Comunicação e Crise nas Organizações


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Artigo

O mundo, a crise e o espetáculo
Lícia Arena Egger-Moellwald
Doutoranda no programa de Comunicação e Semiótica da PUC de São Paulo, Mestre em Comunicação e Mercado, Máster em Tecnologia Educacional e Relações Públicas.

Resumo


O objetivo deste trabalho é o de análise sobre as situações de crise empresariais e pessoais, e como esses eventos podem acabar transformados em espetáculo pela mídia. Ao cumprir seu papel de informar, os veículos de comunicação levam os eventos à condição de mimeses da realidade, transformando-os em fator de entretenimento.
Trata de questões que se tornaram relevantes a partir da década de 70 e que levam a reflexão não só sobre o poder da mídia, mas da necessidade do grande público de sair da rotina do dia a dia, e fazer uma catarse, a partir de eventos que tenham a capacidade de expor pessoas e organizações ao julgamento público.

Palavras-chaves: contemporâneo / pós-moderno / mídia / crise / mimese/ espetáculo.


"Interrupções, incoerência, surpresa são as condições comuns de nossa vida. Elas se tornaram mesmo necessidades reais para muitas pessoas, cujas mentes deixaram de ser alimentadas - por outra coisa que não mudanças repentinas e estímulos constantemente renovados. Não podemos mais tolerar o que dura. Não sabemos mais fazer com que o tédio dê frutos".
Assim toda a questão se reduz a isso: pode a mente humana dominar o que a mente humana criou?"". Paul Valéry

O Mundo Contemporâneo

Os últimos trinta anos da história do homem são marcados, por uma profunda transformação do tempo, da informação e da velocidade, gerando a obsolescência não só das suas criações, mas dele próprio num processo de avanço e retrocesso. O limite do homem contemporâneo é o seu desejo, e a realização desse, a sua capacidade de alterar o real através do uso da tecnologia. A sensação de controle sobre si mesmo e sobre a natureza, o mantém distante da realidade, criando em sua passagem, um rastro de descontrole e destruição, numa sucessão de crises e violências na qual nada passa impune, nem o homem nem a sua criação.

A falta de consenso para um termo que defina o momento atual - alta modernidade, contemporaneidade ou pós-modernidade - deixa claro, a ambigüidade histórica pela qual passamos. Nada se constitui para ser definitivo, tudo é transitório, fazendo com que a grande aventura da vida seja a sua fluidez, a sua instabilidade.

A busca pelo mundo perfeito, baseado na queda das fronteiras científicas, tecnológicas e territoriais, parece ter levado o homem ao descontrole na sua própria gestão. O poder das nações se mostra fragmentado. Guerras surgem com o pretexto de controle sobre a insanidade de ditadores com a mesma violência com que foi gerado o regime ao qual se propõe destruir; o ecossistema é preservado como um grande laboratório testado no limite de sua capacidade de sobrevivência; o poder se sustenta não mais sob a insígnia da igualdade, mas sob o encastelamento das diferenças. O que se acreditava ser o grande momento na história da evolução humana se mostra marcado pela indiferença, pelo descrédito e pela ausência de alternativas que consigam ser aceitas por todos os habitantes do planeta.

Fadado à transformação nas suas bases produtivas o capital retoma o sistema escravocrata, não mais com a vigilância panóptica de Foucault, mas como estimulador da insegurança, criando um sistema de dependência no qual a estabilidade e o desconforto se tornaram moeda do controle. Baumam (2003, p.42) citando Bourdieu alega que o estado de permanente insegurança e incerteza sobre o futuro leva à incapacidade de fazer planos e segui-los.

Ao estabelecer o transitório como regime permanente, o poder institui o ganho do capital como sua fonte constante de vigília e incorpora o controle do real, submetendo-o à adaptação de suas necessidades, aliciando a cultura do excesso através de simulações que competem com a realidade.
Segundo Baudrilhard:

"(...) atual estado das coisas, é o de uma pós-orgia. A orgia é o momento explosivo da modernidade, o da liberação em todos os domínios. Liberação política, liberação sexual, liberação das forças produtivas, liberação das forças destrutivas, liberação da mulher, liberação da criança, das pulsações inconscientes, liberação da arte. Assunção de todos os modelos de representação e de todos os modelos de anti-representação. Total orgia de real, de racional, de sexual, de crítica e de anticrítica, de crescimento e de crise de crescimento". (1996, p. 9)

O excesso leva a busca pelo inusitado como paliativo para a ausência de sentido. A insignificância humana não deve transparecer, o poder deve se açucarar até se transformar em algo palatável mostrado como um bem com propósito de salvaguardar a espécie dos transgressores dessa "orgia", expurgando os fantasmas da incoerência a categoria do indesejável.

A essa perda de sentido se abraça o recurso da velocidade, a aceleração do mundo pela tecnologia criando como diz Trivinho:

"Docemente bárbara, como todo refinado apanágio do poder, ela se manifesta por seus efeitos (...) Por certo, a violência da velocidade faz ninho, por exemplo, com as ameaças verbais e não verbais, as chantagens, o assédio sexual ou moral, as formas preconceituosas e racistas de tratamento, os atos de humilhação e difamação públicas, e assim por diante". (2002, p.259).

O avanço científico faz acreditar que temos a capacidade de controle, não só sobre o tempo, mas sobre a vida. Não nos contentamos apenas em recuperar as feridas, mas buscamos a construção de novos seres, melhor capacitados, para viver o grande sonho humano da vida eterna. Para Baudrillhard :

"A ciência bio-físico-mecânica dá início ao processo analítico do corpo, e a genética micromolecular não é mais que a sua conseqüência lógica, mas a um nível de abstração e de simulação bem superior, o nível direto do código genético, em torno do qual se realiza toda a fantasmagoria. Cada célula de um corpo se torna uma prótese " embrionária" desse corpo". (1991, p.127)

A explosão de imagens e a estetização contagiam o real que passa a ser um apêndice do virtual. A urgência da velocidade e a estética contaminam os sentidos. O real perde a função, passando a ser inexpressivo, necessitando ser ampliado até criar a magnitude permitida antes apenas em sonho. Baudrillhard alega que

"(...) até o mais marginal, o mais banal, o mais obsceno estetiza-se, culturaliza-se, "musealiza-se". Tudo é dito, tudo se exprime, tudo toma força de um signo". (1996, p.22)

O planeta ficou pequeno não há mais espaço desconhecido, não existe fronteiras, o domínio do homem se estendeu à sua permanência no planeta. O controle sobre o futuro adquiriu feições titânicas, podendo a continuidade da espécie ser decidida não mais pelo poder divino, mas pela interceptação de possíveis intrusos na órbita terrestre ou do humor dos que se sentam no poder. Numa percepção irreal da soberania do ser humano sobre o seu destino.

Não há espaço para o indivíduo, tudo é pensado para a massa e as diferenças são pensadas pelo viés da igualdade. O privado é propriedade do coletivo e vice-versa, numa exibição pública do excesso mostrado sem clemência em telas da realidade. Baumam considera que o privado é que coloniza o espaço público, e o espaço público não é muito mais que uma tela gigante em que as aflições privadas são projetadas. (2001, p.49)

A Crise

O excesso, a velocidade e o grande volume de informações, aliados à transformação do que é privado em público se tornaram ferramentas de regulamentação para convivência, fazendo com que nada passe desapercebido. Todos e tudo podem ser expostos, dependendo unicamente da possibilidade do evento se tornar uma grande atração para o público.

A apropriação do nefasto pela mídia e a sua exibição, sacia a ânsia pelo diferente, como um aliado da necessidade cada vez maior do homem pelo entretenimento com o poder de romper a rotina da vida. Não há limite para o sinistro e seu desnudamento, numa roda que não menospreza nenhum acontecimento, como se ao homem só existisse a possibilidade da intriga ou da tragédia. O funesto precisa se expor como único para justificar o virtuoso, num processo ambivalência da verdade a qual, segundo Hilton Japiassu (2001: 28), repousa na força dos que a impõe.

Episódios que envolvem pessoas ou organizações e não apontem degeneração, descrédito ou vingança, não são suficientes para deter a atenção do homem. O ceticismo passou a fazer parte da vida, num questionamento constante do ser humano sobre a possibilidade de questionar a verdade, não com a intenção do conhecimento, mas da possibilidade do erro. A vida não é mais fluída, passou a ser episódica, numa espetacularização de momentos no qual segundo Maffesoli

"O espetáculo que já não é monopolizado por alguns repete a antiga sabedoria do thetrum mundi no conjunto do corpo social. Este último não é mais uma simples metáfora para o uso de alguns sociólogos, mas vem a ser uma realidade concreta nas manifestações cotidianas, cada vez mais desenfreadas." (2003, p.112)

Na contemporaneidade, o homem tem na mídia o seu aliado para o conhecimento de tudo o que acontece no planeta, mas se esquece que o interesse pelo poder e pela lucratividade se aproveita do seu gosto pelo exótico e da turbulência como transgressora da rotina, lembrando como alega Japiassu :

"Tudo é social. Nada há de universal. Não há ponto de vista absoluto. Nenhum sistema de crenças pode ser considerado como verdadeiro". (2001, p.28)

A necessidade do sentido de comunidade faz par com o sofrimento e com a perda, lembrando a sensação da humanidade perdida no anonimato do desenvolvimento. A mídia faz sua parte, exacerbando a emoção, fazendo fluir a vida e expurgando os fantasmas individuais, numa combinação corrosiva que leva a apologia da crise seja ela qual for.

A crise compete com a fantasia, seduz e se apossa do cotidiano, enfraquecendo o real e colorindo a monotonia. Nada passa impune e tudo pode ganhar através da mídia o formato adequado, servindo de cenário para a crise, fazendo valer não o real e o concreto, mas sua potencialidade. Segundo Baudrillhard

"Todas as espécies de acontecimentos aí estão, imprevisíveis. Já aconteceram ou estão chegando. O que nos resta fazer é, de certa forma, assestar um projetor, manter a abertura telescópica sobre esse mundo virtual, esperando que alguns desses acontecimentos façam a gentileza de se deixar apanhar". , (1996, p.117)

A apologia dos ideais de perfeição para homem contemporâneo e para as organizações, servem muitas vezes de gatilho para a crise, que quando exaurida na sua potencialidade pela mídia, se torna passado, sendo rapidamente substituída por outra crise e mais outra, numa sucessão de acontecimentos que servem tanto aos propósitos dos veículos de informação como também do capital.

Qualquer desajuste pode ganhar destaque. O homem e a mídia criaram mecanismos para manipular o real, podendo dar para si e organizações, quando necessário, ares de impecável correção.

Uma crise pode abalar a mais sólida das imagens, desde que o evento possa ser adaptado ás necessidades de teatralização da mídia, a qual compete perceber a capacidade de transformação do episódio em cenário para o nefasto ou surreal.

A crise é um momento pinçado do cotidiano, visto publicamente apenas por um ângulo e com potencial para alimentar todas as carências humanas, funcionando como catalisador das incoerências do mundo contemporâneo.

A velocidade com que a crise se instala e condensa sua força, lembra um tornado, fugaz na sua destruição e na maioria das vezes apocalíptica no resultado. Combustível da civilização contemporânea, segundo Trivinho " a velocidade é o que move a tudo e a todos. Ela é o que o faz agir, o que o faz fazer, o que o faz pensar. (2002 p.261).

A energia despendida durante uma crise compromete o equilíbrio e o controle dos envolvidos, e seu esquecimento depende da relevância do fato, do interesse do público e do poder e da mídia na continuidade da sua propagação.

No desenrolar da crise e sua exposição o público se envolve, disputa a razão, apropriando-se do fato numa catarse coletiva, que une pela aflição e pune, muitas das vezes, sem que seja necessária a interferência da justiça.

O Espetáculo

A velocidade de propagação da informação, e o poder da mídia têm a força de uma bomba numa situação de crise. Aliados ao gosto pelo show, mídia e público são cúmplices durante o seu desenvolvimento, como na construção de um espetáculo, a mídia escreve o roteiro, a partir do evento desencadeador da crise e de acordo com as necessidades do público naquele momento. Para Debord

"O espetáculo nada mais seria que o exagero da mídia, cuja natureza, indiscutivelmente boa, visto que serve para comunica, pode às vezes chegar a excessos. Freqüentemente, os donos da sociedade declaram-se mal servidos por seus empregados midiático; mais ainda, censuram a plebe de espectadores pela tendência de entregar-se sem reservas, e quase bestialmente, aos prazeres da mídia". (2002, p. 171)


A realidade tem pouca importância na transformação do episódio nefasto em espetáculo, o que vale é sua possibilidade de gerar entretenimento. A força da mídia se estabelece no uso da linguagem adaptada à determinada ocasião e interesse. Costa Lima citando Schlegel alega

"No uso corrompido da linguagem, verossímil, significa tanto quase verdadeiro ou um pouco verdadeiro ou o que ainda pode se tornar verdadeiro. Mas tudo isso a palavra, de acordo com sua formação, não pode designar. O que parece verdadeiro não precisa, por isso, e em grau algum, ser verdadeiro; mas deve positivamente parecer." . (2000, p. 60)

Os veículos de informação alimentam o público com o entretenimento. A possibilidade de novelização do fato e sua capacidade de manutenção do interesse público é que determinam o grau de exposição e duração da crise na mídia. Tudo pode vir a ser notícia, os veículos e informação se aproveitam do evento, adaptando-os de acordo com seu interesse e com sua linha de atuação. Gabler conclui que

" Só que se a televisão transformou em notícia qualquer coisa que tivesse os rudimentos de entretenimento, também transformou em entretenimento tudo aquilo que tivesse rudimentos de notícia. Na verdade, para a televisão, assim como para os tablóides, o mundo passou a ser visto como uma fonte inesgotável de matéria prima passível de ser processada em programação". (1999, p.81)

Os casos O. J.Simpson (1994), Lady Di (1997), Mônica Lewinsky (1998), Eron (1999) e na versão brasileira os casos como PC Farias (1996), Shell Paulínia (2001), Suzane Richthofen (2002) e outros, são demonstrativos da atuação da mídia na capitulação de eventos com potencial para alimentar os interesses do capital e do entretenimento.

O uso da tragédia como viés do entretenimento não é novidade. O poeta Juvenal citava em seus escritos o hábito do "pão e circo". A diferença para o mundo contemporâneo está não só na velocidade da informação, mas na capacidade de incluir o privado como ampliador da tragédia e transformá-lo em fenômeno mundial.

Conclusão

Entendemos que os processos que podem levar uma empresa ou pessoa a terem suas vidas vasculhadas na intimidade e expostas ao escrutínio público, como fonte de passatempo, não é de maneira alguma fenômeno exclusivo da pós-modernidade. Mas a capacidade de levar estes eventos a monopolizadores da atenção do público, através da velocidade da informação, da vigilância sinóptica sobre o comportamento e da fuga da rotina através do trágico ou inusitado, só se tornou possível com o desenvolvimento tecnológico alcançado pelo homem, característica exclusiva da contemporaneidade.

Os antigos sistemas regulamentadores da valorização das empresas e pessoas mudaram com as imposições da tecnologia, transformando a comunicação numa ferramenta imprescindível e poderosa para o tecido social.
A correspondência da realidade com as necessidades da mídia fizeram da superficialidade uma exigência da velocidade, num circulo onde impera o sórdido, o caótico e o imoral e no qual todos são prisioneiros e parceiros das suas necessidades.

Bibliografia

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2) BAUDRILHARD, Jean. A transparência do mal: ensaios sobre os fenômenos extremos. 3a. ed. Campinas, Papirus, 1996.

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4) BAUDRILHARD, Jean. Simulacros e Simulações. Lisboa, Relógico D'Água, 1991.

5)BAUDRILHARD, Jean. A transparência do mal: ensaios sobre fenômenos extremos. Campinas, Papirus,1996.

6) BAUMAN, Zigmut. Modernidade líquida. Rio de Janeiro, Jorge Zahar,2001.

7) JAPIASSU, Hilton. Nem tudo é relativo: a questão da verdade. São Paulo, Letras, 2001.

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9) JAPIASSU, Hilton. Nem tudo é relativo: a questão da verdade. São Paulo, Letras, 2001.

10) 2) BAUDRILHARD, Jean. A transparência do mal: ensaios sobre os fenômenos extremos. 3a. ed. Campinas, Papirus, 1996.

11) 3) TRIVINHO,Eugênio (org). Sérgio Dayrell Porto. A incompreensão das diferenças:11 de setembro em Nova York. Brasília,IESB, 2002.

12) DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro, Contraponto,2002.

13) LIMA, Luiz Costa. Mimesis:desafios ao pensamento. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000.

14) GABLE, Neal. Vida,o filme. São Paulo, Companhia das Letras, 1999.