Assessoria de Imprensa / Relacionamento com a mídia


• Comunicação
• Artigo
• Case
• Resenha


Artigo

Todos somos repórteres
Marcos Vicente Cóffani Lock
Jornalista, pós-graduado em Gestão de Processos Comunicacionais pela ECA/USP, mestrando no programa de Comunicação Midiática pela UNESP/Bauru e profissional com experiência de 21 anos em Comunicação Empresarial, tendo passado pelas áreas de comunicação do Senai, IOB, Grupo Santista e atuado à frente da própria empresa durante sete anos, a Credencial Consultoria & Comunicação. Atualmente é docente do curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação Social da UNIRP- Centro Universitário de Rio Preto e consultor de empresas na região de São José do Rio Preto


Resumo

Na atual era, em que a informação tornou-se comum, farta e, portanto, essencial para nossa localização enquanto cidadãos planetários, a mídia ocupa papel de destaque; por isso merece tantos estudos. Neste processo de onipresença dos meios de comunicação social e intensa segmentação, processo acelerado pela internet, a produção de informações é avassaladora. Em grande parte esta avalanche assume o caráter jornalístico, adotando a forma e o sotaque noticioso para apresentar o fato às audiências. Diante de uma análise mais detida (que começo a realizar por conta de meu curso de mestrado na Unesp/Bauru), repara-se que nem tudo é, ou mereceria, ganhar o status de noticia. Esta mercadoria vai deixando cada vez mais para trás a sua vocação natural, para revestir-se de intencionalidade planificada.

Este fenômeno, ao meu ver, dá-se em dois planos: no primeiro, abrange as pessoas físicas, capazes de gerar informações de muitas ordens e coletivizá-las através de todos os instrumentos virtuais à sua disposição. O jornalista vai gradualmente perdendo a posição de privilégio em sua postura de determinar o que será ou não discutido socialmente. No segundo plano, estão as organizações públicas, privadas ou filantrópicas, gerando diariamente boa parte das pautas a serem aproveitadas pelas redações dos jornais. A informação que vem destes corporações está estreitando de forma perigosa e inusitada as fronteiras entre o jornalismo e a propaganda. Acadêmicos como o professor Manoel Chaparro acusam com freqüência a intensificação deste fenômeno.

Em ambos os casos a natureza da informação funde-se com a vocação da notícia e deste universo vai-se forjando uma sociedade permeada por grande quantidade de informações, o que estimula o aparecimento de muitas fontes que, antes, só se manifestavam quando acionadas. Agora, muitas delas estão tomando a iniciativa sem formação técnica ou com a devida compreensão de sua responsabilidade social enquanto emissoras de notícias. Por isso, defendo entre várias idéias, que cursos superiores que formam pessoas para cargos de direção deveriam incluir formalmente disciplina(s) com noções de mídia em seus currículos.

Abstract

In the current it was, in that the information became common, it satisfies and, therefore, essential for our location while planetary citizens, the media occupies prominence paper; that it deserves so many studies. In this process of omnipresence of the means of social communication and intense segmentation, process accelerated by the internet, the production of information is overpowering. This avalanche largely assumes the journalistic character, adopting the form and the informative accent to present the fact to the audiences. Before a more detained analysis (that beginning to accomplish due to my mestrado course in Unesp/Bauru), it is repaired that nor everything is, or it would deserve, to win the status of it informs. This merchandise is going leaving its natural vocation more and more back, to cover of planned intencionalidade.

This phenomenon, to mine to see, he/she gives him in two plans: in the first, it embraces the individuals, capable to generate information of a lot of orders and you collectivize them at your disposal through all the virtual instruments. The journalist is going losing the privilege position in its posture of determining gradually what will be or not discussed socially. In the second plan, they are the public, private or philanthropic organizations, generating good part of the lists daily be she taken advantage of by the compositions of the newspapers. The information that comes from these corporations is narrowing in a dangerous and unusual way the borders between the journalism and the propaganda. Academic as teacher Manoel Chaparro they accuse the intensificação of this phenomenon frequently.

In both cases the nature of the information is founded with the vocation of the news and of this universe it is going a society permeated by great amount of information being forged, what stimulates the aparecimento of a lot of sources that, before, they only showed when worked. Now, many of them are taking the initiative without technical formation or with the due understanding of its social while issuing of news responsibility. That, I defend among several ideas, that superior courses that form people for direction positions should include formally with media notions in its curricula.

1. A compreensão do que é notícia

1.1 A notícia enquanto valor

O que faz, afinal de contas, um acontecimento qualquer ganhar o status de noticia? Todos os dias ocorrem no mundo milhares de eventos. Por que alguns deles são pinçados pela mídia e se transformam em notícia, enquanto outros permanecem ignorados? Eles são escolhidos aleatoriamente pelos repórteres a seu próprio critério e julgamento? Ou é porque estes fatos têm certos atributos ou "valores-notícia", que os transformam em eventos potencialmente noticiáveis, bastando para isso serem identificados por algum jornalista? É muito conhecida o bordão que diz: "Se um cachorro morde um homem, não é notícia. Mas, se um homem morde um cachorro, isto sim é notícia". O que não é conhecida é a autoria desta frase. Ela foi proferida por Amus Cummings, ex-editor do New York Sun, considerado uma das melhores referências daquilo que conhecemos hoje como jornalismo impresso de massa.

Com isto ele quis indicar como valor-notícia, o caráter de anormalidade e de excepcionalidade da afirmação. Ou seja, para um acontecimento ganhar o nível noticioso, ele teria de apresentar um rompimento com a ordem natural das coisas, um desvio do comportamento esperado. Mas, é somente este caráter de transgressão que transforma um acontecimento em notícia?

Não é o que diz a literatura. A atenção principal dos conceitos usuais de notícia se concentra nos atributos do fato em si e não necessariamente em sua excepcionalidade. Diz-se que para ser notícia, um fato também deve ter atualidade, proximidade, proeminência (da pessoa envolvida), impacto e significância.

Mauro Wolf é, certamente, o autor que melhor sistematizou estes atributos dos fatos noticiáveis, utilizando o conceito de noticiabilidade para descrever a aptidão de um fato para tornar-se notícia. Segundo ele, a noticiabilidade é constituída pelo conjunto de requisitos que se exigem dos acontecimentos para adquirirem a existência pública de notícia. Não adquirindo o estatuto de notícia, o acontecimento é excluído do elenco de informações midiáticas e permanece como "matéria-prima". Para adquirir o nível de notícia, portanto, o fato necessita ter as qualidades chamadas valores-notícia, cujo referente comum devem ser sempre a realidade. Seguindo o raciocínio de Wolf é preciso também cruzar a noção de noticiabilidade com a natureza e as necessidades dos jornalistas e dos meios para os quais eles trabalham. É da negociação que um fato deve passar envolvendo o próprio acontecimento e suas qualidades, aliado a algumas exigências decorrentes das influências do trabalho jornalístico, que a notícia começa a tomar forma. Negociação essa que, muitas vezes, é subjetiva e ocorre de maneira involuntária no cotidiano das redações.

Os fatos poderiam ser divididos, ainda em negativos e positivos. Reparem que coloquei propositalmente o item "negativos" em primeiro lugar. Costuma-se dizer que "notícia boa é notícia ruim". Por que as notícias tristes tem mais espaço na mídia do que as boas? Galtun e Ruge elaboraram uma interessante teoria sobre a transgressão social enquanto notícia que nos ajuda a encontrar uma resposta para esta indagação. Dizem eles que quando ocorre um fato negativo, há uma forte ruptura social, e que este fato exige menos tempo, é menos ambíguo e se desenrola integralmente entre duas edições de jornal, ou entre dois telejornais, sendo assim mais noticiável. Acontecimentos positivos, por outro lado, são por natureza mais lentos, mais esperados, mais programáveis e, portanto, menos noticiáveis. Por isso, segundo Wolf, a organização do trabalho jornalístico está orientada para captar mais os acontecimentos ruins, ou seja mais pontuais, que representam maior ruptura social, do que aqueles constantes, que se traduzem em permanência, em estabilidade.

Estamos falando aqui da ruptura não planejada, não intencional, espontânea. A literatura de ciência política não ajuda muito, porque trata sempre da ruptura ou da transgressão enquanto ato consciente. Não é o nosso caso nesta análise. Estamos nos referindo a uma ruptura inconsciente, quase sempre involuntária e no nível individual, e não no coletivo. Estamos tratando aqui não da ordem pública estabelecida, mas dos comportamentos e relações sociais esperados no nível individual. Infração, por parte de indivíduos isolados das relações que regulam e organizam o comportamento do homem e estabelecem as condições de ordem social. Ou infração dos princípios éticos que definem as fronteiras da vida e da sociedade humana.

Os acontecimentos relatados nas noticias são, comumente, desvios das normas e dos comportamentos das pessoas e não das coisas. Eles contém algo que Luiz Gonzaga Motta chama de "anormalidade negativa". Ou seja, uma verdadeira quebra de rotina. Antonio Serra, na análise de um jornal popular brasileiro encontrou uma expressão no título de uma coluna diária que talvez defina com precisão o caráter deste tipo de notícia: o "avesso da vida", ou seja, um caráter de excepcionalidade que no jornalismo é entendido como "extraordinário".

Para Adriano Duarte Rodrigues, é um acontecimento noticiável tudo aquilo que irrompe na superfície da história a partir de uma multiplicidade aleatória de fatos virtuais. Pela sua natureza, quanto mais menos previsível for um fato, mais probabilidade ele terá de se tornar notícia e de integrar o discurso midiático. Para ele o discurso do acontecimento jornalístico seria uma anti-história, algo que nega a racionalidade.Todos os demais acontecimentos, portanto, regidos por causalidades facilmente determináveis ficam fora do alcance deste raciocínio.

1.2 A notícia planejada

Dito isso, inicio esta nova etapa deste trabalho reiterando um outro aspecto deste fenômeno que envolve a concepção de notícias. Enquanto linguagem o jornalismo tem como dimensão mais pragmática a função e a aptidão pragmática, ou seja, a capacidade lingüística de viabilizar ações e produzir efeitos sociais. Por meio do jornalismo, usando-lhe os atributos interativos e deles tirando proveito, os protagonistas do cotidiano, entre eles os próprios jornalistas, agem sobre o mundo e entre si, com o objetivo de realizar intervenções na atualidade, de modo a transformá-la ou a explicá-la. Dentro dessa visão é essencial compreender que o jornalismo não é um discurso autônomo. São muitos, cada vez mais, os sujeitos sociais competentes que ousam para agir e interagir no mundo presente. O jornalismo tem, na sua natureza, a aptidão de captar, compreender, reorganizar e difundir os discursos que a sociedade produz, agregando-lhes a credibilidade de uma mediação crítica. Por este entendimento, ele assume com convicção o papel de macrointerlocutor, elaborando significados e construindo sentidos.

O sucesso da intervenção jornalística, no entanto, depende de um atributo vital: o seu caráter asseverador.que quer dizer: é da natureza do jornalismo a qualidade de merecer fé. Para preservar e enriquecer este atributo fundamental, é preciso que todas as decisões e ações jornalísticas tenham como suporte uma tríade interativa, complementar e inseparável que são:

1) A técnica, que garante precisão, densidade e clareza à informação;
2) A ética: somos todos responsáveis pelos efeitos de nosso trabalho e de nossas intervenções no processo informacional; e
3) A estética, que deve ser a do relato veraz e das razões do interesse público, na construção das mensagens.

As redações são ativadas diariamente por duas famílias distintas de aconte-cimentos: uma delas é a dos acontecimentos imprevistos, cujos sinais são sempre percebidos pelas redações através de seus métodos eficazes de captação. Há rotinas, canais, pessoas, estratégias permanentemente de plantão para que este tipo de informação não passe despercebida ou fique à margem do processo jornalístico.

Outra família é a dos acontecimentos planejados, produzidos e controlados por pessoas ou instituições com aptidão para tal. Cada vez, numa escala crescente e sem precedentes, o espaço das pautas do jornalismo, seja aquele praticado pela mídia impressa (jornais e revistas), eletrônica (rádio e televisão) ou virtual (sites e webjornais), é ocupado pelos acontecimentos programados. Quer os editores e pauteiros gostem, ou não, os produtores competentes de acontecimentos exercem influência direta sobre o que será divulgado, ajudando a moldar a função de gatekeeper dos jornalistas. Isto em nada reduz a importância do trabalho jornalístico nas redações, pois, por causa da indispensável credibilidade do processo, pertence-lhes a prerrogativa de decidir o que deve e como deve ser divulgado, impondo-se, nessa decisão, os critérios da cultura jornalística, ente os quais o que atribui ao jornalismo a responsabilidade de uma mediação independente e crítica.

O interesse é a palavra-chave nos critérios da cultura jornalística. Investiga-se, seleciona-se e divulga-se o que se tem interesse, prevalecendo como referência a perspectiva do interesse público. Sem esquecer, porém, que os intervenientes ouvidos, os entrevistados, os observados, os pesquisados, têm seus próprios interesses, legítimos, que também devem ser conhecidos e levados em conta na seleção dos fatos que vão compor a próxima edição. No momento de elaborar ou atribuir significados às mensagens, é preciso estimular e orientar o público consumidor do jornalismo. Em outras palavras, é preciso ir em busca da conexão com o "cliente-leitor-espectador-internauta" e elevar seu nível de atenção para com as informações escolhidas e veiculadas. Um veículo jornalístico só consegue impor-se se produz um noticiário de alguma relevância para o seu público prioritário.

Mas voltando à velha questão, que inclusive, deu início à esta comunicação: o que faz um acontecimento (programado ou espontâneo; planejado ou imprevisto) ser importante e despertar interesse? Que atributos ele deve ter para merecer relevância jornalística? A resposta passa indubitavelmente pelo conceito de atualidade, que torna compreensível o jornalismo enquanto área de conhecimento. Outro fator, além dos já citados por Wolf, é a pressão exercida pelos organismos que funcionam como verdadeiras pautas externas. Qualquer pesquisa aplicada às redações hoje revelará que a esmagadora maioria dos conteúdos jornalísticos oferecidos à opinião são relatos ou análises de acontecimentos planejados e controlados por instituições ou pessoas que decidiram promovê-los, sabiam como fazê-lo e tinham competência e credibilidade para isso.

Um flagrante que demonstra que este é um fenômeno que ultrapassa nossas fronteiras é o artigo de Líriam Spnholz retirado da internet onde ela argumenta que mais da metade das notícias publicadas nos jornais americanos e alemães vêm de assessorias de imprensa ou foi "provocada" por estratégias de relações públicas. Segundo ela, desde o começo dos anos 90, nos Estados Unidos há mais assessores de relações públicas e de imprensa do que jornalistas empregados em redações. Estudos das fontes das notícias contribuiriam para mostrar o quanto a influência externa é forte. Uma pesquisa americana nos anos 70 já apontava para isso: mesmo em jornais como The New York Times ou The Washington Post, 60% do material das redações tinham origem em assessorias de imprensa. Segundo Líriam, estudos mais recentes como os de Günter Bentele, pesquisador e professor da Universidade de Lípsia, mostram um relacionamento de dependência recíproca entre jornalismo e assessorias de imprensa: o material enviado por elas torna possível o trabalho do jornalista, do qual depende o sucesso do trabalho do assessor.

O artigo aponta que um item importante a se analisar e a se observar é que há uma crescente pressão sobre o mercado jornalístico no que se refere à atualidade, à abrangência e ao alcance das mensagens. Como conseqüência, a necessidade de vender acabaria por sobrepor-se às regras jornalísticas e o conteúdo empobrecer-se-ia, com cada vez menos condições, pessoas e tempo para se produzir uma boa reportagem e para a investigação jornalística.

Como se vê a quantidade e a qualidade desses acontecimentos mobilizam, aqui e no exterior de tal forma as energias e os espaços do jornalismo que, segundo Chaparro, tornaram raras, na imprensa diária, as reportagens de desvendamento do atual, ou seja, o agora tal como está e é, no mundo presente das pessoas.

É sabido que as pautas jornalísticas sofrem substantiva interferência crescente dos produtores de acontecimentos, em cujas aptidões se inclui o domínio das habilidades jornalísticas. A divulgação eficaz é uma condição de sucesso para as decisões, ações, idéias, falas, produtos, serviços e saberes que, embora vinculados aos interesses particulares de quem os gera, têm relevância para a sociedade, pela influência transformadora ou explicativa que exercem sobre o mundo presente das pessoas.

De acordo com Jorge Pedro Sousa é preciso notar que ainda restam muitas estranhezas neste relacionamento com as fontes ativas e, apesar de muitas desconfianças que ainda restam com relação a certas fontes, ambos estes pólos são atualmente interdependentes, pois geralmente os jornalistas estão tão interessado nas fontes como as fontes nos jornalistas. Há muitos problemas que se levantam nas relações entre eles, pois elas podem atingir graus problemáticos de cumplicidade. Acrescente-se que as fontes nunca são iguais. Não são iguais em relevância social, não são iguais em poder de influência e não são iguais no volume de informação. Somente podem ser alinhadas no tocante à responsabilidade dos efeitos ao nível da construção social da realidade, fenômeno originado de sua relação com as redações.
Os jornalistas estão sempre interessados em fontes abertas, capazes de providenciar toda a informação crível de que eles necessitam todos os dias, para que o produto noticioso possa ser fabricado. Em contrapartida, as fontes estão interessadas em que os jornalistas usem tudo o que elas pretendem, ou seja, que toda a informação que disponibilizem passe pelos "portões" dos gatekeepers.

Os problemas de acesso às fontes podem levar os jornalistas a usar mais fontes organizacionais que as individuais, pois, geralmente, as organizações tem um horário de funcionamento mais ou menos coincidente com o expediente das redações, além de possuir um staff mais confiável.

Todo este quadro promoveu ou foi acompanhado de inovações, incluindo-se as inovações tecnológicas, nos processos de seleção, processamento, distribuição e mesmo consumo de notícias. Quase ao mesmo tempo novas mídias estabeleceram-se, como os computadores em rede, a televisão a cabo e satélite, os jornais eletrônicos e, agora, uma nova tendência parece desenhar-se com o aparecimento destes novos media: a interatividade. Dito isso, a questão crucial volta à tona. Um dos debates que atualmente mais vem agitando o mundo da comunicação social, acadêmico e em particular do jornalismo, consiste em saber até que ponto é o mercado ou são os jornalistas a ditar as leis e os critérios na produção e difusão de notícias.

1.3 As notícias e a internet

A propagação de informações, noticiosas ou não, têm se alterado profundamente neste último lustro, por conta do fenômeno da internet, que tem diminuído a importância da figura do jornalista como gestor privilegiado dos fluxos de informação no meio social. Por exemplo, quando o relatório sobre o caso Clinton-Lewinsky foi disponibilizado na internet, milhões de pessoas puderam acessar as informações diretamente. Os órgãos jornalísticos para esta multidão não funcionaram como gatekeepers. Com a previsível perda de influência dos mediadores culturais tradicionais, esta nova situação anuncia um salto sem precedentes na liberdade de expressão. Pois o que se está oferecendo é precisamente a mais ampla liberdade de expressão e de navegação, De fato, a diversidade informacional e a liberdade de expressão continuam a aumentar rapidamente apesar dos movimentos de fusão. O que está ocorrendo é que também os cidadãos têm maior capacidade de evitar o "crivo" jornalístico no que diz respeito a obtenção e à emissão de informações públicas.

Pela primeira vez há uma capacidade de comunicação maciça, não mediada pelos meios de comunicação de massa. A Internet está se convertendo no coração articulador dos distintos meios, da multimídia e se transformando no sistema operativo que permite interconectar e canalizar a informação sobre o que acontece, onde acontece, o que podemos ver e o que nos é invisível.

A Internet não é simplesmente tecnologia; acredito que ela seja o meio de comunicação que constitui a forma organizativa de nossas sociedades; ela seria o equivalente ao que foi a fábrica ou a grande corporação na era industrial. É o coração de um novo paradigma sociotécnico, que constitui na realidade a base material de nossas vidas e de nossas formas de relação, de trabalho e de comunicação.

O fato de ser uma comunicação horizontal, de cidadão a cidadão, significa que eu posso criar meu próprio sistema de comunicação na internet, posso dizer o que quiser, posso comunicá-lo a qualquer momento. Sousa frisa que o ciberespaço é um suporte cada vez mais usado para a comunicação, até porque é mais fácil comunicar-se on line do que fazer as pessoas deslocarem-se e já é possível do celular acessar a internet, enviar e-mails, obter informações em chats, navegar etc.

Tudo muito interessante e até divertido. Mas eis que um problema se apresenta: em que medida podemos acreditar naquilo que nos chega através da internet? Os temores a respeito da verdade das informações disponíveis na internet são legítimos. Eles concernem em particular aos documentos não assinados ou que podem ser atribuídos a uma instituição que ponha sua credibilidade em jogo nas informações que coloca à disposição do público. É preciso dizer, contudo, que a verdade resulta de um processo coletivo de busca e de produção que, quanto mais livre e múltipla é a palavra, mais eficaz é. Além do mais, uma ampliação da liberdade de expressão e de acesso à informação implicam necessariamente, com um aumento de riscos, uma transferência de responsabilidade para os indivíduos e os múltiplos atores sociais. Mais do que reforço da censura, esta nova responsabilidade pede uma educação ética e crítica renovada.

Ainda que seja um processo ainda com muitas incertezas, o fato é que os os cibercidadãos, de acordo com Lévy, estão aprendendo a expor suas idéias em seu websites e a prática do diálogo nas comunidades virtuais os está habituando à discussão, à deliberação pública. Sendo capazes de exprimir-se, eles esperam agora ser ouvidos. O emérito professor francês é positivo quando projeta que novas formas de governança deverão encontrar lugar para essa "nova raça de cidadãos", educados, informados, habituados a se exprimir, trabalhadores do intelecto e da comunicação na nova economia, para quem os homens políticos e os altos funcionários jamais serão mais do que outros trabalhadores intelectuais e relacionais como eles.

Se parece consenso que todos teremos um comprometimento inquestionável, inevitável e inalienável com o processo de geração das informações, que podem ser apropriadas pela mídia de massa e de pós-massa (internet), já cabem estas questões: quais as dimensões deste envolvimento? Que grau de complexidade atingirá? Como ele pode servir bem aos propósitos da sociedade e como ele pode alavancar carreiras profissionais? Talvez já se possa antever que, em um futuro bem próximo, todos os internautas possuirão seu site pessoal, a exemplo do que já acontece com os e-mails. Afinal orientações múltiplas e hospedagem gratuitas já são comuns na rede. Neste sentido, ainda de acordo com Lévy, será preciso preparar as pessoas do mercado de trabalho não apenas para exercitar o discernimento no momento em que consomem as informações que chegam pela mídia, mas também para saber relacionar-se com ela e extrair dividendos positivos deste processo.

Então, se as informações de interesse coletivo estão sendo processadas mais e mais fora das redações e as questões individuais tornam-se públicas com facilidade nunca vista, certamente porque está havendo domínio maior do que se poderia chamar de a "consciência do valor da informação".

É, portanto, oportuno que a sociedade internauta compreenda os verdadeiros fundamentos da importância social da informação, suas influências, seus desdobramentos, o que pode acarretar, a capacidade de ser original e capacidade de responder juridicamente por uma inverdade que tenha absorvida por alguém e que sofreu reveses pessoais ou profissionais.


2. Conclusões

Para finalizar, cito Max Weber que, ao meu ver sintetiza bem a questão da intencionalidade que precisa ser depositada no ato da projeção social ao indicar a profunda alteração no modo de colocação do indivíduo na sociedade. Diz Weber que já não são mais os laços de sangue ou os valores da tradição que determinarão a inserção no contexto público, mas trata-se agora de um problema que cada indivíduo tem diante de si, e que não pode ser resolvido sem levar em consideração a vontade racional de se inserir na coletividade. Dito de outro modo, os valores da tradição não garantem mais a colocação da pessoa no espaço coletivo, pois este ultrapassa o âmbito da simples comunidade. De estrutura muito mais complexa, a organização em forma de sociedade pressupõe o convívio de uma multiplicidade de comunidades que, por vezes, chegam a se recobrirem parcialmente e cuja forma é dada, em grande parte, pela divisão social do trabalho e pelos grupos de afinidades, mas que não se restringe a este único aspecto. Trata-se de um aglomerado de comunidades mais ou menos efêmeras, que refletem, na realidade, as múltiplas associações circunstanciais que o indivíduo estabelece ao longo de suas relações com grupos locais (trabalho, vizinhança, escola, círculo de amizades etc) no processo de formação de sua identidade. Desse modo, o indivíduo não tem seu vínculo coletivo, nem sua identidade assegurados de antemão pela tradição, mas deve construí-los através de seu engajamento espontâneo na diversidade das formas coletivas de agrupamento. O processo comunicativo deixa de ser analisado em sua generalidade, não sendo mais tratado como o fundamento da consciência humana (quer em sua forma coletiva ou individual); ele passa a ser investido como estratégia racional de inserção do indivíduo no meio social.

Produzir informações é cada vez mais espontâneo nesta nova sociedade mediada pelos diversos tipos de mídia. É claro que esta ampliação da liberdade de expressão e de acesso à informação implicam necessariamente, num aumento de riscos diante desta transferência de responsabilidade da geração e circulação de informações para os indivíduos e outros atores sociais além da mídia constituída.

O que se precisa agora é caminhar para o domínio da consciência de que é preciso grande dose de responsabilidade social ao tornar esta informação coletiva. É preciso que todos dominem a noção do que é notícia e saibam respeitar o fato tal qual ele é. É preciso, enfim, firmar-se nesta posição de agentes da informação (e da notícia). Afinal, trata-se de um processo que parece ser inevitável, cada vez mais cerebral e planificado, e que nos levará cada vez mais perto para a posição de geradores e gerentes da informação geral.


Referências bibliográficas

CASTELL, Manuel. Internet e sociedade em rede, in MORAES, Denis de (org.). Por uma outra comunicação - Mídia, mundialização cultural e poder. Rio de Janeiro: Editora Record, 2003.

CHAPARRO, Manuel Carlos. Jornalismo na Fonte in Jornalismo Brasileiro: no caminho das transformações. Rio de Janeiro: Banco do Brasil, 1996.

GALTUNG, Johan & RUGE, Mari Holmboe. A Estrutura do noticiário estrangeiro", in Traquina, Nelson (org.), Jornalismo: questões, teorias e estórias, Lisboa, Veja, 1993.

LÉVY, Pierre. Pela ciberdemocraia. in MORAES, Denis de (org.). Por uma outra comunicação - Mídia, mundialização cultural e poder. Editora Record. Rio de Janeiro, 2003.

MARTIN-BARBERO, Jesús. Globalização comunicacional e transformação cultural, in MORAES, Denis de (org.). Por uma outra comunicação - Mídia, mundialização cultural e poder. Editora Record, Rio de Janeiro, 2003. p. 66

SOUSA, Jorge Pedro. Teorias da Notícia e do Jornalismo. Chapecó: Editora
Argos, 2002

WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação. Lisboa: Editorial Presença, 1987.