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Artigo
As organizações criminosas na Comunicação
Organizacional
Wilson Corrêa da Fonseca Júnior
Jornalista da Embrapa em Brasília, professor
do Uniceub e doutorando em Comunicação Social pela Universidade
Metodista de São Paulo.
Resumo
Este trabalho possui como principal objetivo discutir a pertinência
da inclusão das organizações criminosas como objeto
de interesse para a Comunicação Organizacional. Ao final
dessa discussão, o autor propõe uma forma de conceber a
Comunicação Organizacional enquanto área do conhecimento.
Palavras-chave: comunicação
organizacional; organizações criminosas; filosofia
Deveria a Comunicação Organizacional se interessar por organizações
como o Primeiro Comando da Capital - PCC e a rede Al Qaeda? Certamente,
sim. Em primeiro lugar, porque o estranhamento provocado pelo desvio da
atenção (ainda muito concentrada nas empresas) para as organizações
criminosas pode ser bastante salutar para o desenvolvimento da Comunicação
Organizacional enquanto área do conhecimento. Em segundo lugar,
porque as organizações criminosas, mesmo às avessas,
já fazem parte dos ambientes geral ou operacional daquelas consideradas
não-criminosas - até mesmo das que produzem, investem ou
se associam a bebidas alcoólicas, cigarro ou armas - não
sendo possível ignorá-las. Em terceiro lugar, porque o interesse
pela comunicação das organizações criminosas
suscita questionamentos de ordem ética, auxiliando na compreensão
do fenômeno e da prática comunicacionais em outras modalidades
de organizações, tais como os partidos políticos,
os governos, as prisões, os sindicatos e associações
profissionais, as organizações não-governamentais
ou as próprias empresas. Se o mal existe na sociedade, precisamos
descobrir o que existe desse mal em nós.
Esses três lugares da Comunicação Organizacional encontram-se
há muito tempo aninhados sob as asas da Filosofia e são
conhecidos respectivamente como epistemologia, ontologia e ética.
Por meio da epistemologia, procuramos compreender como se forma o conhecimento,
o que podemos conhecer e como conhecemos. A adoção das organizações
criminosas como objeto de conhecimento possui implicações
epistemológicas porque nos leva a pensar sobre o que entendemos
por Comunicação Organizacional e até onde seríamos
capazes de nos dedicar a essa área do conhecimento. Por meio da
ontologia, questionamos sobre a real existência das coisas como,
por exemplo, até que ponto a sociedade existe como um ser independente
das pessoas que dela participam; ou até que ponto o ambiente organizacional,
do qual participam as organizações criminosas, existe realmente
ou não passa de uma concepção mental. No caso da
ética, seu principal objetivo é refletir sobre problemas
fundamentais como o sentido da vida humana, a natureza do bem e do mal
ou o valor da consciência moral. Provavelmente, as reações
iniciais quanto a adoção das organizações
criminosas pela Comunicação Organizacional sejam motivadas
pela ética, ao se considerar inconcebível a prestação
de relevantes serviços a essas organizações. O problema
é que, apesar da pertinência ética, adotá-la
como primeira preocupação da Comunicação Organizacional
configura-se num grande equívoco. Trata-se de uma idéia
fora de lugar quando relacionada aos outros dois ramos da filosofia.
Embora distintas, a epistemologia, a ontologia e a ética encontram-se
estreitamente relacionadas. De forma geral, os filósofos privilegiam
uma dessas áreas, a qual subordinam as demais. É o caso
de Platão, cuja ontologia comanda a epistemologia e a ética.
Isso porque ele acreditava na existência de um mundo ideal, superior,
a partir do qual o nosso mundo era uma pálida manifestação.
Diante dessa visão, não fazia muito sentido dedicar-se ao
conhecimento dos fenômenos naturais de um mundo imperfeito, mas
alcançar o mundo superior por meio do raciocínio abstrato.
No caso da Comunicação Organizacional, a indignação
ética quanto a adoção das organizações
criminosas está subordinada a um equívoco epistemológico:
a redução de uma área do conhecimento à sua
concepção instrumental. Eis aí um problema de origem
pois, segundo Linda Putnam (2002:33-56), os estudos de Comunicação
Organizacional surgem com a finalidade de contribuir para a efetividade
das organizações. Essa concepção dominou o
campo profissional durante décadas até os anos de 1980,
quando a área passou a ser criticada pela ausência de marcos
teóricos e por não refletir a realidade organizacional em
seus estudos tradicionais. A partir dessa crítica, algumas perspectivas
emergentes passaram a se constituir em alternativas para o redimensionamento
da conexão entre instrumentalidade, comunicação e
organização.
A ampliação do foco das organizações empresariais
para as organizações criminosas não garante necessariamente
a descentralização da instrumentalidade como elemento essencial
da relação comunicação-organização.
Aliás, nem a opção pelas organizações
criminosas se configura inovadora no sentido de levar a Comunicação
Organizacional para além do âmbito empresarial, sendo possível
encontrar na literatura várias indicações sobre estudos
de comunicação relacionados a outras modalidades de organização.
(BORDENAVE & CARVALHO, 1979; BELTRÃO, 1980; PERUZZO, 1986;
PERUZZO, 1998; DOWNING, 2002). De forma geral, boa parte desses estudos
adotam a perspectiva comunicacional no contexto dos movimentos sociais
ou populares, seja como forma de promoção da justiça
social e da solidariedade, de construção da cidadania ou
mesmo de rebeldia contra as instituições estabelecidas.
Entretanto, como observa Downing (2002: 34-35), a vasta literatura sobre
cultura popular padece de um dualismo simplista, como de oposição
"politicamente saudável" à cultura de massa, sendo
que "a cultura popular pode ser perfeitamente elitista, racista,
misógina, homofóbica e nutrir preconceitos relativos à
idade e, ainda assim, expressar esses valores de formas inventivas e superficialmente
atraentes". É o caso, por exemplo, da representação
negativa das mulheres nas canções folclóricas ou
da atuação dos grupos de rock racistas.
Definindo as organizações criminosas
Se o racismo, o elitismo e a homofobia não são privilégio
das classes hegemônicas, a criminalidade também não
é monopólio das classes desfavorecidas. O projeto de lei
3731/97, aprovado em junho de 2003 na Câmara dos Deputados e encaminhado
ao Senado Federal, define como organização criminosa a "associação
de três ou mais pessoas, por meio de entidade jurídica ou
não, estruturada de forma estável, visando a obter, direta
ou indiretamente, vantagem de qualquer natureza", tais como o tráfico
ilícito de substâncias entorpecentes, o terrorismo e seu
financiamento, o contrabando de armas, os crimes contra a administração
pública, o sistema financeiro nacional, o meio ambiente e o patrimônio
cultural, a exploração de jogos de azar, o tráfico
de mulheres, crianças e órgãos humanos.
Enquanto as organizações criminosas são definidas
em projeto de lei (pelo menos no Brasil), o mesmo não ocorre com
uma de suas principais manifestações - o crime organizado
- para a qual ainda não existe consenso internacional. Apesar disso,
Oliveira, (2004), com base na revisão de literatura e no acesso
a órgãos de pesquisa e organizações policiais,
considera entre as principais características dessas organizações:
a) a existência de estreita relação com as instituições
estatais, na medida em que o crime organizado necessita de apoio no âmbito
institucional, tornando-se uma película cinzenta do Estado; b)
interação com a engrenagem do sistema capitalista, particularmente
do mercado financeiro, como forma de lavagem de dinheiro; c) a existência
de divisão de funções e obediência ao princípio
de hierarquia.
A essas características gerais Oliveira acrescenta a ressalva de
que determinadas organizações possuem maior poder de influência
que outras no âmbito institucional (relações com o
Estado) e econômico (relações com o mercado). Além
disso, as organizações criminosas acabam se tornando, com
o auxílio da imprensa, uma espécie de marca ou grife e,
mesmo depois de extintas, seu nome continua sendo utilizado por todo grupo
de indivíduos que deseja ter sucesso. Este seria o caso do Comando
Vermelho, que teve seu período de pujança na década
de 1980 e início de 1990. Atualmente, segundo Oliveira, o que existe
no Rio de Janeiro são organizações criminosas, com
amplitudes de poderes diferenciados, que atuam nos asfaltos e morros cariocas.
Considerando a definição e as características das
organizações criminosas, não parece absurdo que o
temor diante da promiscuidade entre a Comunicação Organizacional
e as organizações criminosas há muito tempo esteja
confirmado. Quantos profissionais de comunicação já
se envolveram ou estariam envolvidos, no âmbito do Estado, das empresas
ou do terceiro setor com organizações criminosas? Quantas
campanhas de comunicação já foram feitas com o objetivo
de melhorar a imagem de organizações que destróem
o meio ambiente ou o patrimônio cultural? Quantos assessores de
imprensa já estiveram ou estariam a serviço de políticos
corruptos e empresários desonestos? Se a principal objeção
quanto à inclusão das organizações criminosas
é de ordem ética, mais do que nunca compreender essas organizações
se faz premente .
Discussão final e conclusão
Enquanto o interesse pelas organizações criminosas, sob
o aspecto ético, está associado à práticas
nada confiáveis, no âmbito da epistemologia e da ontologia
esse interesse pode representar a oxigenação da Comunicação
Organizacional. Sob o aspecto epistemológico, as organizações
criminosas nos obrigam, por exemplo, a rever o que entendemos por cultura
organizacional e por imagem corporativa, a refletir sobre a natureza das
Relações Públicas e a pensar a Comunicação
Organizacional muito além de sua concepção instrumental.
Sob o aspecto ontológico, a presença das organizações
criminosas nos coloca frente a existência da comunicação
enquanto fenômeno inerente a qualquer forma de organização.
Como pode ser verificado, a ontologia, a epistemologia e a ética
encontram-se estreitamente associadas no âmbito da Comunicação
Organizacional. O grande problema é que, a exemplo da constatação
de Simões (2001) sobre as Relações Públicas,
também se verifica, na Comunicação Organizacional,
a produção de documentos que mais confundem do que esclarecem,
ao misturarem as esferas da epistemologia, da teoria, da prática,
do mercado de trabalho, dos aspectos legais, da ética e da política.
Diante desse quadro, considerando a relação entre os ramos
da filosofia, o que se propõe é que Comunicação
Organizacional obedeça à seguinte hierarquia: 1) Ontologia:
enquanto área do conhecimento a Comunicação Organizacional
não pode ignorar a existência do fenômeno comunicacional
em quaisquer formas de organização, inclusive as organizações
criminosas; 2) Epistemologia: enquanto área do conhecimento, a
Comunicação Organizacional deve se preocupar tanto com a
compreensão dos fenômenos comunicacionais, como em sua intervenção;
3) Ética: enquanto área do conhecimento, a Comunicação
Organizacional deve levar em conta os vários aspectos éticos
inerentes à compreensão dos fenômenos comunicacionais
e à sua intervenção. Talvez essa distinção
e hierarquização contribuam para que os pesquisadores e
profissionais da Comunicação Organizacional possam - quem
sabe um dia - falar a mesma língua.
Referências bibliográficas
BELTRÃO, Luís. Folkcomunicação:
a comunicação dos marginalizados. São Paulo:
Cortez, 1980.
BORDENAVE, Juan Diaz; CARVALHO, Horácio Martins. Comunicação
e planejamento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
DOWNING, John D. H. Mídia radical: rebeldia
nas comunicações e movimentos sociais. São
Paulo: Editora SENAC, 2002.
OLIVEIRA, Adriano. Crime organizado: é possível
definir? Disponível em: <http://www.espacoacademico.com.br/034/34coliveira.htm
>. Acesso em 19 abr. 2004.
PERUZZO, Cicilia Krohling. Comunicação
nos movimentos populares: a participação na construção
da cidadania. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.
PERUZZO, Cicilia Krohling. Relações públicas
no modo de produção capitalista. São Paulo:
Summus, 1986.
PUTNAM, Linda L. II - El cambio en las metáforas
de la comunicación organizacional. In:
PUTNAM, Linda l.; COSTA, Joan; GARRIDO, Francisco J. Comunicación
empresarial. Barcelona: Gestion 2000, 2002, p.33-56.
SIMÕES, Roberto Porto. Relações
públicas e micropolítica. São Paulo: Summus,
2001.
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