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Problemas epistemológicos em Comunicação Organizacional
Wilson Corrêa da Fonseca Júnior
Jornalista da Embrapa em Brasília, professor do Uniceub e doutorando em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo.

Resumo

O principal objetivo deste trabalho é analisar vários problemas de ordem epistemológica referentes a área de Comunicação Organizacional, à luz dos pensamentos de Gaston Bachelard e Thomas Kuhn, em particular de seus conceitos de obstáculo epistemológico e de paradigma, respectivamente. A partir da contribuição de Kuhn, procura-se inserir a Comunicação Organizacional em seu contexto histórico e social. Com Bachelard, a Comunicação Organizacional é analisada sob a perspectiva de três obstáculos: o problema da opinião, o declínio do conhecimento científico e a busca de unidade pela ciência. A partir dessa análise, conclui-se que o problema da busca de unidade pela ciência é o mais instigante para a área de Comunicação Organizacional, capaz de levá-la a um verdadeiro salto qualitativo, principalmente porque o estudo sobre a relação entre comunicação e organização ainda não foi totalmente desenvolvido.

Introdução

Este trabalho possui como principal objetivo analisar vários problemas de ordem epistemológica referentes a área de Comunicação Organizacional, à luz dos pensamentos de Gaston Bachelard e Thomas Kuhn, em particular de seus conceitos de obstáculo epistemológico e de paradigma, respectivamente. Para isso estão sendo utilizadas não somente as obras basilares desses autores, mas também alguns trabalhos realizados a seu respeito. Sobre Thomas Kuhn destacam-se os textos A natureza do paradigma, de Masterman (1970), que realiza um estudo com o propósito de elucidar a sua concepção de paradigma, e Revoluções Científicas, de Epstein (1988), que se preocupa com o pensamento de Kuhn num contexto muito mais amplo, como o do movimento pela ciência unificada e os contextos da justificação e da descoberta. Mais que isso, Epstein também discute a obra de Kuhn considerando vários autores, inclusive Bachelard. Além de Epstein, Bachelard é analisado sob a perspectiva de Pessanha (1984) e de Lechte (2002).

A primeira observação a ser feita sobre este empreendimento é que os exemplos utilizados por Bachelard e por Kuhn no desenvolvimento de seus pensamentos são basicamente oriundos das ciências físicas. Entretanto, na medida em que suas obras são reflexões a respeito da ciência, suas abordagens bebem da fonte das ciências humanas, com ênfase na psicanálise e na sociologia, respectivamente. No caso de Bachelard, sua epistemologia é avaliada por Lechte (2002) de forma positiva, por reunir ciência e filosofia de uma maneira raramente vista antes: "as ciências humanas e naturais de fato encontram nele seu intermediário" (Lechte, 2002:16). Além disso, acredita-se que muitas das idéias e posturas epistemológicas de ambos os autores, podem ser utilizadas numa análise mais refinada sobre os problemas da Comunicação Organizacional. Essa análise, porém, não pode ser desvinculada das grandes questões do campo da Comunicação, ao qual a área de Comunicação Organizacional está vinculada.

Gaston Bachelard e Thomas Kuhn

Nascido na França rural em 1884, na localidade de Bar-sur-Aube, Champagne, Gaston Bachelard é considerado epistemólogo, filósofo da ciência e teórico da imaginação. Ao analisar a vida e a obra de Bachelard, Pessanha (1984), afirma que a vida desse epistemólogo parece marcada pela descontinuidade, da qual ele se tornou um dos teóricos do pensamento filosófico contemporâneo: estudou matemática pretendendo formar-se engenheiro, mas a guerra de 1914/18 cortou-lhe o projeto. Inicia então carreira no magistério secundário, ensinando química e física em sua cidade natal. Aos 35 anos, outro corte em sua vida: começa novos estudos, agora em filosofia, que também passa a lecionar.

Em 1938, Bachelard publica uma de suas obras mais importantes, A formação do espírito científico, na qual aborda os mais diversos "obstáculos epistemológicos" que devem ser superados para que se estabeleça e se desenvolva uma mentalidade verdadeiramente científica. Entre os vários problemas relacionados ao campo científico estão: 1) o problema da opinião - "A ciência, tanto por necessidade de coroamento como por princípio, opõe-se absolutamente à opinião (...). A opinião pensa mal; não pensa: traduz necessidades em conhecimentos. Ao designar os objetos pela sua utilidade, ela impede de conhecê-los" (Bachelard, 1996:18, grifos do autor); 2) O problema do declínio do conhecimento científico: "Hábitos intelectuais que foram úteis e sadios podem, com o tempo, entravar a pesquisa (...). Chega o momento em que o espírito prefere o que confirma seu saber àquilo que o contradiz, em que gosta mais de respostas do que de perguntas." (Bachelard, 1996:19); 3. O problema da unidade da ciência: "Costuma-se dizer que a ciência é ávida de unidade, que tende a considerar fenômenos de aspectos diversos como idênticos, que busca simplicidade e economia nos princípios e nos métodos (...). Ao inverso, o progresso científico efetua suas etapas mais marcantes quando abandona os fatores filosóficos de unificação fácil" (Bachelard, 1996:20).

Além dos "obstáculos epistemológicos", outro aspecto importante do pensamento de Bachelard é sua concepção bastante peculiar do método dialético, que encontra-se distante do sentido marxista-hegeliano. Segundo Leche (1988) esse método pressupõe a defesa inabalável da relação dialética entre o racionalismo e o realismo (ou empirismo). O racionalismo - que inclui filosofia e teoria - é o campo da interpretação e da razão; o realismo, por outro lado, fornece ao racionalismo o material para suas interpretações. Permanecer simplesmente num nível intuitivo - o nível experimental - é condenar a compreensão científica à estagnação, pois ela não consegue tomar consciência do que está fazendo. Da mesma forma, se alguém exagera a importância do aspecto racionalista, pode resultar em um idealismo igualmente estéril. "Para Bachelard, portanto, ser científico é não privilegiar nem o pensamento, nem a realidade, mas reconhecer o elo inextrincável entre eles" (Lechte, 2002:15).

Thomas Samuel Kuhn nasceu em 1922 em Cincinatti, nos Estados Unidos, mudando-se ainda na infância para Manhattan e, depois, para Croton-on-Hudson, pequena cidade próxima a Nova York. Segundo levantamento feito por Mendonça & Videira (2002), Kuhn ingressou, em 1940, na Universidade de Harvard para estudar Física mas, devido à Segunda Guerra Mundial, seus estudos duraram apenas três anos em vez dos quatro habituais. Durante a guerra, serviu nos Estados Unidos e em Londres, trabalhando com grupos ligados a radares e construção de bombas. Doutorou-se em física em 1949 pela Universidade de Harvard, mas nesse período consolidou sua saída da Física, passando a se dedicar à história da ciência e à filosofia da ciência.

Com a publicação do ensaio A estrutura das revoluções científicas, em 1962, Thomas Kuhn conseguiu transformar radicalmente o cenário mundial em filosofia da ciência e história da ciência. A principal razão disso é que, até aquele momento, as correntes predominantes no mundo anglo-saxão da filosofia da ciência eram o positivismo lógico, do Círculo de Viena (1920-1950) e o racionalismo crítico do filósofo austríaco Karl Popper, que atribuíam ao triunfo da ciência a existência de um método científico universal, não-histórico. Thomas Kuhn, entretanto, considerou a história um recurso imprescindível na reconstituição da ciência e afirmou que seu triunfo devia-se ao fato dela ser conduzida à luz de um paradigma, ou seja, de um arcabouço intelectual através do qual o mundo é visto e no qual ele é descrito, bem como de um conjunto de técnicas experimentais e teóricas para fazer corresponder o paradigma à natureza. É o paradigma que determina a cientificidade de uma área específica de investigação num determinado momento histórico. (Chalmers, 1993, Mendonça & Videira, 2000).

Ao contrário da perspectiva psicanalítica de Bachelard, Thomas Kuhn desenvolverá sua obra privilegiando a linha sociológica. Entretanto, seu pensamento é bem mais complexo, não podendo ser reduzido a essa perspectiva. Ao analisar A estrutura das revoluções científicas, com ênfase no aspecto científico, Masterman (1970) encontrou 21 sentidos diferentes utilizados por Kuhn para a palavra paradigma. Em seguida, num exercício de síntese, a autora conseguiu classificar essa diversidade em três grupos principais: 1) Paradigmas metafísicos ou metaparadigmas, quando Thomas Kuhn equipara o paradigma a um conjunto de crenças, a um mito, a uma especulação metafísica bem sucedida, a um modelo, a um novo modo de ver, a um princípio organizador que governa a própria percepção, a um mapa e a alguma coisa que determina uma grande área da realidade; 2) Paradigmas sociológicos, empregado no sentido de uma realização científica universalmente reconhecida, como realização científica concreta, como conjunto de instituições políticas e também como decisão judicial aceita; 3) Paradigmas de artefato ou paradigmas de construção, quando empregado de modo mais concreto, como verdadeiro manual ou obra clássica, como fornecedor de instrumentos, como instrumentação real; lingüisticamente como paradigma gramatical, ilustrativamente, como analogia; e psicologicamente, como figura de gestalt e como um baralho de cartas anômalo. (Masterman, 1970: 79-80) (1).

Embora as obras de Bachelard e Kuhn possuam suas peculiaridades, Epstein (1988:9) acredita que as expressões cortes epistemológicos (oriunda de Althusser, a partir da idéia de descontinuidade de Bachelard) e revoluções científicas (oriunda de Kuhn), tratam da mesma questão: a das mudanças descontínuas no campo do saber científico. Para Epstein,

"Bachelard apenas reconhece o pensamento verdadeiramente científico na ruptura, na descontinuidade. A ciência é, para ele, sempre (na terminologia de Kuhn) a ciência extraordinária, jamais a ciência normal. A descontinuidade é, portanto, o centro das reflexões suas, que concerne à epistemologia.. Levada ao limite, a descontinuidade do saber científico toma o aspecto de uma conversão da mente em suas tentativas de apreender a realidade" (Epstein, 1988:23).

As obras de Gaston Bachelard e de Thomas Kuhn, pela sua relevância, poderiam continuar merecendo uma série de considerações, não fosse o objetivo final deste estudo, que é analisar a área de Comunicação Organizacional sob o aspecto epistemológico. Até este momento, foi possível perceber que o trabalho de ambos possuem, como foco principal, o problema das mudanças descontínuas ou das rupturas, no campo do saber científico, seja sob o aspecto psíquico, no caso de Bachelard, seja sob o aspecto sociológico ou psico-social no caso de Kuhn. Em razão disso, a perspectiva temporal dessas rupturas também é diferente para ambos. Ao valorizar o psíquico, Gaston Bachelard acredita que o tempo só tem uma realidade, a do instante, presente no próprio ato de conhecer, exigindo a constante superação dos obstáculos epistemológicos que se manifestam na relação dialética entre o pensamento e a realidade. Ao valorizar as perspectivas sociológica e psico-social, Thomas Kuhn recorre ao tempo histórico para dele extrair uma estrutura capaz de revelar tanto o processo, quanto o momento da ruptura. De qualquer forma, ambas as abordagens, como poderá ser verificado a seguir, são bastante relevantes na investigação dos problemas epistemológicos da Comunicação Organizacional.

A eterna crise do campo da Comunicação

Discutir a comunicação como campo científico, levando em consideração as perspectivas de Bachelard e Kuhn, é um esforço que vem ocorrendo nas últimas décadas, não somente no Brasil, mas também internacionalmente. No Brasil, é possível citar o trabalho de Vassalo de Lopes (1990), que desenvolveu ao mesmo tempo um estudo histórico e uma proposta metodológica para a investigação científica em Comunicação, adotando a premissa da relação dinâmica entre o estado do conhecimento de uma ciência e seu contexto social. Mais recentemente, Marques de Melo (2001:94) recorreu a Kuhn para afirmar que o campo comunicacional assume a fisionomia típica de uma ciência em crise. Em nível internacional, questões sobre a definição e delimitação do campo da comunicação vêm sendo debatidas desde 1983, com a publicação de um número temático da revista norte-americana Journal of Communication, "The ferment of de field". Essa mesma revista retomou o assunto dez anos depois com a publicação de outro número, "The future of the field" (2).

Outra perspectiva interessante sobre o campo comunicacional deve-se a Rogers (1999), em seu artigo "Anatomy of the two subdisciplines of Communication Study". Nesse trabalho ele discute a grande lacuna intelectual existente entre os estudos de Comunicação Interpessoal e os de Comunicação de Massa, a partir de três evidências empíricas: a) o baixo grau em que ocorrem citações cruzadas entre revistas científicas de comunicação massiva e interpessoal; b) a especialização ao longo dessas duas subdisciplinas por associações profissionais de especialistas de comunicação e c) a separação organizacional de muitos programas de doutorado nas universidades dos EUA dentro da comunicação massiva ou da comunicação interpessoal. Para Rogers, esse "etnocentrismo disciplinar" possui três conseqüências disfuncionais: 1) a falta de integração da teoria da comunicação; 2) a compreensão limitada da comunicação humana sob a ótica de apenas uma das duas disciplinas e 3) a inadequação do estudo das tecnologias de comunicação interativas, como a internet e a World Wide Web, que não podem ser classificadas nem como comunicação de massa, nem como comunicação interpessoal. Para amenizar esses problemas, Rogers sugere, entre várias medidas, a combinação de programas de doutorado nas universidades que possuem os dois programas, a junção das três maiores associações de comunicação americanas (International Communication Association - ICA, National Communication Association - NCA e Association for Education in Journalism and Mass Communication - AEJMC) em uma associação forte e a concessão de prêmios para pesquisas, artigos e outras atividades acadêmicas que diminuam as fronteiras subdisciplinares do estudo da comunicação.

Além da falta de integração entre as subdisciplinas de Comunicação Interpessoal e Comunicação de Massa, verifica-se ainda a falta de interação entre o meio acadêmico e as demandas do sistema midiático na constituição das ciências da comunicação. Esse problema já havia sido alertado por Newcomb, cujo pensamento foi resgatado por Marques de Melo (2001). O ponto de partida de Marques é a premissa de que qualquer campo do conhecimento humano surge como conseqüência de demandas coletivas. Com base nessa premissa, Melo faz uma retrospectiva sobre a consolidação da Comunicação como um novo campo do saber e o insere no bloco das ciências aplicadas.

Tendo por base as referências citadas anteriormente, é possível fazer as seguintes considerações sobre os problemas epistemológicos das ciências da Comunicação:

1) A constituição do campo das ciências da comunicação é condicionado pela relação entre: a) o saber acumulado pela sociedade, incluindo as corporações profissionais; b) a reflexão e sistematização do saber teórico e prático pela academia e c) a relação dialética entre o conhecimento acadêmico e o saber acumulado pelos vários segmentos da sociedade.

2) A discussão sobre os problemas epistemológicos das ciências da comunicação deve levar em conta: a) a perspectiva kuhniana, na medida em que se verifica a estreita relação entre o estado do conhecimento de uma ciência e seu contexto social; b) a perspectiva bachelardiana, pois os problemas encontrados também são da ordem dos obstáculos epistemológicos e da relação dialética entre o pensamento e a realidade (racionalismo e empirismo).

Os problemas da área de Comunicação Organizacional

Classificada por Fadul, Dias e Kuhn (2001) como uma área da Comunicação, a Comunicação Organizacional também padece de vários problemas. O mais evidente encontra-se em sua própria denominação, para a qual ainda não existe consenso. É o que revela, por exemplo, o Dicionário de ciências da comunicação (Szymaniak, 2000), cujo verbete Comunicação Organizacional também contempla várias outras denominações, como Comunicação Empresarial, Comunicação Corporativa e Comunicação Estratégica. Uma análise consistente da origem desses termos deverá relevar implicações não apenas de ordem semântica, mas também relacionadas a práticas profissionais exercidas em vários contextos.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a International Communication Association - ICA informa em seu site (www.icahdq.org) a existência de várias divisões, entre elas a Organizational Communication. A gama de fenômenos estudados dentro dessa divisão inclui a relação entre líderes e subordinados, práticas discursivas, a comunicação de emoções, negociação e barganha, cultura organizacional, socialização e processos grupais, entre outros. Esses temas demonstram que o entendimento da ICA sobre Comunicação Organizacional refere-se a fenômenos de comunicação exercidos prioritariamente dentro das Organizações, com ênfase na Comunicação Interpessoal. Já os fenômenos relacionados à comunicação das organizações com seu ambiente externo são abordados pela ICA dentro da divisão de Relações Públicas, com ênfase na Comunicação de Massa.

Com uma abordagem divergente da ICA, a Asociacion Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación - ALAIC criou o núcleo de pesquisa Relações Públicas e Comunicação Organizacional, cujo principal objetivo, segundo informações de seu site (www.eca.usp.br/associa/alaic), é estudar o papel da comunicação no contexto das organizações complexas, considerando o funcionamento da comunicação administrativa, interna, institucional e mercadológica. Já na Europa, Van Ruler e Vercic (2001:158-159) informam que "em muitos países, ao utilizar os idiomas nativos, é praticamente impossível falar de relações públicas com os mesmos significados que o termo possui nos Estados da América" e que "muitas associações européias de relações públicas mudaram seus nomes e se converteram em associações de 'comunicação', embora ainda mantenham seus nomes de relações públicas em inglês. Isto já ocorreu até o momento na Dinamarca, Finlândia, Holanda, Noruega e Suécia".

Sob o aspecto da prática profissional, costuma-se atribuir a origem, tanto das Relações Públicas, como da Comunicação Organizacional, à atuação do jornalista americano Ivy Lee, que em 1906 criou um bem-sucedido projeto de relações com a imprensa. De forma geral, essa origem das relações públicas também é aceita na Europa, a partir da utilização de textos norte-americanos. Algumas dessas obras, inclusive, afirmam que as Relações Públicas vieram dos Estados Unidos para a Europa depois da Segunda Guerra Mundial com o Plano Marshall. No entanto, diversos pesquisadores daquele continente vêm questionando a versão hegemônica. A partir de várias referências bibliográficas, Van Ruler e Vercic (2003:157), por exemplo, afirmam que a prática de relações públicas existe há mais de um século na Europa, iniciada em 1879, com a criação de um departamento de relações com a imprensa pela Krups, empresa alemã de equipamentos para cozinha, fundada em 1846. Na Inglaterra, acredita-se que o início das relações públicas tenha ocorrido em 1920 e os holandeses alegam possuir a associação profissional mais antiga do mundo, criada em 1946. De qualquer forma - afirmam Van Ruler e Versic - muito pouco se conhece sobre relações públicas na Europa.

Enquanto área do conhecimento, a Comunicação Organizacional é reflexo do que vem ocorrendo no campo da Comunicação, como as colocadas por Rogers (1999). Talvez um dos principais problemas da Comunicação Organizacional esteja na própria origem da área. Segundo Linda Putnam (2002), os primeiros estudos surgem como forma de contribuir para promover a efetividade da organização. Esse ponto de vista instrumental dominou a área durante décadas, mesmo quando os pesquisadores entravam em campos como os da cultura organizacional, dos símbolos e dos significados, pois o objetivo final, nestes casos, era permitir o desenvolvimento de redes de apoio, facilitar a identificação organizacional, promover a integração ou controlar o trabalhador.

A Comunicação Organizacional em vias de transformação

A década de 1980 pode ser considerada um marco de referência para as transformações que se verificam na Comunicação Organizacional, tanto sob o aspecto acadêmico, quanto profissional. No âmbito acadêmico, Putnam (2002) afirma que as mudanças na área passaram a ocorrer sem que isso significasse o completo rompimento com a visão instrumental. Uma das grandes críticas da academia nessa época, e que ainda permanece, refere-se à ausência de marcos teóricos e à concepção da natureza da realidade organizacional apresentada pelos estudos tradicionais, que encaram a comunicação de forma linear, como o estudo de mensagens, informação, sentido e atividade simbólica. O novo enfoque passou a contemplar, por exemplo, a análise do sentido dos eventos organizacionais, a ambigüidade das estratégias, as regras de comunicação, o discurso público corporativo e o exercício de poder e controle através das distorções da comunicação. Apesar desses novos enfoques, a Comunicação Organizacional ainda luta, num nível meta-teórico, para a definir melhor a relação entre Comunicação e Organização.

A necessidade de uma visão mais integrada e estratégica sobre o exercício da comunicação pelas organizações tem motivado, no âmbito acadêmico e editorial, uma série de novas denominações para esse fenômeno. Como se já não bastasse a antiga polêmica existente entre Relações Públicas, Comunicação Empresarial e Comunicação Organizacional, surgem agora, com mais freqüência, publicações com o título Comunicação Estratégica e Comunicação Corporativa. Mais que isso, surgem também novas associações acadêmicas e profissionais incorporando essas outras denominações.

Para completar esse quadro, verificam-se ainda, muitas vezes, uma trágica (no pior sentido do termo) relação entre a academia e o mercado, cuja interação dialética pouco tem contribuído para a superação de questões empíricas e conceituais. Um sintoma desse problema é a constatação, por Simões (2001), da ausência de uma razão lógica (rationale) na habilitação de professores e profissionais de Relações Públicas, problema que se deve, em grande parte, à produção acadêmica:

"Observa-se que documentos, ditos científicos, ou pelo menos elaborados no âmbito da academia sobre Relações Públicas misturam as esferas da epistemologia, da teoria, da prática, do mercado de trabalho, dos aspectos legais, da ética e da política deste setor da economia, sem se dar conta da miscelânea que estão construindo e da confusão que estão provocando nos diversos segmentos da comunidade de Relações Públicas." (Simões, 2001:29).

Diante do quadro apresentado até agora, é possível afirmar que a superação das questões relacionadas à Comunicação Organizacional, pelo menos no âmbito da academia, não implica apenas na constatação, ou mesmo no aprofundamento teórico, sobre seus problemas. Faz-se necessário também entrar no âmago do conceito de campo científico proposto por Bourdieu (3) (um dos discípulos de Bachelard), estabelecendo, a partir dele, uma relação dialética entre o pensamento e a realidade da área em questão. Essa relação exige, mais que a vigilância epistemológica, verdadeiros atos epistemológicos, movidos por aquilo que Barthes (1986) denominou de "sentimento trágico da vida", que ensina mais a despojar do que a construir. Como criar novas denominações para o estudo e intervenção da comunicação nas organizações, se o próprio entendimento sobre a relação entre comunicação e organização ainda não foi devidamente solucionado?

A realização do empreendimento de construção da área de Comunicação Organizacional não deve ser fácil. É preciso ter cuidado com os obstáculos epistemológicos apontados por Bachelard. O primeiro deles, fartamente verificado nas publicações especializadas sobre comunicação empresarial, organizacional, estratégica e corporativa é o problema da opinião, que ao designar os objetos pela sua utilidade, impede de conhecê-los. Esse problema encontra-se estreitamente relacionado à origem instrumentalista da Comunicação Organizacional. O segundo obstáculo é o declínio do conhecimento científico: acadêmicos da comunicação organizacional que em determinados momentos foram referência no assunto, acabam estagnando, seja por não conseguirem superar sua fragilidade intelectual, seja por oportunismo em relação ao mercado. Como já dizia Bachelard (1996:19), "chega o momento em que o espírito prefere o que confirma seu saber àquilo que o contradiz, em que gosta mais de respostas do que de perguntas". O terceiro obstáculo é o problema da unidade da ciência, que ao considerar fenômenos de aspectos diversos como idênticos, impede o progresso científico diante do conforto da unificação fácil.

Dos três obstáculos citados por Bachelard, o mais instigante, cuja preocupação pode levar a um verdadeiro salto qualitativo na área de Comunicação Organizacional, é o da unidade da ciência. Levando em conta que o estudo sobre a relação entre comunicação e organização não foi totalmente desenvolvido e que o sentido amplo dessas palavras da margem ao estudo de uma gama de fenômenos, bem como à intervenção em diversas realidades, então ainda há muito o que se fazer pela Comunicação Organizacional. Para isso, é preciso existir uma consciência coletiva, seja no ambiente acadêmico, seja no mercado, ou mesmo em determinados setores na sociedade, direcionada tanto para a solução de problemas quanto para a reflexão sobre suas causas, estabelecendo uma relação dialética entre o pensamento, o sentimento e a realidade.


Referências Bibliograficas

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CHALMERS, Alan F. O que é ciência afinal?. São Paulo: Brasiliense, 1993.

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Notas

(1) É interessante observar que, no campo da Comunicação, trabalho semelhante ao de Masterman foi elaborado por Signates (1988) sobre o conceito de mediação. Este autor, entretanto, não se limita a apenas uma obra, como a de Martín-Barbero, De los medios a las mediaciones (1987).

(2) Uma amostra dessa discussão pode ser encontrada numa edição da revista Comunicação & Sociedade (2001).

(3) O campo científico, de acordo com Bourdieu (1976), é também um campo social, com suas relações de força, lutas e estratégias, onde o que está em jogo é o monopólio da autoridade científica.