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Artigo
A gestão da comunicação integrada
em instituições de ensino confessionais sem fins lucrativos
Ana Claudia Braun Endo
Jornalista, especialista em Marketing, mestranda em
Comunicação, Assessora de Comunicação e Marketing
da Universidade Metodista de São Paulo
Contexto e missão
A comunicação de uma organização
sem fins lucrativos deve ser planejada, tanto para facilitar sua gestão,
melhorar a produtividade do ambiente organizacional e conseguir transmitir
seus ideais, seu trabalho e valores de forma consistente, quanto para
evitar que sua imagem seja construída de forma negativa ou distorcida
(Drucker, 1994).
A razão básica de uma organização que não
visa lucro interessar-se pelos princípios formais de marketing
é que eles permitem que a organização se torne mais
eficaz na obtenção de seus objetivos. Dentre eles, pode-se
citar: aperfeiçoar a missão educacional de uma instituição,
a relação e satisfação entre seus públicos,
a eficiência de suas atividades e a atração de novos
recursos (Kotler, 1994).
Neste sentido, as instituições sem fins lucrativos - especialmente
as instituições de ensino confessionais, parecem levar certa
vantagem - na medida em que sua missão educacional volta-se ao
compromisso de transformar a pessoa e a sociedade pela educação,
formar cidadãos com valores ético-cristãos, com visão
crítica e capacidades reflexivas, enfim, a implementação
do Reino de Deus (Plano de Vida e Missão).
A missão e a visão são integrantes essenciais para
a definição da identidade. Mas entre a definição
da identidade e a sua assimilação cultural pelos públicos
diversos - corpo docente, corpo discente, corpo administrativo, órgãos
governamentais, imprensa, comunidade, ex-alunos, familiares de alunos,
dentre outros, aqui descritos apenas como internos e externos - existe
um longo caminho a ser percorrido.
Numa instituição de ensino, todos os públicos são
elementos responsáveis pela imagem junto aos públicos externos,
cabendo à comunicação institucional executar apenas
parte de todas as ações que influenciam essa percepção.
O ambiente físico, os professores, dirigentes, pesquisadores, funcionários
administrativos e até fornecedores terceirizados, que convivem
no ambiente interno da instituição, são alguns dos
difusores da imagem institucional. Cada momento de interação
com os diversos públicos de uma organização transmite
uma imagem, que pode ou não estar de acordo com a identidade pretendida,
sinalizando a eficiência de suas atividades e aumentando as possibilidades
de se obter novos recursos ou não.
O presente texto se propõe a abordar o modelo da Comunicação
Integrada, comumente adotado pelas grandes corporações com
fins lucrativos, como ferramenta estratégica a ser adotada também
em instituições sem fins lucrativos, especialmente nas instituições
de ensino confessionais. Acredita-se que, este modelo seja catalizador
para se propagar e se obter as melhores respostas para uma comunicação
institucional eficaz.
Espera-se que as informações aqui compartilhadas acerca
da Comunicação Integrada sejam orientadoras enquanto instrumento
estratégico de gestão, a fim de contribuir efetivamente
para que a missão educacional das instituições de
ensino confessionais torne-se conhecida perante seus públicos,
como vantagem competitiva.
A Assessoria de Comunicação
Antes de se discutir o tema central a que este artigo se propõe,
é preciso realizar uma abordagem geral sobre a presença
dos departamentos, áreas ou assessorias de Comunicação
presentes nas instituições de ensino confessionais.
Mais do que uma estrutura meramente operacional, os departamentos de Comunicação
precisam ser vistos como setores estratégicos. Ligados à
alta administração, para garantir não apenas a legitimidade
funcional como também para estar envolvida na discussão
dos processos estratégicos decisórios, os departamentos
de Comunicação ganham novo papel no cenário que se
apresenta.
As mudanças ocorridas no processo de gestão e na indústria
da comunicação, em todo o mundo, exigem um novo profissional
de comunicação para atuar nas empresas e sinalizam desafios
enormes para aqueles que se dispuserem a atuar como gestores nesta área
(BUENO, 2002).
Segundo o prof. dr. Gaudêncio Torquato (ECA/USP), o empresário
atilado precisa ter no comunicador mais do que um operador, mas um assessor
próximo, que tem contribuição decisiva na articulação
de seu discurso e na manutenção da coerência da identidade
organizacional. Na visão do autor, a comunicação
institucional precisa ser mais entendida e mais compreendida pelo próprio
corpo da organização.
"É preciso melhorar a posição do assessor de
comunicação institucional e dar-lhe a competência
estratégica que lhe permita alcançar uma posição
generalista e uma função mais elevada no organograma da
organização... Se a cultura empresarial não puder
dar a devida importância à comunicação, haverá
sempre um grande vácuo entre o profissional da área e o
dirigente da empresa. E este pode ser o caminho do desastre." (Torquato,
1997).
Mais do que uma atividade-meio, o setor de Comunicação teria
as funções de "prospectar cenários, montar diagnósticos,
planejar, coordenar e avaliar" (CURVELLO, 2002). Resumidamente, o
autor defende a idéia de que os assessores de comunicação
precisam assumir-se mais estratégicos e, entre outras coisas, como
educadores para a comunicação.
Comunicação integrada
O modelo da Comunicação Integrada tem sido estudado no Brasil
prioritariamente no campo da Comunicação Empresarial e das
Relações Públicas.
Em 1985, Torquato já afirmava que especialidades como o Jornalismo,
junto com as Relações Públicas e a Propaganda formavam
o tripé clássico capaz de organizar os fluxos irradiadores
de opinião em torno das organizações. Desta forma,
os profissionais dessas áreas estariam aptos a atuar de forma eficaz
e sinérgica, na medida em que disponibilizam o melhor de suas competências
funcionais para o desenvolvimento das ações da comunicação
organizacional.
Segundo a profa. dra. Margarida Kunsch (ECA/USP):
"Entende-se por comunicação integrada aquela em
que as diversas subáreas da Comunicação atuam de
forma sinérgica. Ela pressupõe uma junção
da comunicação institucional, da comunicação
mercadológica e da comunicação interna, que foram
o composto da comunicação organizacional. Este deve formar
um conjunto harmonioso, apesar das diferenças e das especificidades
de cada setor e dos respectivos subsetores. A soma de todas as atividades
redundará na eficácia da comunicação nas organizações."
(1997, p. 115).
Mais recentemente, no artigo intitulado "Repensando o papel da comunicação
na Universidade", publicado na versão online do Observatório
de Imprensa, a pesquisadora Margarida Kunsch agregou a comunicação
administrativa e a comunicação pública ciência
(aqui denominada comunicação científica) a este composto
de comunicação integrada.
A comunicação científica surge, na atualidade, como
importante ferramenta de relação e envolvimento com a sociedade.
Segundo a profa. Maria das Graças Targino, a comunicação
científica envolve atividades associadas à produção,
à disseminação e ao uso da informação,
"desde o momento em que o cientista concebe uma idéia para
pesquisar até a aceitação dos resultados como constituinte
do estoque universal de conhecimentos."
Neste sentido, a comunicação científica tem encontrado
no campo do Jornalismo um importante meio de relacionar-se com a comunidade,
na medida em que atuam de forma complementar.
Ainda segundo Kunsch:
"A comunicação integrada permite que se estabeleça
uma política global, em função de uma coerência
maior entre os programas, de uma linguagem comum e de um comportamento
homogêneo, além de se evitarem as sobreposições
de tarefas."
Assim, permite-se que os diversos setores trabalhem de forma conjunta
a missão organizacional, respeitando-se suas especificidades, de
forma a garantir a eficácia da comunicação organizacional.
Neste sentido, o modelo proposto de comunicação integrada
procura desenvolver as especialidades integrantes da Comunicação,
aqui vistas como ferramentas - a saber, Jornalismo, Relações
Públicas, Publicidade e Propaganda, Marketing (incluindo a Pesquisa
de Marketing), Internet, a priori - de forma a explorar suas potencialidades
de forma isolada, mas também articulada e integrada, na filosofia
de ação das estratégicas comunicacionais.
Segundo Philip Kotler, a comunicação integrada deve:
"Reconhecer o valor agregado de um plano abrangente, avaliar os
papéis estratégicos de uma variedade de disciplinas de comunicações
e combinar essas disciplinas para fornecer clareza, consistência
e impacto máximo de comunicação por meio da integração
de mensagens discretas".
Sob esse conceito, a organização integra e coordena cuidadosamente
seus vários canais de comunicação, a fim de enviar
uma mensagem clara, coerente e poderosa sobre a organização
e seus produtos (KOTLER, 1998)
Para Bueno, a perspectiva adequada seria a de encarar a comunicação
como fundamental e assumir o conceito moderno de comunicação
integrada, gerida a partir de uma política global de comunicação.
Sua conceituação:
"A comunicação integrada consiste no conjunto articulado
de esforços, ações, estratégias e produtos
de comunicação, planejados e desenvolvidos por uma empresa
ou entidade, com o objetivo de agregar valor à sua marca ou de
consolidar a sua imagem junto a públicos específicos ou
à sociedade como um todo."
O autor, ressalta, ainda que a comunicação de uma empresa
ou entidade não pode ser o resultado de esforços individuais,
ainda que bem intencionados, porque a imagem da organização
deve ser uma, qualquer que seja o público com que ela se relaciona.
Além de dominar o conceito sobre o novo produto e seus concorrentes,
o comunicador deve traçar um planejamento estratégico, equilibrando
seu orçamento nas diferentes formas de comunicação,
para identificar melhor seus públicos-alvo, traçar os objetivos
de comunicação, desenvolver as mensagens, selecionar os
canais de divulgação e promoção, decidir sobre
o composto promocional, mensurar os resultados e administrar o processo
de marketing integrado. Desta forma, ainda na visão de Kotler,
as ações indicadas no planejamento estratégico empresarial
estariam harmonizadas, a fim de se alcançar os objetivos pretendidos.
Embora se note a diferenciação de terminologia empregada
pelos diferentes teóricos, em diferentes tempos, está clara
a conceituação da comunicação integrada como
a conjunção harmônica das várias disciplinas
da comunicação e do marketing.
"É preciso entender que imagem com notoriedade e credibilidade
se constrói com um bom projeto, mas também com um grande
esforço de comunicação. Os passos para se chegar
a esse ponto são simples e as ferramentas são conhecidas
por quem trabalha na área de marketing: assessoria de imprensa,
publicidade e propaganda, relações públicas, enfim,
planejamento estratégico de comunicação integrada."
(Cecília Beltrão, coordenadora de Comunicação
e Informação da Academia de Desenvolvimento Social)
Nesse contexto, pode-se destacar a publicação de jornais
e revistas periódicos, boletins eletrônicos e sites institucionais,
o trabalho de agência de notícias para os veículos
internos e externos (dentre as demais ações de Assessoria
de Imprensa), as campanhas publicitárias institucionais e de serviços
específicos. Outra frente de atuação diz respeito
à promoção e organização de eventos,
realização e análise de pesquisas de imagem, só
para citar as principais tarefas a serem desenvolvidas, mas que devem
ter como política a unicidade na linguagem e execução
do projeto, para garantir o impacto e a sinergia pretendidos.
Na visão de Kotler, "as comunicações de marketing
integradas são mais consistentes e produzem maior impacto sobre
as vendas."
É fato indiscutível a importância da informação
nas organizações, com fundamento para a gestão estratégica,
cumprimento de seus objetivos e viabilização de sua missão
institucional. "Ela tornou-se poderoso recurso das organizações...
As empresas têm, no fluxo informacional, o elo que une e coordena
seus componentes, o que propicia a manutenção do equilíbrio
e da integração em um ambiente em crescente mutação",
destacam os professores Carlos Alberto Gonçalves e Cid Gonçalves
Filho.
Na visão do presidente do Citibank no Brasil, o jornalista Alcides
de Souza Amaral, a comunicação é uma área
estratégica de resultados. Em entrevista dada à Revista
Aberje, Amaral declarou o empenho da empresa "na utilização
de todas as ferramentas disponíveis, de forma integrada, sejam
elas voltadas ao público interno ou externo", de forma a permitir
que a imagem institucional, segundo ele o "verdadeiro sustentáculo
dos negócios do Citibank", seja a melhor possível perante
todos os nossos públicos. "Não tenho dúvida
em afirmar que a boa comunicação que fazemos tem sido fundamental
para que alcancemos bons resultados", enfatizou.
Conclusão
Quer seja pelas teorias ou pela comprovação prática
deste pressuposto - e, ainda, mais do que discurso - é fato que
a comunicação integrada tem se apresentado como política
eficaz e eficiente para a gestão da comunicação,
uma área cada vez mais valorizada nas organizações
por suas ações estratégicas. Capacitar, formar profissionais
para quem tenham uma visão interdisciplinar das especialidades
da comunicação para o desenvolvimento da Comunicação
Integrada é um fato imprescindível.
Ao atuar de forma sinérgica, a Comunicação permite
ampliar os resultados e garantir uma comunicação eficiente
com seus públicos, ao mesmo tempo em que ganha inserção
no âmbito administrativo estratégico das organizações
e otimiza os recursos orçamentários.
A comunicação integrada deverá concentrar seu foco
no principal negócio da organização. Perder este
sentido, segundo Curvello, significa apenas "reger-se pela hipótese
da comunicação integrada, quando muitas empresas e organizações
têm obtido pouca eficácia na construção de
sentido em seus esforços de comunicação."
Torna-se prioritário que as instituições de ensino
confessionais incluam estratégias e ferramentas de comunicação
integrada nos seus processos administrativos e acadêmicos, de forma
articulada e profissional, como metodologia para destacar sua essência
- ensino, pesquisa e extensão - e reforço para uma identidade
própria diferenciada.
Segundo o prof. dr. Wilson Bueno da Costa, uma autêntica cultura
de comunicação se define exatamente por uma prática
que extrapola a mera sobreposição de atividades isoladas.
Ela está legitimada pela consciência, comum a todos os níveis
da organização, de que é necessário manter
relacionamentos saudáveis e produtivos e de que a tarefa de comunicar
não é exclusiva das estruturas profissionalizadas de comunicação.
Segundo o prof. dr. Wilson Bueno da Costa, em uma organização
que prima por uma autêntica cultura de comunicação,
todos os seus integrantes se sentem envolvidos com ela e almejam, apesar
das diferenças ou mesmo das oposições, o desenvolvimento
pessoal ou institucional.
"Nas organizações modernas, a comunicação
permeia todos os níveis e é um compromisso compartilhado
por todos."
A comunicação, articulada de forma integrada, aparece então
como base estratégica de atuação para alcançar
a comunicação excelente. Nas palavras de Richard Lindbord:
"A comunicação excelente é aquela administrada
estrategicamente, que alcança seus objetivos e equilibra as necessidades
da organização com a dos principais públicos".
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