do doméstico, do cotidiano, do cultural
13) MATHIS, Armin. O Conceito de Sociedade na Teoria dos Sistemas de
Niklas Luhmann.Disponível em: <http://www.clacso.edu.ar/~libros/anpocs/mathis.rtf>.
Acesso em: 13 nov., 2002, 16 p.
14) Idem, ibidem, p. 7-8. Com grifos nossos.
15) Na verdade, NIKLAS LUHMANN era graduado em Direito, pela Universidade
de Fraiburg. Em uma fase posterior (principalmente depois de trabalhar
com TALCOTT PARSONS, em Harvard) é que vai se interessar pela Sociologia.
16) Para uma visão bem completa de processo comunicacional ver
o modelo de DOOB em: RABAÇA, Carlos Alberto & BARBOSA, Gustavo.
Dicionário de Comunicação. Rio de Janeiro: Codecri,
1978, p. 116-117. Consulte também: PFROMM NETO, Sa-muel. Comunicação
de Massa: natureza, modelos, imagens; contribuição para
o estudo da psicologia da comunicação de massa. São
Paulo: Pioneira/Edusp, 1972, p. 60-61.
17) Cf. HABERMAS, Jürgen. Teoría de la Acción Comunicativa.
Trad. para o espanhol de Manuel Jiménez Redondo. Madri (Espanha):
Taurus, 1987, 2 v, p. 136-138.
18) Esta perspectiva estaria sintonizada com a hipótese dos estados
de recepção, proposta por STUART HALL. Cf. HALL, Stuart.
Encoding/Decoding, in: CENTRE FOR CON-TEMPORARY CULTURAL STUDIES. Culture.
Media, Language (Working Papers in Cultural Studies, 1972-79), Universidade
de Birmingham, Londres (RU): Routledge, p. 127-138, 1996, p. 136.
19) E tal confusão fica instalada até na percepção
dos melhores comentadores da teoria dos sistemas, como parece ser o caso
do professor ARMIN MATHIS. Além de reproduzir essa confusão
no corpo da citação sobre o exemplo da chuva, acima selecionada,
ele a repete na nota 17 de seu artigo, quando se refere à comunicação,
citando LUHMANN, como ato (comunicativo), enquanto no corpo do texto,
uma linha adiante, a tem en-quanto processo. A obra de LUHMANN usada como
fonte, citada por MATHIS é: LUHMANN, Niklas. Soziale Systeme. Grundriß
einer allgemeinen Theorie. Frankfurt (Alemanha): a. M. (Suhrkamp), 1993,
p., 203. Cf. MATHIS, op. cit., p. 8.
20) AZAMBUJA, op.cit, p. 145-148
21) Imaginamos que essa conceituação, principalmente na
discussão provida por SENGE, sobre a sua segunda disciplina, seja
a mais adequada para substituir a idéia que campos como o das Ciências
da Administração têm dos "paradigmas" e
de suas "quebras". Cf. SENGE, Peter, M. A Quinta Disciplina:
arte e prática da organização que aprende - uma nova
e revolucionária concepção de liderança e
gerenciamento empresarial. Trad. de OP Traduções. São
Paulo: Best Seller, 1998, p. 41.
Bibliografia
· Referências impressas
ARENDT, Hannah. A Condição Humana.
Trad. de Roberto Raposo. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária,
2001
AZAMBUJA, Germano Augusto de. Entre o Branco e o Negro
- as opções do funci-onalismo público na comunicação
organizacional entre as imposições sistêmicas e as
negociações do mundo da vida. 2003. 713 f. Tese (Doutorado
em Ciências da Comunicação) - Escola de Comunicações
e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2 v.
CENTRE FOR CONTEMPORARY CULTURAL STUDIES. Culture. Media,
Language (Working Papers in Cultural Studies, 1972-79), Universidade
de Birmingham, Lon-dres (RU): Routledge, 1996.
DOOB, Leonard William. Communication in Africa - a search
for boundaries. New Haven (EUA): Yale University Press, 1966.
FERREIRA, Ademir Antonio; REIS, Ana Carla Fonseca & PEREIRA, Maria
Isabel. Gestão Empresarial: de Taylor aos nossos
dias - evolução e tendências da moderna administração
de empresas. São Paulo: Pioneira, 1997.
HABERMAS, Jürgen. Teoría de la Acción
Comunicativa. Trad. para o espanhol de Manuel Jiménez Redondo.
Madri (Espanha): Taurus, 1987, 2 v.
LUHMANN, Niklas. A Improbabilidade da Comunicação.
Lisboa (Portugal): Vega, 1993.
Niklas Luhmann: a nova teoria dos sistemas. Trad.
de Eva Machado Barbosa Samios. Diálogos Brasil-Alemanha nas Ciências
Humanas, n. 9, Porto Alegre: Editora da Universidade-UFRGS/Goethe-Institut-ICBA,
p. 7-111, 1997.
KUHN, Thomas S. A Estrutura das Revoluções
Científicas. Trad. de Beatriz Vianna Boeira & Nelson
Boeira. 5. ed. São Paulo: Pioneira, 1997.
MATTELART, Armand & MATTELART, Michèle. História
das Teorias da Comunicação. Trad. de Luiz Paulo Rouanet.
2. ed. São Paulo: Loyola, 1999.
MEGGINSON, Leon C.; MOSLEY, Donald C. & PIETRI JR., Paul H. Administração:
conceitos e aplicações. Trad. de Maria Isabel Hopp.
4. ed. São Paulo: Habra, 1998.
PFROMM NETO, Samuel. Comunicação de Massa:
natureza, modelos, imagens; contribuição para o estudo da
psicologia da comunicação de massa. São Paulo:
Pio-neira/Edusp, 1972.
RABAÇA, Carlos Alberto & BARBOSA, Gustavo. Dicionário
de Comunicação. Rio de Janeiro: Codecri, 1978.
SENGE, Peter, M. A Quinta Disciplina: arte e prática
da organização que aprende - uma nova e revolucionária
concepção de liderança e gerenciamento empresarial.
Trad. de OP Traduções. São Paulo: Best Seller, 1998.
· Referências eletrônicas
MATHIS, Armin. O Conceito de Sociedade na Teoria dos
Sistemas de Niklas Luhmann. Disponível em: <http://www.clacso.edu.ar/~libros/anpocs/mathis.rtf>.
Acesso em: 13 nov., 2002.
|
|