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Auditoria de Imagem das organizações
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Comunicação
Preconceitos e equívocos em auditoria de imagem
Wilson da Costa Bueno
Jornalista, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa,
professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação
Social da UMESP e professor de Jornalismo da ECA/USP.
De uma hora para outra, as assessorias/agências de comunicação
passaram a incluir, em seu portfolio, os trabalhos de auditoria de imagem.
A maioria delas, no entanto, não domina esta metodologia e, conceitualmente,
não está capacitada a empreender projetos nesta área.
Mas, baseadas na idéia de "o que cai na rede, é peixe",
muitas passaram a assediar clientes para vender os seus projetos.
Infelizmente, esta corrida ao mercado não tem sido positiva para
as poucas empresas que, de maneira adequada, vem, ao longo do tempo, desenvolvendo
metodologias e refinando conceitos em auditoria de imagem. As empresas
e entidades, ao tomarem contato com produtos de qualidade discutível,
sem qualquer fundamentação teórica ou aplicação
prática, ainda que os contratem por algum tempo, logo se arrependem,
frustradas, porque eles não agregam valor ao seu esforço
de relacionamento com a mídia. Esses produtos ou projetos não
fazem o que prometem e funcionam, quase sempre, como meros registros,
mensurações sem sentido e, portanto sem qualquer valor em
termos de uma proposta estratégica de comunicação.
Na verdade, a expressão auditoria de imagem, de que todos nos valemos,
até porque ela já ganhou status na área de Comunicação
Empresarial, precisa ser melhor esclarecida para evitar equívocos
formidáveis encontrados, aqui e acolá, com muita frequência.
Um trabalho de auditoria de imagem de uma organização não
se encerra, necessariamente, na avaliação da presença
de um empresa ou entidade na mídia. Ele deve comprender um levantamento
exaustivo, metodologicamente definido, junto aos diversos públicos
de interesse das organizações. Por uma razão muito
simples. A imagem de uma empresa ou entidade é a somatória
das imagens percebidas por diferentes públicos, de tal modo que
é possível imaginar que, na prática, uma organização
tem várias imagens. Uma mineradora, por exemplo, pode ter, se bem
sucedida em seus negócios, uma imagem altamente positiva junto
aos seus acionistas (afinal de contas, rende bons dividendos), mas pode
ter outra, e bem desgastada, junto ao movimento ambientalista, pelo impacto
que a sua atividade costuma causar ao meio ambiente.
A imagem pode, pois, não ser una e , ao avaliá-la, é
preciso contemplar as várias possibilidades, tantas quantas os
públicos de interesse com que a organização se relaciona.
Quando se afirma que a imagem da empresa é esta ou aquela , é
preciso, obrigatoriamente, acrescentar a que público estamos nos
referindo. A imagem não existe de per si, é sempre um conceito
associado.
Como o nosso escopo nesta comunicação, é vislumbrar
, especificamente, a imagem da organização vista a partir
da mídia, outros esclarecimentos se fazem necessários. É
evidente que os jornalistas se constituem em público de interesse
vital para as organizações e que, portanto, os profissionais
de imprensa, como todos os outros segmentos da sociedade, podem ter uma
percepção específica de uma organização.
Mas o que , costumeiramente, se mede na auditoria de imagem na imprensa
é a cobertura que a mídia dá aos fatos e pessoas
ligadas a uma determinada organização. Não se pesquisa
os jornalistas, mas se observa o trabalho por eles realizado, sempre filtrado
pela linha editorial do veículo no qual trabalham.
Somente uma pessoa pouco afeita ao processo de produção
jornalística, poderia imaginar que o resultado de uma matéria
publicada em um jornal ou revista, ou veiculada em rádio ou televisão,
se deve unicamente ao repórter que coletou as informações
ou realizou as entrevistas. Existem editores aos quais o repórter
se subordina, existe a alta direção aos quais os editores
e repórteres estão vinculados, e, infelizmente, cada vez
mais, é notória a interferência do setor comercial
na redação . Enfim, há uma dinâmica peculiar,
com singularidades em cada veículo de comunicação,
que define espaços e tempos dedicados a uma notícia em particular
e que, inclusive, pode acarretar na não divulgação
da reportagem realizada.
De qualquer forma, o que a auditoria de imagem na imprensa mede é
a presença de uma organização nos veículos
e não a imagem da organização, porque esta, efetivamente,
não está na mídia, mas na cabeça dos públicos
que a lêem. E, como sabemos, a leitura é uma experiência
pessoal, mediada por valores, princípios, ideologias etc.
Assim, a primeira observação, e contundente do ponto de
vista de firmar um conceito, é que a auditoria de imagem na mídia
não mede imagem, mas presença. Isso não significa
que não seja importante; pelo contrário, na sociedade moderna,
a imprensa tem um papel fundamental na fixação de imagens
, sejam elas de pessoas, governos ou organizações. Ela forma
sim imagens e não é exagero afirmar que, muitas vezes, a
percepção que temos dos outros é moldada a partir
dos jornais que lemos ou dos telejornais a que assistimos todos os dias.
Logo, monitorar presença nos jornais e revistas é, indiretamente,
buscar a imagem que eles costumam refletir. Nada de novo, nesta metodologia,
porque a ciência se vale destes recursos indiretos o tempo todo.
Sabemos sobre a existência de uma estrela ou de um buraco negro
pela interferência que esses elementos podem causar em outros seres
e objetos e podemos, com razoável precisão, definir o seu
perfil: seu tamanho , sua idade, sua distância em relação
ao nosso planeta etc.
Se conhecemos bem os veículos de comunicação, poderemos,
com boa probabilidade, inferir o impacto que uma unidade informativa particular
(uma reportagem, uma nota de coluna , um artigo ou um editorial) pode
causar na imagem (ou imagens) que uma organização tem junto
ao público leitor (radiouvinte, telespectador, internauta etc,
dependendo da mídia considerada).
Aceito este fato, não há porque, como advogam alguns executivos
preconceituosos com relação à auditoria de imagem
(certamente, apoiados em experiências pouco recompensadoras com
produtos e agências não capacitadas), negar a importância
deste trabalho. Afinal de contas, é mais ou menos óbvia
a necessidade de acompanhar o resultado de um esforço de relacionamento
com a mídia e, se uma organização não se propõe
a isso, com certeza estará arriscando no escuro, o que a torna
vulnerável à ação da imprensa e dos concorrentes.
A auditoria de imagem na mídia é um instrumento indispensável
de inteligência empresarial, assim como são todas as pesquisas
de avaliação de um esforço específico de comunicação
(auditoria da comunicação interna, auditoria da eficácia
de um house-organ, avaliação do retorno de investimentos
culturais ou esportivos etc).
Os equívocos principais
O princiais equívocos encontrados em auditoria de imagem têm
a ver com a falta de uma compreensão adequada de sua abrangência
e, muitas vezes, de um foco viesado do papel da imprensa, enquanto agente
de influência na sociedade.
Resumidamente, podemos apontar 3 principais problemas na conceituação
e na prática dos trabalhos de auditoria de imagem da imprensa.
O primeiro deles diz respeito à não observância de
um aspecto primordial: toda organização é uma singularidade.
Isso quer dizer que não existe um formato padrão, definido
em um software, por exemplo, que possa ser aplicado a qualquer empresa,
porque a inserção de uma organização na mídia
ocorre, pelo menos, em função de dois fatores básicos:
sua própria cultura de comunicação e a sua área
de atuação. Muito frequentemente, estes fatores estão
correlacionados: uma empresa voltada para o consumidor final tem uma cultura
distinta, por exemplo, de uma outra empresa que atua no segmento business
to business, mas tem algumas características comuns a outras empresas
do mesmo tipo. Mesmo assim, ainda que focadas no consumidor final, uma
empresa que fabrica pastas de dente terá uma proposta de comunicação
(e de relacionamento com a mídia) diferente de uma empresa que
fabrica relógios ou cosméticos. Logo, o projeto de auditoria
de imagem tem que ser, obrigatoriamente, personalizado. Ele é resultado
de uma parceria entre o prestador de serviços e o cliente e é
concebido a partir das expectativas, necessidades e estratégias
negociais e de relacionamento com a mídia indicadas pelo cliente.
A auditoria de imagem está longe do mercado de pratos prontos,
tipo "basta esquentar no forno". É , certamente, mais
um produto artesanal, construído a partir de uma vivência,
de uma experiência de relacioanamento e que, ao longo de tempo,
deve merecer refinamentos e adaptações contínuas.
É, pois, um produto em desenvolvimento, sintonizado com as necessidades
e ações de imprensa de uma organização. Ele,
obrigatoriamente, se acomoda a esta dinâmica de relacionamento e
não pode ser definido rigidamente no momento da sua contratação.
O segundo equívoco está relacionado com a idéia de
que os veículos, independentemente da organização
que se considera, têm o mesmo peso na formação da
imagem. Essa simplificação faz com que muitas agências
, e mesmo alguns teóricos de plantão, ignorem os jornais
locais e a mídia segmentada, sob a alegação de que
quem faz a imagem no Brasil são alguns poucos veículos de
prestígio. O erro , neste caso, é enorme porque não
temos , efetivamente, veículos de alcance nacional (no caso da
mídia impressa) e porque a realidade brasileira é do pequeno
jornal ou, no máximo, do jornal regional. Uma empresa sediada numa
pequena cidade deverá , obrigatoriamente, monitorar a imprensa
nela existente e a da região próxima, que repercute os fatos
que ali acontecem. Para a Gerdau, é fundamental a mídia
riograndense, assim como para a Perdigão, a mídia de Santa
Catarina, o que não quer dizer que, neste caso, como se tratam
de duas empresas de alcance nacional, as outras mídias não
tenham importância.Cada caso é um caso. Além disso,
há a segmentação da imprensa, de tal modo que , para
a Sadia ou para a Cargill, interessam, sobremaneira, os veículos
do agronegócio, assim como, para a Avon ou o Boticário,
as revistas femininas devem ser acompanhadas bem de perto.
O terceiro equívoco consiste em considerar o trabalho de auditoria
de imagem como algo que se realiza de tempos em tempos, para que se possa
avaliar como a imprensa está cobrindo uma organização
e seus concorrentes. Se a proposta é agir estrategicamente, a auditoria
de imagem tem que ser permanente, de modo a permitir que a empresa ou
entidade atue , de maneira rápida, para neutralizar desvantagens
em relação ao concorrente e mesmo corrija os rumos de um
relacionamento com a imprensa que não se mostra frutífero.
Não se faz auditoria de imagem para gerar relatórios anuais
para a diretoria (embora até possa ser útil e, em alguns
casos, permita planejamentos a médio e a longo prazos), mas para
se ter um instrumento de inteligência que está agregado ao
esforço permanente de assessoria de imprensa. Saber o que aconteceu
a uma organização na mídia, no ano passado, pode
ser ilustrativo, mas melhor ainda é monitorar, permanentemente,
para uma intervenção rápida e adequada, se for necessária.
Essa pode ser a diferença entre uma postura estratégica
e uma mera curiosidade.
Evidentemente, há inúmeros outros equívocos no trabalho
de auditoria de imagem, como a comparação entre notícia
e publicidade , a mera medição da centimetragem etc. Muitas
empresas justificam essas aberrações com a alegação
de que só assim os clientes entendem o trabalho de assessoria de
imprensa e lhe dão valor, mas, na prática, o que elas pretendem
mesmo é mascarar um esforço que, provavelmente, não
está dando resultados qualitativamente recompensadores para o cliente.
Num determinado momento, que está cada vez mais próximo,
devido à profissionalização das áreas de comunicação
nas organizações, os executivos das empresas perceberão
que o que importa é a divulgação qualificada, nos
veículos adequados, no momento certo, e que pouco significa aquele
montão de recortes que algumas assessorias colocam à sua
mesa no final do mês. Quando isso acontecer, as agências,
que têm apostado na simples centimetragem ou na conversão
de material editorial em espaço publicitário, perceberão
que cairam numa armadilha por elas mesmo forjadas. Aí, talvez não
dê mais tempo para fazerem a volta.
Em auditoria de imagem, como em qualquer outra atividade na área
de comunicação empresarial, não há mais espaço
para o amadorismo ou para improvisações. Ainda que muitas
agências insistam em avacalhar o mercado, vendendo produtos que
elas, efetivamente, não conhecem, os clientes saberão, gradativamente,
separar o joio do trigo. Elas terão , certamente, um problema de
imagem. E, nessa hora, não será qualquer auditoria que irá
salvá-las da formidável encrenca em que se meteram. Mesmo
porque o cliente traído ou frustrado costuma ser impiedoso. É
pagar para ver.
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