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Comunicação e Cultura Organizacional
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Artigo
Comunicação e Cultura Organizacional
na implementação de sistemas integrados de informação
Lidiane Malagone Pimenta
Relações Públicas e Mestranda em Comunicação
Midiática pela Unesp de Bauru.
Resumo
Atualmente, as organizações buscam a tecnologia da informação
para tornarem-se cada vez mais competitivas. Com o uso de sistemas integrados
de informação, as empresas são forçadas a
mudar de um modelo departamental para um modelo integrado de administração
e produção. Assim, a cultura organizacional, através
da comunicação, sofrerá mudanças para que
funcionários possam alterar seu modo de trabalho e contribuir para
o sucesso da implementação deste projeto.
Introdução
A informatização já é realidade em quase
todos os campos da vida humana em sociedade. Invadiu domicílios,
escolas, hospitais e organizações em geral. Mais do que
um diferencial de mercado, a Tecnologia da Informação configura
hoje um investimento necessário para a vida das empresas.
Além de adquirir equipamentos de última geração,
que aumentam a produção e organizam a distribuição
dos bens produzidos, os empresários sentem a necessidade de dinamizar
o gerenciamento de informações tidas como o mais importante
"bem" de uma organização.
Neste quadro, inserem-se os sistemas integrados de informação
para gestão empresarial, os 'ERP´s' (Enterprise Resourcing
Planning), organizando e distribuindo dados, levando informações
rápidas e precisas a quem faz a "máquina empresarial"
trabalhar. Será a informação, então, o "bem
maior" das empresas? O que elas podem fazer sozinhas?
É possível afirmar que a valorização do ser
humano nas empresas não é uma mera tendência, mas
sim o caminho para os resultados prometidos na era da Sociedade da Informação.
E é justamente aí, onde entram a comunicação
e a cultura organizacional, instâncias capazes de gerir o capital
humano e torná-lo cada vez mais eficaz.
A tecnologia da informação nas empresas
As organizações têm buscado um uso cada vez mais
intenso e amplo da tecnologia da informação, que altera
as bases de competitividade estratégicas e operacionais das empresas.
As oportunidades e as forças de negócios levam a uma elevada
conectividade, possibilitando novas formas de relacionamentos entre organizações
e aumentando a produtividade dos grupos.
As modernas tecnologias de informação e comunicação
permitem melhorar a qualidade de vários aspectos do negócio,
pois auxiliam na manipulação de um grande volume de transações
com custos menores, apóiam operações geograficamente
dispersas por intermédio do processamento distribuído e
oferecem novos produtos e canais de distribuição.
Além disso, as tecnologias permitem a melhoria da coleta de informações
sobre seu ambiente externo, estabelecendo parcerias baseadas em meios
eletrônicos com seus clientes e fornecedores e compartilhando plataformas
e mercados eletrônicos, inclusive, com seus concorrentes.
A agilidade e o poder de resposta são as novas regras no ambiente
empresarial atual, facultadas pela tecnologia. A estratégia de
produzir e vender da era industrial foi substituída pela de sentir
e responder rapidamente às mudanças das necessidades e particularidades
dos clientes. Porém, tal agilidade somente pode ser alcançada
caso as informações necessárias sejam devidamente
recolhidas e analisadas pelo capital humano da empresa.
Para o processamento dessas informações, a indústria
de software oferece sistemas integrados de informações -
os ERP´s (Enterprise Resourcing Planning) - definidos como uma arquitetura
de software que utiliza um único banco de dados. O ERP opera em
uma plataforma comum que interage com um conjunto integrado de aplicações,
consolidando todas as operações do negócio em um
simples ambiente computacional, possibilitando a entrada de informações
uma única vez e assegurando a integridade das mesmas.
Um sistema integrado oferece fidelidade, consistência e comparação
de dados, devido à utilização de um critério
informacional único em todas as atividades da empresa. Com isto,
toda a empresa compartilha a mesma base de dados, eliminando a necessidade
de repetição de atividades tais como reentrada de dados,
quando departamentos diferentes usam a mesma informação.
Mudanças culturais na implantação
do ERP
A utilização do ERP significa uma mudança, muitas
vezes, profunda na organização, que deve ser planejada e
preparada para que se garanta seu sucesso. A propensão à
utilização de um sistema integrado é construída
ao longo da história da organização, reflexo de sua
postura perante novos desafios tecnológicos.
"Todas as implementações afetam o ambiente social da
organização e o modo de trabalhar de seus participantes.
Toda a organização deve saber da importância do projeto
e ter conhecimento de informações relevantes para ser envolvida
no esforço comum. Isso pode ser conseguido por intermédio
de treinamento, reuniões, encontros formais ou informais e, antes
de mais nada, de uma estratégia de comunicação completa
e aderente." (ALBERTIN, 99: 02)
Em uma organização departamental funcional, as pessoas trabalham
em um grupo restrito de atividades, repetindo continuamente determinadas
tarefas. Assim, tornam-se especializadas no que fazem e acreditam que
a especialização é importante, perdendo a visão
e o interesse de conhecer o que se passa em outras áreas da organização.
É possível perceber em ambientes departamentais tradicionais,
uma forte noção de espaços demarcados. Segundo Hehn
(1999), cada funcionário recebe um "território"
composto por recursos e atividades, objetivos, responsabilidade e autoridade,
definido pelo superior hierárquico. Os funcionários se sentem
"donos" desta pequena parte da organização e seu
sucesso e crescimento dependem de quanto seu território produz.
Com isso, ainda de acordo com Hehn (1999), a organização
pode enfrentar problemas como a redundância de atividades entre
as diversas áreas, falta de cooperação ou até
mesmo competição entre as mesmas e ineficiência organizacional,
com ciclos longos de atividades. Isto ocorre porque os funcionários
passam a lutar para protegê-lo e evitar que dele sejam tirados recursos,
atividades, autoridade e informações.
As informações são tratadas como tesouros, pois dão
certo poder àquele que as detêm. Os funcionários acabam
retendo todo tipo de informação que julgam importante, compartilhando-a
apenas com pessoas que confiam, ou que "jogam o mesmo jogo".
Essa é a maior barreira à implantação e operação
de sistemas integrados de informação: a organização
departamental (um modelo natural e instintivo nos seres humanos) trata
a informação de forma egoísta e isolada.
Quando uma organização tem objetivos e responsabilidades
específicas, as pessoas focalizam mais suas áreas de responsabilidade
e aceitam que os outros façam isso também. Elas deixam para
os "chefes" a responsabilidade de promover a integração
entre áreas. Essa postura reforça a noção
de território.
Ao optar pelo uso de um sistema integrado de informações
(ERP), a empresa passa a trabalhar de uma nova maneira. A organização
departamental dá lugar a um modelo de gestão integrado e,
para que isso ocorra, cada colaborador deve ter uma visão integrada
e geral do processo produtivo.
Quando uma organização trabalha com a lógica de objetivos
comuns, as pessoas percebem a importância da integração
e colaboram com outras áreas que compartilham seus objetivos. Criam-se
assim "times virtuais", grupos de pessoas de diferentes áreas
da organização que são parceiras de resultados importantes
para o negócio.
Num ambiente integrado e orientado para processos há forte valorização
da rede de relacionamento que segue o fluxo dos processos, no lugar da
noção de propriedade de um território. A rede de
relacionamentos a ser construída deve se comportar como uma conexão
que se forma entre pessoas que têm objetivos comuns considerados
mais importantes que o sucesso pessoal isolado.
Para trabalhar processualmente, presume-se uma mudança cultural
em toda organização. Mas toda mudança sempre traz
ganhos e perdas. No mínimo, tira as pessoas da zona de conforto
- onde estão à vontade porque sabem todas as perguntas e
respostas -, e as leva para uma região onde precisam aprender e
criar. Pode chegar a tirar seus empregos ou tornar sem valor todo o conhecimento
que passaram a vida desenvolvendo. Por esses motivos, surgem resistências
à implementação do sistema.
Vale destacar, entretanto, que padrões de comportamento profundamente
enraizados não serão alterados com a simples implementação.
O software é apenas o instrumento que permitirá que todos
os funcionários de uma empresa, mesmo sem estar próximos,
trabalhem integrados. A verdadeira mudança cultural, a integração
das pessoas e, conseqüentemente, dos processos de trabalho, dependerá
do capital humano da organização e de um esforço
comunicacional interno capaz de promovê-la.
Comunicação e cultura Organizacional
Segundo Freitas (1997), o comportamento humano nas organizações
tornou-se, nas últimas décadas, objeto de estudo científico
específico, orientado para a busca da melhor compreensão
do mesmo e o termo "cultura organizacional" começou a
ser usado. A empresa poderia, a partir de então, tornar seus colaboradores
mais produtivos e satisfeitos no trabalho.
A cultura organizacional compreende um conjunto de forças importantes
que influenciam o comportamento organizacional. Compreende, além
das normas formais, também o conjunto de regras não escritas,
um padrão de crenças e expectativas compartilhadas pelos
funcionários que produzem normas inconscientes. Estas, por sua
vez, podem moldar poderosamente o comportamento dos indivíduos
e grupos dentro das empresas.
A essência da cultura de uma empresa é expressa pela maneira
como ela faz seus negócios, pela maneira como trata seus clientes
e funcionários, pelo grau de autonomia ou liberdade que existe
em suas unidades ou escritórios e pelo grau de lealdade expresso
por seus funcionários. Constitui, enfim, o modo institucionalizado
de pensar e agir.
Desta perspectiva, surge a necessidade de centralizar e focalizar os processos
produtivos não na tecnologia, mas no capital humano das empresas,
colocando em prática uma abordagem antropocêntrica do trabalho
e, não mais, tecnocêntrica. As pessoas são consideradas
atualmente como uma unidade integrada de sentimentos, emoções,
valores e raciocínios que interagem simultaneamente em contexto
organizacional e criam saberes únicos que acrescentam valor ao
negócio das empresas. É o novo paradigma informacional,
onde a intuição, a subjetividade e a criatividade assumem
vital importância.
Este novo paradigma, bem como toda a vida humana, é socialmente
construída através da comunicação, que se
baseia nos símbolos e significados compartilhados dentro da empresa.
O desempenho da comunicação interna é fundamental
para que os colaboradores se comprometam com o sucesso da empresa e passem
a colocar-se mais eficazmente a serviço dela.
Porém, trabalhar a comunicação interna é muito
mais que informar funcionários sobre as decisões da diretoria
e sobre um novo comportamento adequado diante da implementação
de um sistema integrado de informação. A comunicação
interna - formal e informal - é responsável pela criação,
assimilação, manutenção, alteração
e até mesmo pelo conhecimento da cultura organizacional de uma
empresa.
Segundo Albertin (1999), todo o planejamento de intervenção
feito para a implementação de um ERP deve considerar a disseminação
da cultura de tecnologia de informação, bem como a sua desmistificação,
para garantir um bom entendimento e a eliminação de possíveis
resistências. Esses impactos devem ser previstos, estudados e trabalhados
por meio de esclarecimentos, envolvimento, eliminação de
dúvidas e medos, facilitadores de mudança, etc.
Plano de Comunicação
É fundamental, para que o ERP seja um instrumento eficaz para
a administração, que suas partes (que têm de fato
uma grande interdependência e interação dinâmica)
exerçam cada qual uma função atendendo a um conjunto
harmônico. O sistema está tecnologicamente integrado, mas
as operações informatizadas são feitas por pessoas.
Elas são os detentores de conhecimento e, por isso, devem estar
comprometidos e ter consciência do trabalho processual e integrado
a ser realizado em sua empresa.
Os sistemas integrados e as mudanças provocadas por sua implantação
precisam ser entendidos e aceitos para que a ferramenta tecnológica
possa ser utilizada e promova resultados. Para tanto, é preciso
que se faça um estudo da cultura organizacional, tomando-a como
base para a elaboração de planos e estratégias comunicacionais
capazes de promover a aceitação, o conhecimento e o comprometimento
necessário. A técnica de relações públicas,
com sua abrangência administrativa e de comunicação,
pode incorporar este discurso, colocando-o a serviço da disseminação
interna dos novos conceitos e atitudes esperadas dos colaboradores.
Um projeto de relações públicas capaz de promover
esclarecimento e colaboração dos funcionários envolvidos
na implantação do ERP para as mudanças nos processos
e formas de trabalho provocadas pelo mesmo é fundamental. Para
tanto, como já dito anteriormente, é necessário conhecer
a cultura organizacional da empresa. Feito isto, o profissional de relações
públicas deverá auxiliar as transformações
culturais na atual conjuntura interna com estratégias de comunicação
baseadas no diagnóstico feito e acompanhar e avaliar a comunicação
em torno da implantação do ERP e ocorrências afins.
O trabalho de diagnóstico, a ser realizado antes dos trabalhos
de implantação terem início, pode ser concretizado
através de estudos e análises do material de imprensa e
comunicação organizacional, da filosofia, política
e missão da empresa e das relações hierárquicas
e organograma. Estes dados proporcionarão informações
suficientes sobre o discurso empresarial adotado pela organização
que procura a tecnologia.
Entrevistas se fazem essenciais para conhecimento da história da
empresa e sua análise auxiliará no diagnóstico da
cultura organizacional. Relatos de novos e antigos funcionários
de diferentes níveis hierárquicos trarão um conjunto
rico de informações capazes de compor um quadro mais completo.
Após o conhecimento da cultura organizacional, será possível
conscientizar os funcionários da maneira mais eficaz. Com base
no diagnóstico, são escolhidas a melhor forma de atingí-los,
as melhores estratégias, os melhores instrumentos, e um discurso
adequado à cultura pré-existente e capaz de alterá-la
conforme a necessidade. Dessa forma, a comunicação interna
pode auxiliar na mudança cultural exigida pela implementação
da tecnologia e alterações no modo de trabalho.
Informações sobre o ERP, o funcionamento da cadeia produtiva
da empresa, o processo de implantação do ERP, a importância
estratégica do uso do ERP para a empresa, o funcionamento da cadeia
produtiva com o sistema integrado, que tipo de mudanças ocorrem,
como os funcionários serão atingidos e como construir um
comportamento adequado à nova realidade devem ser discutidas em
reuniões de grupo, cuja proximidade poderá auxiliar no envolvimento
dos funcionários.
Para reforço das principais informações, torna-se
essencial a formação de líderes - funcionários
que receberão treinamento especial para difundi-las pontualmente.
Para Pereira (1997), os líderes são importantes instrumentos
de comunicação, desde que a informação seja
padronizada. "O funcionário passa a sentir-se informado e
esclarecido do que for ocorrendo na empresa ou ainda de qualquer dúvida
que porventura tenha subsistido." (GIANGRANDE e FIGUEIREDO, 1997:
32)
É importante lançar mão de instrumentos de comunicação
dirigida para transmitir as informações necessárias
para o grupo já identificado e caracterizado no diagnóstico.
Logo, a mensagem será mais eficaz e eficiente em produzir os efeitos
desejados no público-alvo.
A concretização da mudança cultural necessária
para o uso potencializado do ERP dependerá do pleno conhecimento
da cultura da empresa, da abrangência e eficiência do plano
de comunicação para a mudança, da qualidade das estratégias
e do instrumental de comunicação dirigida e do apoio da
alta administração durante todo este processo.
Sem o aval e o acompanhamento daqueles que "dirigem" a empresa
- e que têm grande peso na criação e manutenção
da cultura organizacional - dificilmente o projeto de implementação
de um sistema integrado de informação terá sucesso.
Caso a alta administração, a área de tecnologia e
a de comunicação trabalhem juntas em busca do mesmo objetivo,
sua empresa passará pelas transformações de maneira
satisfatória e estará pronta para crescer cada vez mais.
BIBLIOGRAFIA
ALBERTIN, Luiz Alberto. As contribuições
mais importantes para o Valor Estratégico de TI nos vários
setores são Estratégia de Negócios, Economia direta
e Relacionamento com Clientes. São Paulo: FGV - EAESP, 1999.
FREITAS, Sidinéia Gomes. Cultura Organizacional e Comunicação.
In: KUNSCH, Margarida M. K. (org). Obtendo Resultados
com Relações Públicas. São Paulo: Pioneira,
1997.
GIANGRANDE, Vera & FIGUEIREDO, José Carlos. O
cliente tem mais do que razão. São Paulo: Gente,
1997.
HABERKORN, Ernesto. Teoria do ERP. 2ª ed.
São Paulo: Makron Books, 1999.
HEHN, Herman F. Peopleware. Como trabalhar o fator
humano nas implementações de sistemas integrados de informação
(ERP). São Paulo: Gente, 1999.
KUNSCH, Margarida M. K. Planejamento de Relações
Públicas na Comunicação Integrada. São
Paulo, Summus, 1996.
TAKAHASHI, Tadao (org). Sociedade da Informação
no Brasil. Brasília: Ministério da Ciência
e Tecnologia, 2000.
WEY, Hebe. O Processo de Relações Públicas.
São Paulo: Summus, 1983.
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