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Comunicação
House-organ, a cara (e que cara!) da empresa
Wilson da Costa Bueno
Jornalista, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa,
professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação
Social da UMESP e professor de Jornalismo da ECA/USP.
É triste, mas é a realidade: a maioria dos house-organs
está distante, muito distante, do que se poderia considerar uma
produção jornalística de qualidade. Talvez se possa
radicalizar ainda mais: os nossos house-organs não são sequer
veículos jornalísticos, na verdadeira acepção
do termo.
Isso mesmo. Os house-organs, ainda que tenham evoluído em sua proposta
gráfica e incorporado, gradativamente, a figura do jornalista em
seu processo de produção, pecam no conceito e na prática.
Simulam , respaldados no seu formato e procedimento técnico (quem
olha à distância, imagina estar diante de um veículo
jornalístico, com leads, manchetes etc), algo que efetivamente
não são, porque, simplesmente, não querem ser. Quem
os analisa mais de perto, confirma que não passam de clones falsos
de jornais e revistas e que lhes faltam a alma, a essência, o "ethos"
da atividade jornalística, ou seja, os house-organs não
compartilham seu DNA com os veículos de imprensa.
É possível apontar, ainda que rapidamente, algumas das características
dos house-organs que os diferenciam de um jornal ou revista exemplar.
Em primeiro lugar, apesar de ser produzido e/ou assinado por um profissional
de imprensa (e precisaria ser mesmo assim?), o house-organ não
propõe o debate, não incentiva o pluralismo de idéias,
não ouve o outro lado, porque, definitivamente, está comprometido
com a visão oficial. Há até quem defenda a tese de
que, por se tratar de um veículo da empresa, ele, obrigatoriamente,
tem que ser assim mesmo: trazer a perspectiva da organização,
sem questionamentos, porque tem como objetivo difundir a sua imagem (como
poderemos ver , ao longo do texto, aí está uma armadilha
ou um equívoco, já que, se algumas empresas forem como são
os seus house-organs, livrem-nos delas!). Alguns editores ou gerentes
de comunicação, responsáveis pelos house-organs,
são ainda mais contundentes: "alguma empresa ou entidade financiaria
um veículo que a contestasse?" E completam, como se estivessem
proclamando a verdade absoluta, extraída de sua sábia experiência:
"o house-organ é a cara da empresa".
Em segundo lugar, o house-organ tradicional constitui-se, mais apropriadamente,
em um veículo de propaganda (e, o que é pior, de má
propaganda). É fácil perceber isso a partir de vários
indicadores:
a) o seu discurso é laudatório, repleto de adjetivos, ressaltando
a organização como se ela fosse a única, a melhor
, simplesmente perfeita;
b) a alta direção (e mesmo, em alguns casos, os chefes mais
próximos - geralmente aqueles ao quais o editor do house-organ
ou o responsável pela comunicação se reporta) costuma
estar sempre presente no veículo, contemplada em suas fotos e textos.
Os funcionários podem até estar presente neles, mas dentro
da ótica da participação consentida, ou seja, estão
ali para reforçar, legitimar opiniões da autoridade. Quem
tem idéia própria (e, cruz credo, divergente da oficial)
não tem vez alguma;
c) ele não abre espaço, em suas pautas, para o humilde e
legítimo esforço de reconhecer que há algumas coisas
que poderiam ser melhoradas nas organizações. Ele não
admite que, assim como o ser humano, as organizações têm
imperfeições e que, assumi-las, é o primeiro passo
para superá-las. A empresa ou entidade retratada pelo house-organ
é impecável, generosa, solidária, cidadã,
tecnologicamente avançada, enfim um verdadeiro tipo ideal que ,
na prática, só é encontrado mesmo nos jornais
de empresa (o grifo é nosso para chamar a atenção
sobre a inadequação do termo). No mundo que está
por aí, essa empresa irretocável, acima de qualquer suspeita,
sem falhas, não existe
Em terceiro lugar, o processo de produção do house-organ
é, quase sempre, um processo tenso, em que prevalecem a censura
, a autocensura, os temas tabus etc, o que o torna uma caricatura de jornal.
Há empresas ou entidades em que o house-organ chega a ser submetido
ao alto escalão (precisa da aprovação da Presidência
ou do Departamento Jurídico) porque é visto como um instrumento
de alto risco, capaz de desestabilizar as organizações.
Na verdade, o jornalista ou o editor já sabe que o produto final
terá que passar por tantos filtros que acaba, por contra própria
("gato escaldado tem medo de água fria"), se esforçando
para sugerir temas mornos, não polêmicos, que não
possam causar nem problemas para a organização, nem dificuldades
para serem aprovados pelos "censores". A sua experiência
como editor (ou jornalista responsável) recomenda evitar sempre
que as pautas sejam "podadas" lá em cima, porque não
é bom ficar sugerindo temas que possam causar desconforto e que,
no final das contas, indiquem que ele não tem juízo ou sensibilidade
para saber o que pode ou não ser abordado num veículo da
empresa. (o grifo é nosso). A decisão acaba sendo
inexorável: "se é para ser cortado lá, corto
eu mesmo aqui!." E, novamente, foi para o lixo da memória
uma boa pauta, aquela que , talvez, tivesse alguma coisa a ver com o que
chamamos, no mundo de fora da empresa, de jornalismo e, no ambiente organizacional,
de comunicação estratégica.
Com tudo isso, o house-organ se apresenta exatamente como o oposto do
que deveria ser: um veículo tolhido, censurado, controlado e, portanto,
insosso, que ninguém (ou muito poucos) se aventura a ler. Ele se
esforça tanto para ter a cara da empresa que acaba não tendo
a cara do seu público-alvo e afronta o princípio básico
da comunicação: levar em conta as demandas, as expectativas,
as motivações, o universo sócio-cultural da audiência.
Logo, não funciona.
Será que tem ser assim?
Evidentemente que não. O house-organ, que tem esse perfil, se
enquadra num modelo conservador, superado, de gestão. A chamada
sociedade do conhecimento pressupõe a circulação
ampla de idéias, a diversidade corporativa, a participação
efetiva e estimulada, o incentivo à crítica , vista como
catalizadora de novas oportunidades e não, como uma ameaça.
Ele se enquadra, tal como está, numa cultura organizacional que
é avessa à comunicação e que não consegue
perceber a diferença entre debate e embate e que imagina manter
o controle pelo estrangulamento da divergência. Agindo dessa forma,
as organizações impedem que os funcionários se disponham
a colaborar, estejam prontos para dar sugestões, indicar novos
caminhos, apontar para problemas atuais e futuros e, sobretudo, se comprometam
com a gestão organizacional. Se não posso dizer o que penso,
então não digo coisa alguma, concluem os "colaboradores".
O house-organ, visto sob esta perspectiva, é realmente a cara (
e que cara, hein?) da empresa. Ele aponta para uma organização
que prima pela rigidez hierárquica, em que os chefes se legitimam
pela autoridade delegada e não construída, que é
contrária às novas idéias, não está
preparada para enfrentar os desafios de uma sociedade cada vez mais competititiva
e em contínua mudança. Essa organização (entidade
ou empresa) aceita, então, que cada instância de comunicação
esteja sob rígido controle, e aí se inclui o house-organ,
que, por se tratar de letra impressa, tem, para ela, o peso de um documento
oficial, de uma verdade para toda a vida. Não pode, por isso, ficar
andando por aí, sem uma coleira no pescoço.
O house-organ moderno precisa ainda ser inventado, ainda que muitas organizações
já tenham assumido (ou estejam gradativamente assumindo) uma nova
cultura, em sinergia com os novos tempos. O house-organ precisa, sob esse
prisma, libertar-se, buscar sua identidade, afinar-se com um momento em
que a troca de idéias é percebida como fundamental para
o enriquecimento profissional e organizacional. A democratização
da comunicação interna contribui para formar funcionários
e cidadãos responsáveis, mais críticos, mais conscientes
de seus papéis e, portanto, ao contrário do que pensam os
velhos administradores, estrategicamente mais importantes para as organizações.
O debate amplo facilita a criação de líderes autènticos,
potencializa a mobilização para solução de
problemas, cria um espírito de equipe e aproxima mentes e corações
que, se mantidos isolados, costumam reforçar diferenças
e preconceitos.
As empresas ou entidades devem enxergar no house-organ um instrumento
que, ao mesmo tempo, integre e convide à reflexão, essência
da comunicação democrática, sem controles, sem censura.
A gestão moderna não pode abrir mão do fluxo contínuo
e livre de informações, da capacitação para
o relacionamento competente com os públicos de interesse das organizações
. O house-organ deve se constituir, pois, em um laboratório vivo
para a consolidação de uma autêntica comunicação
organizacional, integrada e socialmente responsável.
O house-organ deve ser visto como um instrumento efetivamente estratégico
e, para tanto, ele precisa ser valorizado. Se nada for feito, ele continuará
sendo , infelizmente, aquela cara da empresa que ninguém gostaria
de ver: triste, sem sabor, previsível, repetitivo, enfim, absolutamente
descartável.
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