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Artigo

A dimensão de retorno nos processos comunicacionais e sua importância para a comunicação interna nas organizações: uma crítica ao sistemismo
Germano Azambuja
Professor, jornalista e pesquisador da Comunicação Organizacional. Mestre em Ciências da Comunica-ção pelo Pós-Com/Umesp e doutor pela ECA/USP.


Resumo
Este estudo parte da hipótese de que as teorias sistêmicas utilizadas na análise do organizacional impedem que se perceba as nuanças das dimensões de retorno nos processos comunicacionais. Tal distorção leva a se acreditar, na prática, que ao ator social, desde o ambiente, cabe apenas absorver irrefletidamente as imposições sistêmicas. Esse engano pode trazer prejuízos, tanto aos objetivos organizacionais, quanto para os relacionamentos interpessoais. Um primeiro e importante passo à superação desse problema está, acreditamos, no reconhecimento de uma instância extra-sistêmica, a partir da qual o ator social forma os seus limites de sintonia com o sistêmico. E é a retroalimentação da comunicação que e nos fornecerá a matéria-prima desse entendimento.


Abstract
This study is based on the hypothesis that the systemic theories used in the or-ganizational analysis prevent the perception of the nuances of the return dimen-sions in the communicational processes. Such distortion carries the beliefs, in prac-tice, that to the social actor, in the environment, it just fits to absorb thoughtless the systemic impositions. That misleading could bring damages, so much to the organizational objectives, as for the interpersonal relationships. The first and more important step to overcome that problem is, we believed, the recognition of an ex-tra-systemic instance, from where the social actor form their syntony limits with the systemic. And it is the feedback of the communication that will supply us the raw material of that understanding.

Resumen
Ese estudio parte de la hipótesis de que las teorías sistémicas utilizadas en la análisis de lo organizacional impiden que se veja los matices de las dimensiones de retorno en los procesos comunicacionales. Tal distorsión lleva a creerse, en la practica, que el actor social, desde lo ambiente, cabe solamente absorber sin reflexión las imposiciones sistémicas. Ese engaño puede traer prejuicios, tanto a los objetivos organizacionales, como también a las relaciones interpersonales. Un primero e importante paso a la superación de ese problema está, creemos, en el reconocimiento de una instancia extra-sistémica, a partir de la cual el actor social forma sus limites de sintonía con el sistémico. Y es la retroalimentación de la comunicación que nos fornecerá la materia-prima de ese entendimiento.

 

A Comunicação Organizacional padece de um dilema congênito: o de não saber quais paradigmas abraçar com mais carinho. De um lado, sofre a influência das principais teorias do campo que lhe empresta o nome, o das Ciências da Comunicação. Ela mesma uma área do conhecimento humano formada pela convergência das mais diversas disciplinas que, por isso mesmo, na busca de sua identidade, já flertou com vários matizes de um espectro teórico muito amplo. Nesse leque se tem, por exemplo, numa de suas pontas, a adoção de quadros explicativos advindos do funcionalismo de tipo quantitativista e até mesmo de um tecnicismo positivista ab-solutamente incompatível com a índole humanista das Ciências Sociais. Uma visão teórica que buscou, inclusive, dar ao campo o suporte matemático das ciências exatas.

Não nos esqueçamos de SHANNON & WEAVER, os dois engenheiros norte-america-nos que, estudando interferências em transmissões telefônicas para a empresa Bell, desenvolveram um modelo que, se trouxe contribuições teóricas importantes para que se entendesse a problemática do ruído nos processos comunicacionais, esque-ceu que comunicação se produz, acima de tudo, entre seres humanos e não a partir de um diálogo virtual entre máquinas; uma fórmula que não levou em conta também que aparatos tecnológicos podem, no máximo, fornecer visões complementares às teorias da comunicação. E essa aproximação da Comunicação com campos com os quais não pôde gerar qualquer espécie de sinergia, talvez tenha sido uma das origens da enorme confusão que se faz, ainda hoje, entre informação e comunicação; entre ato e processo comunicacional.

Na outra ponta desse leque teórico estão os paradigmas de uma sociologia que se pretende mais humanista, apoiados em visões que vão desde os diversos estru-turalismos à dialética marxista. Há ainda as teorias mais recentes, que pretendem fundamentar os estudos voltados à comunicação mediada, bem como aqueles que se propõem a entender plenamente a complexidade das relações interpessoais. Essas últimas, mais hermenêuticas e lastreadas em quadros explicativos voltados ao social, priorizam as perspectivas de ordem qualitativa. Mas a comunicação nas organizações não pode prescindir também do entendimento (e uso) de outra estrutura paradigmática, da qual depende igualmente para funcionar de forma ade-quada: a das Ciências da Administração, campo do saber que remói, da mesma forma, seus próprios dilemas.

Fayol e o paradigma sistêmico


E o mais visível deles é, não a dificuldade de refinar uma gama aparentemente incontrolável de tendências teóricas, mas o apego ao seu mais ilustre paradigma, o de HENRI FAYOL, com seus cinco ensinamentos: prever, organizar, comandar, coor-denar e controlar. Assim, dentro da estrutura teorética do administrativo, a comu-nicação interpessoal lhe interessa, não para entender, porém, a idéia da mútua espreita entre sistemas ou a improbabilidade da comunicação entre estes e os am-bientes que os produzem, como defendia LUHMANN; não também na direção do consenso alcançável através do debate livre de coações e pontificado pelo melhor argumento, conforme preconiza HABERMAS. Mas no sentido de aumentar a eficiência do discurso que pretende transformar a vontade do comandante na ação do co-mandado.

E aí, em linhas gerais (e pelo seu determinismo), é LUHMANN e sua teoria dos sistemas que passam, então, a interessar. Claro! Sistemas e ambiente surgem, dentro desse novo paradigma, para "ser o que são" e às pessoas, prostradas no ambiente, reagindo apenas a estímulos, dentro de uma ontologia que tolhe - quando não impossibilita - a ação, resta apenas a obediência às estruturas sistêmicas. Dentro da novidade, FAYOL sobrevive. O ator social, entretanto, teima em reagir. E o faz com base no seu cultural, no seu doméstico…; o faz também a partir de um ambiente no qual o conflito deve ser reconhecido como matéria-prima importante ao devir pessoal e onde a teleologia tem de ceder lugar à ação comunicativa. E essa é uma instância negada pelas teorias sistêmicas, que insistem em desconhecer a existência do Lebensvelt habermasiano, de um mundo da vida que funciona como o alter ego antitético dos sistemas. E em função dessa negativa, ficam, quase sempre, sem entender porque alguns sistemas nunca funcionam como o esperado.

Nas organizações, mais do que imprudente, negar a existência de um universo extra-sistêmico, no qual o sujeito verbaliza e exercita a "liberdade" do falar e do agir, é um ato de irresponsabilidade teórica; uma irresponsabilidade que quase sempre traz conseqüências danosas ao funcionamento do próprio organizacional. Numa época em que motes como os da "responsabilidade social", da "gestão participativa" e da "qualidade total" funcionam positivamente como fatores de distinção empresarial, o entender aquele que produz por um olhar holístico é, da mesma forma, fundamental. Aí, tudo indica uma vantagem para os comunicadores, se comparados aos seus colegas administradores também envolvidos com a comunicação organizacional (profissionais de marketing, de recursos humanos, etc.).

E porque isso ocorre? Mais afinados aos paradigmas humanistas, relações públicas, jornalistas e mesmo os profissionais de publicidade que trabalham nas e para as organizações sabem, mesmo que instintivamente, que devem funcionar como mediadores, como facilitadores, para diminuir a tensão e o conflito dentro das em-presas e instituições. Não só o conflito interpessoal, mas da mesma forma, o conflito pessoa versus sistema. E isso não se obtém sem um máximo de dialogicidade. Uma farta literatura adotada pela maioria dos cursos de Administração de Empresas nos leva facilmente a concluir que o administrador, ao contrário, é treinado para ser apenas um ordenador eficaz; uma espécie de "feiticeiro" que deve ter sempre a "porção mágica" para dinamizar a produção e aumentar a produtividade. Isso por-que à administração (que não definiu ainda, sequer, se a atividade que exerce deva ser considerada ciência ou "arte" ) interessa o funcionamento do sistema, ao passo que a comunicação percebe com mais facilidade a efervescência do mundo da vida.

Resta escolher qual das duas posturas é a mais adequada às organizações mo-dernas. Porém, a discussão dessa questão, sem um tratamento teórico, ficaria com certeza na esfera do palpite. Por isso, somente a percepção da dimensão de retorno nos processos comunicacionais poderá balizar a melhor forma de forjar relaciona-mentos. É preciso entender as demandas do produtor, para melhor produzir. E isso não é nem fácil, nem instantâneo. Assim, a teoria dos sistemas - que tem sido largamente utilizada para explicar o organizacional - precisa ser revisada. E numa dimensão epistemológica dessa ordem, o entendimento que ela assume da comuni-cação deve, no nosso caso, ser posto na berlinda.

Auscultando o processo comunicacional


A escolha do paradigma luhmaniano como eixo de análise é aqui adotada para tentar reintroduzir o ator social nos inexoráveis processos comunicacionais do or-ganizacional. Cabe, inclusive, uma observação sobre o próprio conceito de para-digma, indevidamente deslocado, pela Administração e campos correlatos do saber, da ciência e dos cientistas para o sujeito comum. Mas há nesse deslocamento um certo grau de utilitarismo. Isso porque, ao satanizar comportamentos e atribuir às visões de mundo individuais (agora transformadas em "paradigmas") as imper-feições do sistema, resolvem-se dois problemas: agrega-se glamour científico a uma conceituação duvidosa, ao mesmo tempo em que se esquiva da necessidade de auscultar (para entender) a retroalimentação dos processos comunicacionais. A dimensão de retorno, quando foge aos propósitos organizacionais, não interessa; será sempre mais um paradigma a ser quebrado.

Aí surge a reinvenção do feedback, que deixa de ser um "teste" de realimentação do processo, passando agora a se transformar na necessidade de compreensão e introjeção da mensagem pretendida pelo emissor. Para LUHMANN há três níveis num processo de comunicação: "(a) que a mensagem alcance outros; (b) que, ao encontrar outros, a mensagem seja entendida; (c) e que ela - se recebida e en-tendida - seja aceita". Mas aí é o próprio LUHMANN quem depõe contra essa inter-pretação. Isso porque a comunicação entre atores sociais é, para ele, improvável, uma vez que as visões de mundo individuais são únicas e intransferíveis. Assim, a mensagem somente encontrará acolhimento em condições especiais de sintonia entre emissão e recepção. Mas as Ciências da Administração terão sempre FAYOL e o seu paradigma de assimetria comunicacional para auxiliá-la. Por isso, o entendimento e a aceitação na comunicação dificilmente deixarão de ser fundamentais. Ao mesmo tempo, qualquer dimensão de retorno que não cumpra essa rotina será vista - por administradores com a formação que hoje se oferece - como patologia.

A chuva sistêmica


No entendimento deste autor, "apesar de não haver como negar a existência de um mundo sistêmico, não se pode também deixar de seguir HABERMAS e desconhecer a existência de uma outra instância na qual a comunicação (e a ação comunicativa) se realiza de forma muito mais plena: o mundo da vida. Ao não levar em conta essa dimensão NIKLAS LUHMANN precisa criar uma visão própria de comunicação. Daí ser possível identificar algumas incoerências e muita inconsistência no seu entendimento sobre ela. ARMIN MATHIS, um dos comentadores do pensador alemão, procura explicar, através de um exemplo bem simples, o conceito luhmaniano de comunicação. Tentaremos utilizar a mesma exemplificação para demonstrar que, no afã de dar força explicativa à idéia de fechamento sistêmico, LUHMANN induz os seguidores de sua teoria a tomar processos de comunicação como simples cir-culação de informações. O exemplo apresentado de MATHIS é o seguinte:

"Alter diz: Está chovendo. Isto é a mensagem, que é resultado de uma seleção. Ele poderia ter dito outra coisa, ou poderia ter ficado calado. Está chovendo, a informação, é também uma seleção, porque divide o mundo entre aquilo que foi dito, e aquilo que está excluído (está fazendo sol). Essa informação não é resultado de uma transmissão - como no entendimento comum da comunicação - que passou de um (que deixou de tê-la) para outro (que passou a tê-la), mas sim, produto da construção de uma seleção específica. A compreensão da diferença entre mensagem (Alter diz) e a informação (está chovendo) realiza a comunicação, que se torna um acontecimento de curta duração. Tudo o que aconteça em seguida, já não faz parte da unidade da seleção do ato comunicativo. A comunicação sobre a comunicação (uma pergunta de esclarecimento, por exemplo) já é outra comunicação. No processo de comunicação, comunicação produz constantemente comunicação e mantém assim o sistema social. No mesmo lado, comunicação é sempre comunicação dentro do sistema social. Ela é operação interna e, por isso, não há comunicação entre sistemas sociais e o meio, assim como o sistema não recebe informação do meio. O que existe é comunicação do sistema, tendo como referência o seu meio. Nesse caso, o sistema constrói internamente - através da observação - a informação sobre o seu meio."

Se a teoria do sociólogo alemão guarda uma intensa complexidade, o conceito de comunicação que ele introduz na perspectiva sistêmica é reduzido a uma mera transmissão de informação, já que elimina, de pronto, a dimensão do teste de re-torno corporificado na retroalimentação (ou feedback). E mais do que isso: elimina a recepção. Seguindo LUHMANN, o autor do exemplo se engana ao tomar a iniciativa de Alter dizer que chove como a comunicação em si. Alter, enquanto emissor, ape-nas dá início ao tráfego de uma informação. Tudo o que acontece depois é que vai determinar o processo (e não o ato) de comunicação. Ao mesmo tempo, a compre-ensão da mensagem também não determina, necessariamente, a conclusão de um processo comunicacional.

No exemplo dado por MATHIS, o fato observável de chover é transformado em conteúdo (mensagem) e emitido por Alter como informação. Mas essa ação, esse ato, por si só não garante a existência de um processo comunicacional (Alter pode berrar que está chovendo e ninguém ouvir ou não dar ouvidos). Este último somente se dará quando Ego compreender (aceitar/rechaçar) ou não (questionar/ (re)questionar) a informação de que chove e materializar tal compreensão/incompreensão (psíquica e/ou verbalmente) em forma de algum retorno perceptível, que pode, até, ser não verbal. Além do mais, a exclusão do não dito é algo muito mais complexo do que a dicotomia chover/fazer sol possa formular. A chuva pode ser noturna; o tempo pode permanecer nublado, trovejando, sem chover; e pode, inclusive haver precipitações pluviométricas mesmo com os raios do sol brilhando (a popular chuva e sol).

LUHMANN, na explicação provida por MATHIS, não percebeu também, que mensa-gem e informação equivaleria, mutatis mutandis, à idéia dual de unicidade que o próprio sociólogo alemão faz entre sistema e meio, ou seja, um não pode existir (acontecer) sem o outro. Por isso, repetimos: a iniciativa de Alter dizer a Ego sim-plesmente que está chovendo não realiza a comunicação. Até porque o fato de cho-ver só pode ser transformado em mensagem - e conseqüentemente ser, como informação, a matéria-prima inicial de um processo de comunicação - através de uma mediação lingüística qualquer e aí, pela perspectiva da recepção, o Está cho-vendo, em nosso idioma, se diferencia do It's raining, do inglês, por exemplo, que por sua vez não é igual ao Il pleut francês ou ao Es regnet, da língua pátria de LUHMANN. O fato é o mesmo, as percepções não. Ao mesmo tempo, são necessárias outras variáveis para se completar (ou mesmo existir) um processo de comunicação em sua integralidade. A capacidade plena de decodificação aqui exemplificada - que conduz ao conceito habermasiano de competência verbal -, contudo, é apenas um desses quesitos. Haveria outras interferências, e algumas verificadas mesmo nas condições intrínsecas do meio. Pode ser dado como exemplo a propagação, na mesma chuva de MATHIS, de intensos trovões cujo ruído estivesse a impedir que a mensagem de Alter chegasse, sem distorções, a Ego.

Mas mesmo aí pode estar havendo um outro tipo de processo de comunicação, embora de ordem incompleto; Alter diz a Ego: Está chovendo! Ao que Ego apenas responde: Hein!!! Houve comunicação, testada através da retroalimentação, mas não a sua plena compreensão. O processo tem, então, de ser retomado, caso haja a intenção de realizá-lo in totum; retomado nas mesmas ou em outras bases, com o uso do mesmo ou de um outro código (gestual, por exemplo), ou de outros ele-mentos do mesmo código (como palavras diferentes), mas necessariamente em condições materiais diversas: o emissor, no caso Alter, terá de chegar fisicamente mais perto do receptor, ou seja, Ego, ou informar o conteúdo de sua mensagem em tom mais alto. Mas para isso, tanto Alter como Ego têm igualmente de saber "ler" os sinais (índices) emitidos pelo ambiente, pois são estes que se transformam em informações relevantes para o primeiro poder decidir como superar a barreira pro-vocada pelo ruído evidenciado - com o fito de ver plenamente "fechado" o processo comunicacional que intenta perpetrar -, na medida em que o segundo venha a decodificar (no todo ou em parte) a mensagem conforme as pretensões da produção.

O que existe de problemático no pensamento de LUHMANN sobre a comunicação, portanto, começa com a confusão entre ato e processo. E isso inviabiliza a percepção de que o ato de propagar a mensagem, para informar, não garante o processo de comunicação ou, às vezes, nem o garante apenas parcialmente, ou, amiúde, não o garante, ao menos, de forma incompleta e/ou distorcida. E isso compromete, ao nosso ver, toda a conceituação que LUHMANN possa ter feito sobre comunicação, já que nessa, mensagem (e o conseqüente uso de um código) é elemento, matéria-prima; informação é ato; e a comunicação, de per si, processo. Fora desse enten-dimento está se criando uma nova disciplina acadêmica".

Há ainda uma última observação necessária às considerações de MATHIS. Comu-nicação não é um produto, não é algo físico que se transfere de um indivíduo a ou-tro. Assim, fica extremamente comprometido um outro entendimento a respeito do processo clássico (que ele momeia como comum) pelo qual, segundo o autor, a comunicação se reduz à passagem de um conteúdo de alguém "(que deixou de tê-la) para outro (que passou a tê-la)". Ora, nem a mais primária análise do comuni-cacional poderia ser dessa forma. Conteúdos não são transferidos, mas sim com-partilhados. Não fosse assim, por exemplo, professores somente poderiam dar uma única aula, já que os seus conteúdos comunicados deixariam de existir.

A retroalimentação no organizacional

LEONARD DOOB nos ensina que o processo comunicacional inclui várias outras di-mensões, além daquelas sintetizadas no modelo tricotômico que, desde a dialética aristotélica, procura dar forma ao processo comunicacional (emissor Ô mensagem [canal] Ô receptor). Fala-nos do ambiente, que deve estar propício à troca de in-formações; mostra-nos a importância do estado de espírito, ou de ânimo (mood, no original, em inglês), para que as mensagens transitem com um mínimo de distorções; chama ainda nossa atenção à utilidade do uso adequado dos meios de extensão (na avaliação de DOOB, o aparelho telefônico, tão valorizado no modelo de SANNON & WEAVER, por exemplo, passa a ser exatamente o que realmente é, ou seja, apenas uma máquina, ocasionalmente útil para o processo de comunicação); seu diagrama indica também que a comunicação não pode ser reduzida a uma observação cibernética que define pessoas e coisas pelo que existe ou não existe, pelo presente ou ausente, pelo sim ou não…; mostra finalmente que deve conter em tais processos a dimensão de retorno, que indica a existência de um retrabalhar cons-tante de idéias, materializado nessa retroalimentação (feedback), que dá sempre início a uma nova sessão da permuta informacional que transforma em comunicação uma simples emissão de mensagens. Há, enfim, vida no modelo de DOOB.

No âmbito do organizacional o entendimento dessa dimensão teórica é fundamental. Mostra-nos que não existe um sistema que dita e, externo a ele, um sujeito que apenas se adapta. Indica-nos que as funções de comando, gerenciamento, as-sessoramento e, principalmente, de planejamento não podem prescindir da com-preensão do homem na sua dimensão mais integral. E isso não se faz sem o enten-dimento da comunicação, seus processos, suas possibilidades e, sobretudo, suas limitações. Nem tudo pode ser feito a toda hora e na velocidade que se quer. Exis-tem limites impostos por instâncias externas ao sistêmico. Existe aquilo que se pode exigir e aquilo que não se pode; existe o que se pode esperar e o que não se obterá nunca; existem "modelos mentais" possíveis de serem substituídos ou ajustados e outros que jamais se modificarão.

E por que isso? Porque há, com certeza, uma instância externa ao sistêmico que indaga e reclama, avalia e se opõe, sabe, enquanto produtor, seus limites à realização, como sabe impor limites à aceitação dos ditames oriundos do sistema. Por isso, é necessário entender que na empresa ou na instituição, o céu da produtivida-de não é, simplesmente, o limite, como preconizam a maioria das formulações teóricas administrativas. Há - para utilizar uma expressão cara à Economia e à Administração - um fator de inelasticidade a criar defasagens cada vez maiores entre a vontade do planejador e o resultado do planejamento. Aí comunicação e negociação se confundem e o sucesso está nitidamente vinculado ao saber "ler" a retroalimentação dos inúmeros processos que, de momento a momento, eclodem nos ambientes organizacionais. Até para que não se caia naquilo que igualmente a administração e a economia condenam e chamam de retrabalho Dessa forma, então, se evitará mais facilmente ouvir a famosa frase: "Meu Deus! Eles não entenderam nada do que eu disse". E ter de partir para apagar incêndios.

Conclusão

É possível concluir, portanto, que os planejamentos, sejam quais forem, voltados ao aperfeiçoamento da produtividade em empresas e instituições, não podem pres-cindir do pleno entendimento dos processos específicos de comunicação que nelas se dão. Alguns desses, seja pela sua contundência, seja pela sua repetição, podem fornecer material riquíssimo à superação de problemas de relacionamento (tanto funcionais como interpessoais) e mesmo criar condições ao aumento da produtividade. Mas para isso duas coisas são fundamentais: o reconhecimento de que o ator social não é um receptor passivo, adestrado para aceitar os "ensinamentos superiores" e a aceitação de uma instância extra-sistêmica que, desde o ambiente, permite a transformação em ação a partir da troca inesgotável de sentidos que o mundo da vida não cessa de produzir. E essas duas dimensões podem ser melhor entendidas através da "leitura" isenta da retroalimentação.

Notas

1)Tratou-se da monografia The Mathematical Theory of Communication, publicada em 1948. Cf. MATTELART, Armand & MATTELART, Michèle. História das Teorias da Comunicação. Trad. de Luiz Paulo Rouanet. 2. ed. São Paulo: Loyola, 1999, p. 61. Sobre o modelo de SANNON & WEAVER consulte ainda: RABAÇA, Carlos Alberto & BARBOSA, Gustavo. Dicionário de Comunicação. Rio de Janeiro: Codecri, 1978, p. 109-110.

2) Usaremos a palavra comunicação com inicial minúscula sempre que nos referirmos ao ato de se comunicar; a palavra será escrita com inicial maiúscula, contudo, quando estiver no sentido de identificar o campo acadêmico.

3) Cf. LUHMANN, Niklas. A Improbabilidade da Comunicação. Lisboa (Portugal): Ve-ga, 1993.

4) "The environment contains no information. The environment is as it is" (O ambiente não contém nenhuma informação. O ambiente é como ele é). A frase, do físico austríaco HEINZ VON FOERSTER, é citada por LUHMANN na fundamentação de sua teoria. Cf. FOERSTER, von Heinz. Observing Systems. Seaside (EUA): 1981, p. 270, apud LUHMANN. Niklas Luhmann: a nova teoria dos sistemas. Trad. de Eva Machado Bar-bosa Samios. Diálogos Brasil-Alemanha nas Ciências Humanas, n. 9, Porto Alegre: Editora da Universidade - UFRGS/Goethe-Institut-ICBA, 1997, p. 41 e 47. Com grifos nossos.

5) No sentido da possibilidade de a ação redundar em transformação, proposto por HANNAH ARENDT. Cf. ARENDT, Hannah A Condição Humana. Trad. de Roberto Ra-poso. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.

6) Mesmo sendo fundamental a consciência de que o conflito capital versus trabalho será, sempre, insuperável.

7) Sobre esse aspecto veja, por exemplo: MEGGINSON, Leon C.; MOSLEY, Donald C. & PIETRI JR., Paul H. Administração: conceitos e aplicações. Trad. de Maria Isa-bel Hopp. 4. ed. São Paulo: Habra, 1998, p. 13. Consulte ainda: FERREIRA, Ademir Antonio; REIS, Ana Carla Fonseca & PEREIRA, Maria Isabel. Gestão Empresarial: de Taylor aos nossos dias - evolução e tendências da moderna administração de em-presas. São Paulo: Pioneira, 1997, p. 17. Uma crítica a essa formulação dicotômica pode ser encontrada em: AZAMBUJA, Germano Augusto de. Entre o Branco e o Ne-gro - as opções do funcionalismo público na comunicação organizacional entre as im-posições sistêmicas e as negociações do mundo da vida. 2003. 713 f. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação) - Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2 v, p. 84-86.

8) Produtor aqui no sentido de quem produz, ou seja, de quem cumpre tarefas.

9) Sobre o conceito é fundamental a leitura da obra de THOMAS KUHN, A Estrutura das Revoluções Científicas.

10) LUHMANN, A improbabilidade…, op. cit., p. 41.

11) Cf. LUHMANN. Niklas Luhmann…, op. cit.

12) Ou seja, forte em ensinar os meandros sistêmicos, mas fraca no ensino das urgências comunicacionais extra-sistêmicas que vêm do doméstico, do cotidiano, do cultural…

13) MATHIS, Armin. O Conceito de Sociedade na Teoria dos Sistemas de Niklas Luhmann.Disponível em: <http://www.clacso.edu.ar/~libros/anpocs/mathis.rtf>. Acesso em: 13 nov., 2002, 16 p.

14) Idem, ibidem, p. 7-8. Com grifos nossos.

15) Na verdade, NIKLAS LUHMANN era graduado em Direito, pela Universidade de Fraiburg. Em uma fase posterior (principalmente depois de trabalhar com TALCOTT PARSONS, em Harvard) é que vai se interessar pela Sociologia.

16) Para uma visão bem completa de processo comunicacional ver o modelo de DOOB em: RABAÇA, Carlos Alberto & BARBOSA, Gustavo. Dicionário de Comunicação. Rio de Janeiro: Codecri, 1978, p. 116-117. Consulte também: PFROMM NETO, Sa-muel. Comunicação de Massa: natureza, modelos, imagens; contribuição para o estudo da psicologia da comunicação de massa. São Paulo: Pioneira/Edusp, 1972, p. 60-61.

17) Cf. HABERMAS, Jürgen. Teoría de la Acción Comunicativa. Trad. para o espanhol de Manuel Jiménez Redondo. Madri (Espanha): Taurus, 1987, 2 v, p. 136-138.

18) Esta perspectiva estaria sintonizada com a hipótese dos estados de recepção, proposta por STUART HALL. Cf. HALL, Stuart. Encoding/Decoding, in: CENTRE FOR CON-TEMPORARY CULTURAL STUDIES. Culture. Media, Language (Working Papers in Cultural Studies, 1972-79), Universidade de Birmingham, Londres (RU): Routledge, p. 127-138, 1996, p. 136.

19) E tal confusão fica instalada até na percepção dos melhores comentadores da teoria dos sistemas, como parece ser o caso do professor ARMIN MATHIS. Além de reproduzir essa confusão no corpo da citação sobre o exemplo da chuva, acima selecionada, ele a repete na nota 17 de seu artigo, quando se refere à comunicação, citando LUHMANN, como ato (comunicativo), enquanto no corpo do texto, uma linha adiante, a tem en-quanto processo. A obra de LUHMANN usada como fonte, citada por MATHIS é: LUHMANN, Niklas. Soziale Systeme. Grundriß einer allgemeinen Theorie. Frankfurt (Alemanha): a. M. (Suhrkamp), 1993, p., 203. Cf. MATHIS, op. cit., p. 8.

20) AZAMBUJA, op.cit, p. 145-148

21) Imaginamos que essa conceituação, principalmente na discussão provida por SENGE, sobre a sua segunda disciplina, seja a mais adequada para substituir a idéia que campos como o das Ciências da Administração têm dos "paradigmas" e de suas "quebras". Cf. SENGE, Peter, M. A Quinta Disciplina: arte e prática da organização que aprende - uma nova e revolucionária concepção de liderança e gerenciamento empresarial. Trad. de OP Traduções. São Paulo: Best Seller, 1998, p. 41.

Bibliografia

· Referências impressas

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· Referências eletrônicas


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