 |
Comunicação
e Responsabilidade Social
Comunicação
no Terceiro Setor
Assessoria
de Imprensa / Relacionamento com a mídia
Comunicação Interna
Publicidade/Marketing
Comunicação e Cultura
Organizacional
Comunicação e Crise nas
organizações
Auditoria de Imagem das organizações
Comunicação Pública
(Governamental etc)
Diversos
|
|
Publicidade/Marketing
• Comunicação
• Artigo
• Case
• Resenha
Artigo
O comportamento do consumidor pós-moderno e as
ferramentas de gestão estratégica do negócio
Patrícia Reis
Mestranda em comunicação na UFRJ. Pós-graduada em
marketing. MBA em administração e sistemas de informação.
Pesquisas sobre política de comunicação em agências
reguladoras e sobre metodologia de comunicação para APLs
baseadas em cultura local. Atua com planejamento e promoções
na ANS.
Resumo
Este trabalho visa demonstrar como consumidores, classificados de forma
homogênea, no sentido clássico de segmentação,
categorizado por faixa etária e sexo, passam a compor um perfil
característico da pós-modernidade de agregação
em grupos de referência. As questões que definem suas afinidades
agora são os balizadores nas suas decisões de consumo.
A visão do consumidor pelo marketing moderno
A modernidade, inaugurada pelo pensamento de Descartes, trouxe à
sociedade a necessidade de contextualizar o pensamento e se caracterizou
na análise racional e positivista do comportamento de consumo.
Para Bauman (1992), a modernidade foi o momento de desenvolvimento de
uma ordem racional e de uma liberdade individual que até então
não havia sido alcançada. O indivíduo vive intensamente
o mito da liberdade individual. Ele nunca foi tão livre em suas
escolhas privadas e públicas, mas também nunca foi tão
solitário. (Cova, 1997)
Como conseqüência imediata da busca pela liberdade, proporcionada
pelos tempos modernos, o sujeito tornou-se mais individualista e solitário.
Serviços e produtos foram criados com base na individualidade,
customizados a ponto de serem singulares e exclusivos. Tal customização
foi possível graças ao incremento tecnológico nas
linhas de produção e na implantação de sistemas
de marketing baseados no relacionamento um por um. Tamanha tecnologia
permite que, cada vez mais, o consumidor seja analisado como um indivíduo
isolado que pode ser satisfeito em todos os seus desejos
O pensamento moderno do marketing coloca o consumidor como o centro das
relações das empresas. Sua individualidade é ressaltada
e todos os planejamentos estratégicos são orientados para
atender suas demandas específicas de produtos e serviços.
Para o marketing moderno, o consumidor é visto por quem é
(demograficamente), pelo que faz (atividades, interesses, estilos de vida),
pelo o que pensa (opiniões e crenças) e pelo o que valoriza
(valores e atitudes). Sistemas de informações são
criados e aperfeiçoados cada vez mais, aumentando a capacidade
de armazenagem de dados sobre os perfis de cada pessoa que adquiriu ou
pensou em adquirir um produto. O marketing de relacionamento tomou espaço
nas arenas das decisões mercadológicas. Imensos bancos de
dados são criados, muitas vezes sem que se saiba exatamente o que
fazer com eles.
O incremento ao acesso tecnológico permite que cada pessoa se isole
cada vez mais. Relações de trabalho são suportadas
por tecnologias de comunicação que permitem ao indivíduo
executar suas tarefas diárias sem necessariamente conviver com
outras pessoas. O próprio consumo pode ser realizado de forma isolada
através de um computador ligado à internet. A tecnologia
trouxe para cada indivíduo a possibilidade de existir sozinho,
embora esta situação não lhe seja natural.
A transição do consumidor pós-moderno
Para Cova (1997), o pós-modernismo é caracterizado pelo
individualismo que é uma lógica conclusão das questões
modernas sobre a liberação dos compromissos sociais. O indivíduo
pós-moderno pode ser totalmente autônomo e livre para mostrar
suas diferenças. Caminha-se no sentido do indivíduo comum,
ou seja, uma era onde qualquer um pode e deve ter atitudes personificadas
para produzir e mostrar sua própria existência e diferenças.
O indivíduo pós-moderno tornou-se um nômade do tempo
presente, sem vínculos sociais duráveis. A fragmentação
da sociedade e, conseqüentemente, a fragmentação do
consumo é uma das características do individualismo pós-moderno.
Esta fragmentação se reflete na indústria e no comércio
e atende a um consumidor virtual. O autor aprofunda o conceito indicando
que o pós-modernismo pode ser entendido como um período
de extrema dissolução social e exclusivismo onde a recomposição
social também pode ser momentânea.
A sociedade está embarcando em um movimento reverso a fim de recompor
seus universos sociais baseados nas livres escolhas emocionais. O individualismo
passa a ser visto como um período de transição entre
o modernismo e o pós-modernismo.
A gestão de negócios se apóia na perspectiva individualista
da sociedade, caminhando no sentido de atender ao indivíduo de
forma cada vez mais exclusiva. A busca da liberdade em todos os patamares,
com a ruptura das amarras sociais, criou um perfil de consumo de produtos
customizados, o qual a indústria em geral atende com suas estratégias
de marketing de relacionamento.
Os conceitos de marketing são baseados na configuração
moderna da sociedade. Como um braço das ciências exatas,
tem suas análises sedimentadas na racionalidade e no positivismo,
o que atende a gestão voltada para a segmentação
quantitativa.
O perfil pós-moderno de consumo
Para Solomon (2002), as pessoas criam relacionamento com o produto que
adquire através de ligações que podem ser: de autoconceito
- o produto ajuda a estabelecer a identidade com o usuário; de
nostalgia - o produto atua como elo com o eu no passado; de interdependência
- o produto faz parte da rotina diária; ou de amor - o produto
promove elos emocionais de afeto, paixão ou outra emoção
intensa.
A atividade de consumo se dá pelas experiências emocional
ou estética que são proporcionadas pelo objeto de consumo.
O consumo também pode gerar integração - que expressa
aspectos do eu ou da sociedade; classificação - onde as
pessoas se envolvem para comunicar, tanto para si como para os outros,
sua associação com objetos; ou pode gerar um jogo - onde
objetos são usados para que o indivíduo participe de uma
experiência mútua e funda suas identidades com a do grupo.
(Solomon, 2002)
A necessidade de relacionamento é inerente a existência do
ser humano. Pessoas se aproximam por diversos motivos, criando elos que
podem ser duradouros ou efêmeros. O avanço tecnológico
que permitiu a cada pessoa estar conectada a uma rede de computadores
ou à internet, somado a esta transição da característica
individualista do sujeito moderno para o pós-moderno, levam os
indivíduos a criarem novos espaços de relacionamentos.
Para Bernard Cova (1997), os estudos sobre o comportamento do consumidor
têm focado na compreensão, percepção ou traços
do comportamento individual, enquanto os estudos pós-modernos vão
se basear na antropologia do consumo. O entendimento sobre a dimensão
comunitária do consumo é ampliado para que se desenvolva
o conceito de "conexão de valores" (link value).
A sociedade está mais atenta a recomposição social,
onde as pessoas são vistas finalmente libertas de suas compulsões,
e embarcam na recomposição de seus universos coletivos.
Grupos próximos têm muito mais influência no comportamento
alheio do que as modernas instituições ou outras formas
de autoritarismo cultural. O que as pessoas procuram nas suas experiências
são envolvimento emocionais que podem ser considerados um retorno
à imaginação pré-modernista a qual foi rejeitada
pela pelas modernas tecnologias. (Cova, 2002)
O que se percebe é o retorno para as estruturas anteriores ao modernismo,
onde os grupos de relacionamento possuíam uma grande influência
sobre o comportamento individual. Esta tentativa de retorno às
unidades coletivas, se dá após a passagem por um período
de intensa racionalidade e desenvolvimento tecnológico. Esta experiência
não deixa invicto o retorno as origens comunitárias, que
acabam ocorrendo através de mecanismos individualizantes.
Tribalismo como uma estratégia para a dinâmica social pós-moderna
O conceito de tribo foi lançando no marketing por Cova (1997 e
2002) que trouxe para esta ciência os estudos da sociologia e da
antropologia cultural até então desprezados pelo racionalismo
das ciências exatas.
A palavra tribo refere-se ao ressurgimento de valores arcaicos de identificação
local, religiosidade, sincretismo e narcisismo, onde uma ordem social
se mantém sem um poder central ou submissão a regras. Elas
representam uma contracultura ao poder institucional onde pessoas se reúnem
com os mesmos objetivos, não entorno de alguma coisa racional ou
moderna, mas entorno do não racional e de elementos arcaicos como
localização, relacionamento, emoção e paixão.
Estão próximas do conceito de clãs ou de grupamentos
étnicos no sentido de que participam do re-encantamento do mundo.
Pertencer a estas tribos, para o indivíduo, começa a ser
mais importante do que pertencer a uma classe social ou a um segmento.
O que irá diferenciar uma tribo moderna das constituições
das tribos arcaicas é o fato delas serem efêmeras e não
totalmente agrupada; das pessoas poderem pertencer a várias tribos
diferentes; dos laços pós-modernos das tribos serem conceituais;
e por seus membros relacionarem-se pelo compartilhamento de sensações
e re-apropriação de signos.
A denominação comum das tribos pós-modernas é
a comunidade de emoções e paixões. As tribos existem
para representar as manifestações ritualística e
simbólica de seus membros. Estão constantemente em fluxo,
trazendo sempre para seus membros a repetição simbólica
de seus rituais e persistindo no poder de atração destes
rituais e de seus objetos de culto. Esta é a mais poderosa forma
de se manter a identidade das tribos da sociedade pós-moderna.
Para Firat et al, as pessoas participam de tribos como uma forma de escape
de suas vidas comuns. Já para a Latin School, tribos são
mais do que uma categoria residual da vida social, é o membro central
e a questão social chave para nossa própria experiência
de dia-a-dia. Até mesmo, e talvez, por causa disto, elas são
tão difíceis de se entender. Elas existem, mesmo sem serem
noticiadas, lado a lado com a moderna sociedade em um complexo e entrelaçado
caminho.
Categorização de perfis na pós-modernidade
Uma pessoa pode pertencer a várias tribos ao mesmo tempo, comportando-se
de forma diferente em cada uma delas. Em cada situação,
o indivíduo assume um papel e veste uma diferente "máscara".
Esta variação de comportamento social impede que as tradicionais
ferramentas de análise possam classifica-lo.
A noção de tribo não é particularmente revolucionária.
A maior diferença está na dupla identidade dos agrupamentos
das tribos pós-modernas que são simultaneamente primárias
e secundárias. No grupo primário estão as experiências
concretas do dia-a-dia, no secundário as necessidades de interagir
com outros grupos. Uma das características dos dias atuais é
a simultaneidade - movimentos de agrupamento e individualização
que ocorrem simultaneamente na rotina diária de cada pessoa.
Os relacionamentos nas tribos se dão pelo cruzamento dos momentos
em que as pessoas estão reunidas e os lugares onde se reúnem,
fisicamente ou não, com os momentos de sugestões, das atividades
cotidianas, da fantasia e da imaginação de cada membro da
tribo. Entre os papeis assumidos nas tribos encontramos o sócio
- que tem uma relação profunda e diária com os rituais
do grupo; o especialista - que conhece o assunto com profundidade mas
não mantém vínculo direto com os rituais; o participante
- que interage com todo o grupo; e o simpatizante - que convive esporadicamente
com o grupo sem criar vínculos maiores. (Cova, 2002).
O consumidor pós-moderno busca produtos que ajudem a formar sua
imagem junto às tribos a que pertence. O valor do produto ou serviço
não vem mais da função que este possui mas do que
ele é capaz de transmitir e dos significados que estão inseridos
na formação da sua imagem. A leitura do significado de um
produto pode assumir formas diversas já que ela é feita
pelos integrantes das tribos: um produto pode ser para um grupo seu principal
objeto de culto e para um outro um exemplo de aversão. Os componentes
destes dois grupos, quando analisados pelas clássicas ferramentas
de pesquisa do consumidor, podem apresentar os mesmos perfis e ao mesmo
tempo produzirem leituras antagônicas sobre o produto e a marca.
Ou seja, o que antes era tratado como público alvo de um determinado
produto, agora precisa ser revisto à luz da capacidade de significações
que o grupo é capaz de fazer.
Ao adquirir um produto, o consumidor pós-moderno não quer
mais se sentir individualizado. Ele deseja ser reconhecido, pelo consumo,
como integrante e representante de uma ou mais tribos.
Analisar o perfil do consumidor pós-moderno requer habilidade para
lidar com todas as múltiplas faces que ele passa a assumir no decorrer
de seu dia, conseqüência da fragmentação do seu
comportamento. Da análise quantitativa, macro, segmentado por faixa
etária, classe social e sexo, houve a evolução para
a análise de perfis qualitativos que visam conhecer quem é
o consumidor, seus hábitos de consumo de mídia, leitura
e suas formas de pensar. A dinâmica atual caminha no sentido de
somar tudo o que já foi criado para se pesquisar o comportamento
de consumo, à analise do sentimento que envolve as relações
entre as pessoas, suas afinidades, paixões e emoções.
Para Cova (1997), o consumidor parece tonto nas suas escolhas para consumo
impedindo qualquer organização de se estruturar estrategicamente
de acordo com categorias. Eles são capazes de escolherem produtos
antagônicos ou mesmo gastarem menos num movimento de anticonsumo.
Isto provoca uma confusão no sistema econômico que é
baseado no consumo e explica a dificuldade de enquadrar o consumidor por
suas preferências. Por outro lado, há uma relativa estabilidade
na maioria dos consumidores. O que vem causando confusão é
o fato de não se conseguir mais caracterizar o consumidor por segmentos
e nichos já que estes não correspondem mais à estrutura
pós-moderna. É importante ressaltar que a confusão
está limitada aos segmentos que têm capacidade de compra.
A função das instituições
pós-modernas
O marketing pós-moderno precisa aceitar as diferenças, lidar
com simulações, justapor tudo e aceitar a desordem e o caos.
Entre os conceitos que irão balizar o pós-modernismo temos:
o crescimento do etnomarketing para as pesquisa de marketing ou seja,
os produtos e os serviços devem estar relacionados com as ocasiões
sociais como os rituais; a percepção das inovações
sociais para a criação de inovações nos produtos,
ou seja, trazer as tendências das culturas sociais para as múltiplas
possibilidades tecnológicas; e o desenho de lugares para a realização
de conexões, ou seja, criação e identificação
de lugares, virtuais ou não, onde os grupos podem se reunir e que
passa a ter suporte de consumo. (Cova, 1997)
As empresas que pretendem direcionar seus negócios para as organizações
sociais no formato de tribos, devem tirar o foco das relações
clientes-empresa e passar a privilegiar a relação entre
os clientes. Devem sair da visão da empresa como suporte das relações
para a esfera de apoio aos relacionamentos. A fidelização
do cliente de forma cognitiva deve ser substituída pela fidelização
através dos cultos e rituais que possuem significado para a tribo,
como também a lealdade, que deixa de ser cognitiva para passar
a ser afetiva.
Para atender a este desenho social, a gestão empresarial deve projetar
inovações destinadas a facilitarem a convivência e
a agregação das tribos, utilizando as ferramentas de customização
para personalizar as conexões e dar suporte à conexão
entre pessoas.
Para Cova (1997) entre as conseqüências das mudanças
no comportamento do consumidor, o marketing pós-moderno passa a
se envolver com a arte, a cultura e a ideologia; está em constante
revisão do significado e das representações dos produtos;
tem mais interesse nos estilos de vida antes marginais; seus sistemas
permitem o consumo virtual como forma de atender a individualidade; ajusta-se
às representações do consumidor ideal nas suas estratégias,
comunicações e imagens; e assume práticas mais conscientes
e planejadas das significações e representações
em função da proximidade das culturas globalizadas.
A comoditização dos produtos e serviços, além
do excesso da oferta, leva as empresas a buscarem novas formas de leitura
dos seus públicos de relacionamento. O conceito de tribo vem somar-se
à necessidade de se analisar os fluxos de sentido que ocorrem dentro
das relações institucionais, internas e externas. Todos
os grupos que mantêm algum tipo de relacionamento com uma marca,
possuem sistemas de significados que são próprios à
eles. Formas de linguagem e de percepção da realidade que
estão se tornando cada vez mais fragmentadas, devido à própria
fragmentação dos grupos sociais.
Aplicabilidade
Entre as possibilidades de agregação para a formação
de tribos, a internet é uma das ferramentas que mais possibilita
esta interação. Entre os formatos disponíveis têm-se
os blogs - onde predominam as características regionais; as salas
de bate-papo - com rede de conexão, com canais de afinidade, onde
são promovidos encontros; os grupos de discussão - listados
por assunto e afinidade e que não oferece nenhum tipo de convívio
real; e as lan houses - que são clãs que se reúnem
principalmente para jogar pela internet, tanto virtualmente como em encontros
reais em casas destinadas a jogos eletrônicos que são fechadas
a estes grupos durante a madrugada.
Para aplicar alguns conceitos explorados até aqui foi realizada
uma pesquisa junto a um site denominado Banheiro Feminino que possui um
blog chamado "Muié do Meio do Mato". Os blogs são
diários, disponibilizados na internet, e comentados por pessoas
que se identificam com o conteúdo ou com as pessoas que compõe
aquele grupo.
O site selecionado esteve na mídia massiva como sendo "um
adorável bando de mulheres entre os 20 e os 40, compondo uma agradável
mistura de crenças, raças, hábitos e profissões:
aeromoças, analistas de sistemas, arquitetas, artistas plásticas,
donas de casa, médicas e algumas outras... Elas estão unidas
na árdua missão de revelar para o resto do mundo tudo de
oculto que se passa quando o mulherio vai ao banheiro em grupo, num restaurante
ou num bar... as freqüentadoras do Banheiro Feminino gravitam entre
Rio e Sampa e descrevem em detalhe seus programas favoritos." (www.iis.com.br,
2004).
Segundo o próprio site elas sempre investiram no humor feminino
na Internet. Ganharam alguns prêmios como iBest 2000 e o Top3 iBest
2001. A mídia gratuita as colocou nas páginas dos jornais
O Globo, Jornal do Brasil, O Dia, em revistas femininas, masculinas, na
internet e na televisão - duas vezes no Fantástico, no Flash
do Amaury e no Business do João Dória. Foram tema do Almanaque
da Globonews, Discovery Channel e de página dupla da revista Isto
é.
É curioso notar que embora a discussão sobre o formato de
tribos dentro da sociedade pós-moderna seja recente, o grupo que
compõem o Banheiro Feminino já mantém um site na
internet desde 1996.
O Banheiro Feminino é um site de humor, sem especialistas em assunto
algum. Segundo seus autores, é "puro tricô". É
uma mistura do que se fala discretamente, com o que os usuários
falam, e também o que colaboradores voluntários escrevem.
Para os criadores, seu objetivo não é acertar em tudo o
que escreve, porque ninguém é especialista em nada. A proposta
é escrever e fazer bagunça por pura diversão.
O Banheiro é produzido virtualmente de três lugares diferentes:
Rio de Janeiro, onde nasceu; São Paulo, de onde partem algumas
matérias; e Petrópolis onde é a sede do Banheiro
Feminino. O Banheiro Feminino é uma marca registrada e pode ser
o banheiro do restaurante, a mesa do bar, o vestiário do clube
ou qualquer lugar onde haja um bando de mulheres fazendo femininas e brilhantes
observações sobre tudo. Sua especialidade é tricotar,
errar, pensar besteiras o tempo todo e mostrar como é hilário
o mundinho do tão falado universo feminino.
O Banheiro Feminino seria categorizado nas tradicionais segmentações
do marketing como um espaço destinado a mulheres, na faixa etária
de 25 a 30 anos, classe média, urbana, usuária de internet
e economicamente independentes. Todas estas categorias são válidas
na análise da composição do grupo, mas o principal
neste universo é saber o que os participantes desta tribo pensam.
A segmentação acima funciona como norteador para entender
de forma mais profunda os fluxos de sentidos, de entendimento e significados
dentro do grupo. Na prática o Banheiro Feminino não tem
só a participação de mulheres com um determinado
perfil, mas de todos os tipos de categorias que se sintam relacionadas
com a imagem transmitida pela tribo.
Entre os espaços de relacionamento existe uma área de "casamento
no banheiro" que não necessariamente serve para unir casais
mas que acaba sendo uma forma de trazer para o universo real os encontros
feitos on-line. Uma área, para discussão de temas diversos,
chamada de "Baralhão". O "Procon WC", este
exclusivo para mulheres comentarem seus relacionamentos e uma área
chamada "tio da limpeza" que é um espaço de comentários
masculinos sobre temas femininos. Caracterizando-se como uma tribo virtual,
o site possui uma área de cadastro para que se passe à condição
de sócio.
O único fator que reúne as pessoas é o desejo de
se ter um momento de descontração, de relaxamento. Corresponde
a um bom exemplo da simultaneidade em que o sujeito pós-moderno
vive, dividindo-se entre as atribuições do dia-a-dia e a
participação em tribos virtuais.
O perfil de consumo deste grupo está mais relacionado com produtos
que estimulem os relacionamentos mais liberais e a vivência nos
centros urbanos. Como um exemplo do reverso da questão de consumo
de produtos como símbolos de inclusão na tribo, este grupo
pratica o anticonsumo de alguns produtos. O grupo repudia o consumo de
mídias padronizadas como as revistas e sites femininos que se estruturam
no paradigma do comportamento da mulher. Em uma outra coluna se oferece
dica de culinárias, que em contraste com os tradicionais sites
femininos, ensina receita de feijão com arroz, preparado com Uncle
Bens (aquele do saquinho). Os produtos adquiridos, ou neste caso não
adquiridos, demonstram a ausência de valor pela função
do produto e o aumento da importância da leitura que os membros
que compõem a tribo faz.
Dentro do site existe um blog chamado "muié do meio do mato"
que, retrata a rotina de uma mulher urbana que se mudou para o interior
com o marido e a filha mas que se mantém conectada com as tendências
pós-modernas. Suas anotações diárias são
recheadas de comentários de pessoas que fazem parte do grupo. São
nos espaços como os blogs, nas colunas e através de troca
de emails em grupos de discussões que os membros do grupo interagem.
Os espaços de convivência não se restringem a um único
endereço. Vários outros blogs estão interligados
como dicas por onde se anda. Esta questão coloca mais uma dificuldade
para se definir os perfis de consumo de uma tribo. Além dos indivíduos
fazerem parte de várias tribos no seu dia-a-dia, essas tribos possuem
características efêmeras e que se misturam. No caso em estudo,
além de links para blogs com as mesmas características,
o site oferece link para blogs com perfis diferenciados. Mistura-se de
tudo um pouco sendo difícil determinar as categorias predominantes.
O perfil do grupo que compõe o Banheiro Feminino pode também
ser identificado em outras mídias, além da internet, em
programas de TV fechada como Saia Justa e Sex In The City que discutem
questões típicas do universo feminino e seus relacionamentos.
Percebe-se claramente um aumento no consumo por programas desta natureza
e por livros como Brigitte Jones 1 e 2 - o um já virou filme e
o dois está em produção, Malancia, Férias,
além dos três livros do O2 Neurônio que se transformaram
em um quadro no programa de variedades Armazém 41 no Multishow.
O tema que agrega os componentes desta tribo é discutido em diversas
mídias e gera um consumo específico que mantém a
unidade do grupo. Cada uma destas mídias, e muitas outras, apresenta-se
também no formato on-line o que permite a integração
diária.
De fato, a forma de se trabalhar estrategicamente este grupo pode estar
no desenvolvimento de espaços de relacionamento entre as pessoas
que fazem parte da tribo, apoiando o contato e fidelizando seus membros
pela afetividade. O espaço de relacionamento entre os membros do
grupo, real ou virtual, possibilita a oferta de produtos e serviços
a serem consumidos na ritualização dos encontros. Gerenciar
estrategicamente os relacionamentos entre os membros de uma tribo e entre
as tribos possibilita entender as leituras de significados que são
feitas pelas pessoas e, conseqüentemente, acompanhar as mudanças
de postura frente ao consumo, o que permite ao mercado posicionar-se de
forma diferenciada.
Notas
1) Uma forma de gestão desastrosa de bancos de dados é vista
nos sistemas de telemarketing ativo que abordam seus pretensos clientes
com extrema limitação de argumentos e sem uma estratégia
de utilização do conhecimento adquirido com as informações.
Referências
BAUMAN, Zygmunt. A sociological theory of postmodernity
in Beilharrz, P, Robinson, G and Rundell, J. (eds), Between Totalitarism
and postmodernity, MIT Press, Cambridge, pop 149-62, 1992. apud Cova,
B. Comunity and consumption: towards a definition of the linking value
of products or services. European Journal of Marketing, Vol. 31, nº
3/4, pp. 297-316, 1997.
CASOTTI, Letícia. Marketing moderno e consumidor
pós-moderno. Anais do Congresso Ampad, 1998.
COVA, B. Comunity and consumption: towards a definition
of the linking value of products or services. European Journal
of Marketing, Vol. 31, nº 3/4, pp. 297-316, 1997.
COVA, Bernard e COVA, Véronique. Tribal Marketing:
the tribalisation of society and its impact on the conduct of marketing.
European Journal of Marketing, Vol. 36, nº 5/6, pp. 595-620, 2002.
FIRAT, A. F. e DHOLAKIA, N. Consuming people: from political
economy to theatres of consumption, Sage, London. 1998 apud COVA,
Bernard e COVA, Véronique. Tribal Marketing: the tribalisation
of society and its impact on the conduct of marketing. European Journal
of Marketing, Vol. 36, nº 5/6, pp. 595-620, 2002.
FIRAT, A. F. e VENKATESH, A. Postmodernity: the age
ok marketing. International Journal of Research in Marketing, Vol.
10 pp. 227-49, 1993 apud COVA, Bernard e COVA, Véronique. Tribal
Marketing: the tribalisation of society and its impact on the conduct
of marketing. European Journal of Marketing, Vol. 36, nº 5/6, pp.
595-620, 2002.
HARVEY, E. C. Condição pós-moderna.
Edições Loyola, São Paulo, Brasil 1993
KOTLER, P. A generic concept of marketing. Journal
of Marketing. V. 36. 1972
PEREIRA, Carlos Alberto Messeder, HERSCHMANN, Micael. Comunicação
e novas estratégias organizacionais na era da informação
e do conhecimento. Comunicação & Sociedade.
São Bernado do Campo: PósCom-Umesp, a. 24, n. 38, p. 27-42,
2ª sem. 2002
SOLOMON, R. Michael. O Comportamento do consumidor:
comprando, possuindo e sendo. 5ª ed. Ed. Bookman, 2002.
Reportagem publicada sobre o Banheiro Feminino no site: http://www.iis.com.br/~cat/infoetc/345.htm.
Acessado em maio de 2004.
BANHEIRO FEMININO, site www.banheirofeminino.com.br. Acessado em maio
de 2004.
|
|