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Artigo
As brigas que rondam a assessoria de comunicação
Daniela Jesus Almeida
Jornalista, mestranda em Comunicação
Social da UMESP
Quem deve assumir a assessoria de comunicação: o profissional
de relações públicas ou o jornalista? Assumindo a
cadeira de assessor, este profissional esta a serviço do grande
público que se interessa pelas informações a serem
divulgadas ou a serviço exclusivamente do seu cliente? O assessor
é considerado um jornalista? Estas são questões que
há tempos se discute, mas ainda sem uma resposta definitiva. Por
isso, quis com esse artigo, apenas traze-las mais uma vez á tona,
já que ainda há muito que se questionar. É um tema
importante, pois muitas das informações que recebemos todos
os dias podem estar saindo desse profissional. Em primeiro lugar, acredito
ser necessário especificar teoricamente a que compete cada um desses
profissionais.
Sabe-se que ao relações públicas, segundo PINHO (1990),
compete avaliar as atitudes de um determinado público, identificando
os procedimentos de forma individual ou da organização na
busca do interesse do público, além de planejar e executar
um programa de ação para conquistar a compreensão
e a aceitação pública.
Portanto, é responsável por criar e manter uma imagem pública
e principalmente positiva de empresas, instituições ou órgãos
governamentais. O profissional trabalha - através da comunicação
- as relações internas e externas da organização,
informando aos funcionários e ao público do que a empresa
realizou e do que pretende realizar. Para divulgar tais informações,
mantém contato com diversos veículos de comunicação
e realiza atividades de integração da empresa com a comunidade.
É responsável pelo trabalho de pesquisa onde irá
coletar dados que apresentem indícios das necessidades da empresa
e do público, para que assim, possa planejar ações
satisfatórias para todos. Essa atividade ainda se confunde muito
com a propaganda, já que, de uma forma ou de outra, acaba buscando
colocar sempre a empresa em evidencia positivamente.
Já o jornalismo, dentro da grande imprensa, segundo MARQUES DE
MELO (1985, p. 10-11), "é concebido como um processo social
que se articula a partir das relações (periódica
oportuna) entre organizações formais (editoras/emissoras)
e coletividades (públicos receptores), através de canais
de difusão (jornal/revista/rádio/televisão/cinema)
que asseguram a transmissão de informações (atuais)
em função de interesses e expectativas (universos culturais
ou ideológicos)". Dessa forma, a essência do jornalismo,
na concepção do autor, é, historicamente, a informação,
"aí compreendido o relato dos fatos, sua apreciação,
seu julgamento racional" (MARQUES DE MELO, 1985, p. 58).
São profissões que têm funções e atividades
essencialmente diferentes, embora exista uma vinculação
original. A prática de relações públicas tem
sua origem na divulgação de informações para
a imprensa, a partir do interesse surgido, no início do século
XX, de empresários interessados em agir politicamente na esfera
pública (Habermas, 1984, p. 226). O pioneiro desta prática
acaba funcionando como um bom exemplo. Ivy Lee, um ex-jornalista, estabeleceu
um sistema de relacionamento com a mídia para promoção
de seus contratados e atendimento ao jornalista que veio ajudar a dar
as bases do que seriam as relações públicas. Ivy
Lee, ao fazê-lo, não era considerado um jornalista, mas um
divulgador. A prática das organizações manterem um
bom relacionamento com diversos públicos acabou consolidando-se
e sendo representada na profissão de relações-públicas.
Ivy Lee, sintomaticamente, passou a ser considerado por muitos, o Pai
das Relações Públicas.
Mas é exatamente quando o jornalista assume essa função
de assessor de imprensa, que começa a guerra entre os profissionais,
principalmente da parte do relações públicas que
diz que essa é a sua função: cuidar da divulgação
da empresas também para a imprensa. Um bom exemplo que mostra onde
essa "briga" mais acontece é na publicação
do jornal interno da empresa: o "House Organ" . Quem deve ser
o responsável por essa publicação? O jornalista deve
escrever e o RP deve organizar o material?
Um dado importante e que acaba contribuindo com essa situação,
é que a Federação Nacional dos Jornalistas propôs
que a atividade de Assessoria de Comunicação Social "e
atividades análogas praticadas pelo meio de comunicação
internet" seja função jornalística (Jornal da
ABI, 2001), conforme texto de Anteprojeto de Lei encaminhado ao Congresso
Nacional para ser discutido e convertido em Lei.
Um estudo realizado pelo jornalista e relações pública,
Jorge Duarte e pela relações públicas, Márcia
Duarte, "Papel e atuação de jornalistas e relações-públicas
em uma organização, segundo jornalistas", mostra claramente
alguns pontos que podem responder a este impasse. Segundo alguns dos resultados
obtidos, conclui-se afirmando que "é clara a sobreposição
de ações" entre as duas profissionais, embora cada
uma seja específica a sua área de atuação.
Também verificou-se que "o trabalho técnico de jornalismo
deve ser executado por jornalista. Porém, é fundamental
que as técnicas de jornalismo sejam utilizadas no desenvolvimento
das ações de relações públicas",
para concluir que as duas atividades estão "interligadas"
e que as duas categorias não deveriam deflagrar discussões
a partir de interesses classistas, mas unir esforços "para
a melhoria da Comunicação com base nas convergências
existentes".
A análise ainda revelou que os jornalistas, em sua maioria, não
conhecem a atividade de relações públicas O jornalista
foi, em sua maioria (60%), incapaz sequer de fazer uma tentativa de definir
este papel e atribuições. Ao mesmo tempo, apresentam-se
mais como responsáveis pela formação da imagem da
organização do que pela informação do público.
Já quanto ao papel identificado como sendo específico do
relações-públicas, percebe-se que "é
o do 'criador' da 'imagem institucional', sendo praticamente esta a única
função que lhe é atribuída. Não fica
clara a dimensão que atribui a esta 'criação', até
porque o jornalista também assume a responsabilidade pela imagem
da instituição. Para cumprir sua responsabilidade, o relações-públicas
utiliza-se da promoção de eventos e de outras ações
pontuais para construir, promover, preservar o bom nome, marca, conceito
da organização (todas expressões utilizadas como
sinônimo de imagem). As demais atividades caracterizadas como típicas
do profissional de relações públicas estão,
na verdade, indiretamente ligadas à necessidade de se criar, transmitir
e preservar a idéia da 'boa imagem institucional', termo cujo sentido
não é explicitado, mas cujo contexto sugere relação
com 'apresentação, maquiagem, visual', não implicando,
necessariamente, em que o conteúdo seja bom. Instrumentos como
house organ são identificados como exclusivos dos jornalistas.
O relações-públicas pode colaborar eventualmente
na produção, fornecendo informações consideradas
típicas da profissão como aniversariantes do mês,
datas comemorativas, eventos sociais etc. A principal atribuição
do RP seria a organização de eventos não-jornalísticos,
destinados à promoção da empresa e do seu bom conceito.
Os respondentes deixam claro que os eventos onde haverá um envolvimento
e um contato direto com a mídia são de responsabilidade
do jornalista da organização, como a realização
de entrevistas coletivas, a exposição de membros da diretoria"
(DUARTE. J; DUARTE. M, [s/d]).
E esta é a primeira das brigas. Uma segunda "batalha é
travada" entre o jornalista que assume a assessoria e a grande imprensa.
De antemão, é importante saber que a assessoria de comunicação
tem o objetivo de projetar o seu cliente nos veículos de comunicação,
sejam eles jornais, revistas ou mesmo na mídia eletrônica.
Fazendo contatos, elaborando Press-releases, enviando sugestões
de notas e pautas, enfim, fazendo este contato Empresa/veículos
de comunicação. Algumas fazem até os clippings (material
divulgado pela imprensa a respeito do cliente) para que a empresa que
contratou os serviços fique a par dos serviços prestados
pela assessoria.
Quando o jornalista assume este posto, também se depara com outro
obstáculo: a relação mal resolvida entre ele, - um
jornalista- e o jornalista de redação. Essa relação
também é bem complicada porque cada um vê a situação
sob seu ponto de vista. Uma falta de orientação acaba provocando
conflitos entre repórter (no caso jornalistas de diversas áreas
de comunicação) e assessores. O trabalho que poderia ser
aliado na busca de um bom desempenho nas duas áreas acaba se tornando
uma guerra. A guerra é resultado de uma transformação
pela qual a imprensa passou no transcorrer do golpe militar em 1964. Época
em que se instalou no país a modernização das empresas
de comunicação.
De um lado, a redação, dizendo que o assessor não
é jornalista, pois divulga somente uma versão: a do seu
cliente. Isso se deve pela maneira como a assessoria se proliferou no
país. Durante as mudanças políticas e econômicas
transcorridas na época militar tornou-se presente um novo modelo
de jornalismo, que chegou ao mercado para divulgar versões oficiais
- os assessores de imprensa.
Uma pesquisa divulgada em abril de 2004 pelo site de comunicação
"Comunique-se", intitulada "As assessorias na visão
dos jornalistas", notou-se exatamente isso. Na opinião dos
profissionais que trabalham em redações, os assessores de
imprensa não são parceiros porque se comprometem com os
interesses de seus clientes. Deste total, apenas 16,1% acham que as assessorias
atuam como elo entre as empresas e a imprensa, embora 85% dos 1261 jornalistas
tenham dito que, para tentar falar com um entrevistado, recorrem à
sua assessoria de imprensa.
Também entra a questão do salário. A assessoria é
hoje um dos campos que mais cresce no jornalismo. Está abrindo
as portas para os profissionais cansados do stress das redações
e para os recém-formados. Isso muitas vezes causa ciúmes
entre os repórteres e profissionais da grande imprensa, pois acreditam
que os assessores quase não trabalham, ganham muito e ainda atrapalham
o serviço deles.
Do outro lado tem os assessores. Eles se dizem ser jornalistas e gostam
de ser tratados desta maneira, já que muitos trabalharam ou trabalham
na grande imprensa, sabendo como devem proceder.
É uma questão difícil de se resolver, ambos não
conseguem aceitar e respeitar o trabalho alheio de forma pacífica.
O ideal seria que cada um conhecesse o campo de atuação
do outro para ter um bom resultado em seu trabalho. No caso dos assessores
de imprensa, precisam conhecer muito bem as estruturas de funcionamento
de cada um dos veículos de comunicação e o perfil
de seus respectivos profissionais. Sob a pressão de deadlines,
(horários controlados), de plantões cansativos e remunerações
inadequadas, os jornalistas vivem ainda conflitos diários de consciência
ao lidar com a possibilidade de apresentar para a sociedade inverdade
ou omissões que possam provocar transtornos ocasionais à
própria comunidade.
Conhecendo esta rotina, o assessor poderá refletir e analisar o
que e quando enviar seu material para publicação e/ou veiculação
sem atrapalhar ou ser considerado um chato. Por outro lado, o jornalista
de redação também deve conhecer e reconhecer o serviço
e a importância de uma assessoria de imprensa. Muitas vezes, é
só a partir deste órgão que os repórteres
conseguem suas entrevistas, informações e até o próprio
assessor pode acabar se tornando a sua fonte.
Referências
ASSESSORES são avaliados por jornalistas. Comunique-se. São
Paulo, 16 de abril de 2004. Seção Primeiro Caderno. Disponível
em <http://www.comunique-se.com.br>. Acesso em: 18 de abril de 2004.
DUARTE, Jorge e DUARTE, Marcia Yukiko Matsuuchi. Papel
e atuação de jornalistas e relações-públicas
em uma organização segundo jornalistas.
HABERMAS, Jügen. Mudança estrutural na
esfera pública: investigações quanto a uma categoria
:a sociedade burguesa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.
JORNAL DA ABI. Estatuto do Jornalista. Anteprojeto
de Lei: aprova o Estatuto do Jornalista e adota outras providências.
Associação Brasileira de Imprensa. Novembro/Dezembro/2001.
pg. 11
MARQUES DE MELO, José. A opinião no jornalismo
brasileiro. Petrópolis: Ed. Vozes, 1985.
PINHO, J.B. Propaganda institucional: Usos e funções
da propaganda em Relações Públicas. 4º
edição. São Paulo: 1990.
RODRIGUES, Cláudia. Assessoria de imprensa: desconfiem,
desconfiem. In: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/jd05072000.htm#debates02.
Capturado em 21 de abril de 2004.
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