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Artigo

Campos sociais e midiatização: um olhar sobre a programação de dispositivo organizacional radiofônico
Sady Macêdo Sapper
Professor-Adjunto da Universidade Católica de Pelotas, jornalista da Embrapa. Mestre em Comunicação pela Univ. Metodista-SP, Doutor em Ciências da Comunicação pela Unisinos-RS.


Resumo

Estudo resultante de projeto de pesquisa conduzido junto à Rádio Universidade, órgão de comunicação organizacional da Universidade Católica de Pelotas, RS, buscando identificar as estratégias de midiatização de campos sociais assentes na programação da referida emissora.

Introdução

As teorias dos campos sociais e da midiatização constituem-se nas principais bases de estruturação do presente texto, que é conseqüência de observações efetuadas junto à programação da Rádio Universidade, órgão de comunicação organizacional da Universidade Católica de Pelotas, RS. O objetivo do trabalho foi identificar, em trechos pré-estabelecidos da programação do referido dispositivo radiofônico, quais os campos sociais midiatizados, via tematizações. A 'captura' de temas junto aos campos sociais para serem midiatizados no âmbito do dispositivo é percebida como uma estratégia de oferta de sentidos. Na realidade, como a emissora estudada funciona em circuito aberto, o caráter meramente organizacional do dispositivo é preenchido por campos sociais diferentes daqueles que, em princípio, se poderia pressupor como dominantes na comunicação organizacional de uma instituição confessional dedicada à educação superior.

Metodologia

Fundada no final dos anos 60, a Rádio Universidade é, desde então, estruturalmente um órgão auxiliar da Universidade Católica de Pelotas, RS, instalada junto ao Campus I da instituição, na zona central da cidade.

Foram analisados três produtos midiáticos do dispositivo em estudo, do gênero radiojornalismo, representados pelo programa matinal Manchetes do Dia, que vai ao ar de segunda a sexta-feira, das 7h30min às 8h30min; o programa Pelotas 13 Horas, das 13 às 14h30min, de segunda a sexta; e o programa Brasil Regional Informação, das 18 às 19 horas, também de segunda a sexta.

Na escolha de tais programas, levaram-se em conta os seguintes critérios: opção por formatos com ampla predominância do gênero radiojornalístico, a partir da hipótese de que em tal gênero a midiatização dos campos sociais apresenta maior transparência; escolher programas distribuídos na grade de programação do dispositivo que correspondam a horários estratégicos de turno e audiência (começo da manhã, meio-dia/início da tarde e final da tarde/começo da noite); opção por programas que, mesmo sendo de igual gênero, guardassem diferenças de formato e abordagens entre si.

O período recortado para a amostragem foram os meses de setembro, outubro e novembro de 2003, com variações dentro dos dias da semana, ou seja, na primeira semana analisaram-se as emissões de segunda-feira, na seguinte as de terça e assim sucessivamente.

Esclarecimento conceitual

São aqui trabalhados os conceitos de campos sociais e midiatização, de forma preponderante, e o conceito de tematização, subsidiariamente.

A referência inicial de campo enquanto esfera de disputa e domínio de uma experiência é dada inicialmente por Pierre Bourdieu (1998 a:59-73, 1998 b:27-78), ao estudar a questão simbólica aplicada ao poder e a outras formas de organização e manifestação social. Contudo, foi Adriano Rodrigues, especialmente, quem trouxe o conceito de campo social para uma esfera de mais próximo domínio e interesse da comunicação social e, mais precisamente, para os processos midiáticos, ou seja, estabeleceu bases razoáveis de utilização teórica dos campos sociais como referência para a compreensão do regime de funcionamento das mídias (Rodrigues, 1990:146-7 e 1994:103-5). Depois dele (ou ao seu lado), outros estudiosos, especialmente lusitanos, entre os quais J.P.Esteves, deram seqüência às reflexões destinadas à compreensão das mídia como um campo social diferenciado, ainda que em disputa por maior autonomização (Esteves, 1997:11-21). O campo social pressupõe uma disputa ou conflito em torno de uma experiência, fazendo com que tenha tenha o domínio de determinada área, que superintende e conduz autonomamente. Cada campo social é dotado de sua própria processualidade ritualística e visibilidade simbólica. Ainda que não infenso aos processos (re)demarcatórios inerentes ao tecido social, o campo das mídias tem hoje a caracterizá-lo com firmeza o uso de dispositivos peculiares e a construção discursiva em torno dos demais campos sociais.

O conceito de midiatização apresenta uma incipiência maior. Pode-se começar a examiná-lo como uma espécie de mediação privilegiada ou especializada. Eliseo Verón, em seu esforço para compreender os processos de semiose social em que se envolve a linguagem, assume a midiatização como escala intermediária de processos situados num espectro maior, de que participam atores sociais localizados e a sociedade como um todo (Verón, 1998:199-237). A midiatização pode ser percebida como a incidência de estratégias discursivas que se dão no interior do dispositivo midiático, construindo enunciados em torno de tematizações extraídas de campos sociais.

A tematização é um conceito que apresenta menor visibilidade nas estratégias teóricas comunicacionais, mas que, dependendo da aproximação que se deseje fazer com o objeto, acaba se revelando indispensável. A tematização é uma espécie de face visível da aceleração ou manifestação de um campo social, identificada pelo dispositivo como de interesse para ser midiatizada; trabalhada discursivamente na instância midiatizante, a tematização passa a produzir novos efeitos de sentido (Sapper, 2003:150-8).

A midiatização dos campos sociais

Uma primeira mirada sobre o recorte analisado, permite dizer que todos os campos sociais estão presentes na programação radiojornalística da Rádio Universidade, porém com variações quantitativas e enunciativas relevantes, o mesmo podendo ser dito com relação a agendamentos de natureza geográfica, ou seja, a procedência ou origem dos materiais. A especificação de tais aspectos, nos termos dos itens a seguir apresentados e comentados, serve para apoiar a compreensão das estratégias discursivas de produção de sentido do dispositivo estudado e para perceber os processos com que são trabalhados (tematizações) os diferentes campos sociais:

a) As manifestações procedentes dos campos sociais da economia e da política são as mais constantes, representando, em termos de freqüência quantitativa, cerca de três quintas partes das enunciações analisadas, ou seja, em torno de 60%, estando os demais 40% distribuídos entre os demais campos.

b) Os programas Manchetes do Dia e Pelotas 13 Horas são os que mais monopolizam as emissões referentes a esses campos sociais, havendo algumas edições de tais produtos midiáticos em que 100% da discursividade tematizada ocorre em torno de economia e política. O programa Brasil Regional Informação é aquele em que menos aparecem tais campos sociais.

c) No recorte analisado, as tematizações mais freqüentes sobre o campo econômico versaram sobre o controle da inflação, elevação/redução de taxas de juros, renegociação de acordo do Brasil com o Fundo Monetário Internacional e abertura do comércio de Pelotas aos sábados à tarde e dos supermercados aos domingos.

d) Quanto às tematizações do campo político, foram constantes as enunciações sobre a avaliação de desempenho do Governo Federal; divergências entre o Poder Executivo e o Judiciário e a reforma deste último Poder; discussões em torno da reforma da previdência social e especulações de terceiros ou da própria mídia.

e) As emissões referentes ao campo religioso podem ser consideradas no período da amostragem como relativamente poucas, referindo-se quase exclusivamente à saúde do Papa João Paulo II, através de boletins oficiais do Vaticano, comentários de médicos e especialistas ou através de especulações de terceiros ou da própria mídia.

f) As tematizações relacionadas ao campo educacional tiveram comportamento variado em cada um dos meses de amostragem. Assim, em setembro, a perspectiva de alteração do crédito educativo dominou as enunciações de tal campo; em outubro, a crise do Colégio Gonzaga e a possibilidade de fechamento da instituição, juntamente com a greve da Universidade Federal de Pelotas, foram os temas que receberam mais atenções; em novembro, a indefinição sobre a continuidade das atividades do Colégio Gonzaga e a Feira do Livro de Pelotas dominaram as enunciações referentes ao campo educacional. A crise do Colégio Gonzaga constituiu, nitidamente, causa de aceleração do campo educacional, em outubro e novembro.

g) Logo após os campos da economia e da política, o campo social esportivo foi o que recebeu o maior tratamento quantitativo da programação analisada, sendo responsável por cerca de um quinto (20%) das enunciações do período. Dentro do campo esportivo, o futebol foi o objeto praticamente absoluto das tematizações, que se concentraram em três questões: a luta do Grêmio Esportivo Brasil para voltar à primeira divisão do futebol gaúcho; a má campanha e perspectiva de rebaixamento do Grêmio Futebol Porto-Alegrense para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro; e os incidentes ocorridos após o clássico Brapel, em outubro, culminando com a morte de um torcedor, espancado por pessoas de torcida rival, o que provocou sensível aceleração nas enunciações do campo esportivo, subtematizadas, a partir de tal mês, através da discussão sobre a violência nos estádios de futebol ou em decorrência de rivalidades clubísticas. Pode-se dizer, com relação ao campo esportivo, que o tratamento recebido pelas três tematizações dominantes, nos três programas analisados, foi bastante semelhante, em termos de abordagens e espaços ocupados.

h) O campo científico aparece com fracas enunciações, quase sempre ligadas à polêmica dos produtos de natureza transgênica, de uma perspectiva regional e nacional. A apresentação desta tematização em algumas enunciações guardou relação com o emergente campo social da ecologia. O outro assunto incluído neste campo foi a gripe asiática, irrompida na China, enfocado de um prisma internacional.

i) A tematização da violência urbana aparece retratada com freqüência e espaços maiores no programa Brasil Regional Informação, a partir de uma perspectiva local, com a descrição e comentários sobre as ocorrências policiais consideradas de maior incidência e repercussão, concentradas em quatro tipos de ilícitos: crimes contra a vida, crimes contra o patrimônio (roubos e furtos), ocorrências envolvendo drogas e acidentes de trânsito.

j) Os enunciados sobre violência urbana tiveram colada a si a questão da segurança/insegurança e seus enunciados provêm, com razoável intensidade, dos campos militar e jurídico.

k) As enunciações referentes a uma geografia de âmbito internacional estiveram concentradas em três questões: a crise no Iraque, gerada pela invasão norte-americana, e a deposição de Saddam Hussein, provocando alta no preço do petróleo; a caçada a Osama Bin-Laden e aos terroristas da organização Al-Qaeda e as negociações e possibilidade de moratória entre a Argentina e o Fundo Monetário Internacional. Estas três tematizações internacionais revelam, de forma evidente, o entrecruzamento dos campos sociais da política e da economia. Ainda no plano mundial, houve enunciações mais discretas e já referidas sobre a saúde do Papa (campo religioso) e gripe asiática (campo científico).

l) Especialmente no mês de outubro, houve nos programas Manchetes do Dia e Pelotas 13 Horas diversas enunciações sobre a prisão do juiz federal Rocha Mattos, acusado de envolvimento com esquemas de corrupção e de vender sentenças. A enunciação de tal material foi construída a partir de articulação entre o campo jurídico e o político.

m) Os três programas analisados empregam diferentes formas discursivas; pode-se dizer que todas as formas clássicas encontram-se presentes no recorte radiojornalístico, mas utilizadas em doses quali-quantitativas diversas, conforme é mostrado no item seguinte.

n) O programa Manchetes do Dia, na medida em que comenta fatos e declarações provenientes dos diferentes campos sociais e da própria mídia, vale-se quase exclusivamente do discurso indireto livre. Pelotas 13 Horas é o que efetua a melhor combinação discursiva, havendo o discurso direto dos entrevistados, o discurso indireto das fontes e o discurso indireto livre, midiatizado pelas falas dos agentes do dispositivo. No programa Brasil Regional Informação, predominam as formas de discurso indireto.

Considerações finais

A análise do material levantado no recorte amostrado revela estar o dispositivo midiático em estudo sintonizado com os principais campos sociais midiatizados pela cultura de massa. A condição estrutural do dispositivo, enquanto órgão auxiliar de uma Universidade, não a transforma em termos radiojornalísticos em um puro instrumento de comunicação organizacional, ainda que em sua localização, prefixos, vinhetas, jingles e outros materiais isto seja plenamente assumido. De outra parte, ao contrário do que hipoteticamente poderia ser alinhado antes do estudo - levando em conta o fato da Rádio Universidade ser órgão auxiliar de uma instituição de ensino superior confessional - os campos da educação, religião e científico não dominam as enunciações (na verdade, estão até mesmo bem abaixo de outros campos) e não têm seus regimes de funcionamento tratados de maneira diferenciada no dispositivo.

Referências Bibliográficas

BOURDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: União de Editores, 1998 a.

_____________ A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1998 b.

ESTEVES, J.P. A ética da comunicação e os media modernos: Lisboa, Gulbenkian, 1997.

RODRIGUES, A.D. Estratégias de comunicação. Lisboa: Presença, 1990.

________________ Comunicação e cultura: Lisboa: Presença, 1994.

SAPPER, S.M. Construção midiática do rural. São Leopoldo: Unisinos, Tese de Doutoramento, 2003.

VERÓN, E. La semiosis social. Buenos Aires: Gedisa, 2001.