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Artigo
As Relações Públicas e os Serviços
de Atendimento aos Consumidores
Marcello Chamusca, estudante de Relações
Públicas; assessor de comunicação (voluntário)
da ONG AESOS-Associação Educacional Sons no Silêncio;
aluno-pesquisador da Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC/Salvador)
e organizador do Portal RP-Bahia (www.rp-bahia.com.br).
Márcia Carvalhal, estudante de Relações Públicas;
assessora de comunicação (voluntário) da ONG AESOS-Associação
Educacional Sons no Silêncio; aluna-pesquisadora da instituição
de ensino superior Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC/Salvador).
Resumo
Este artigo se propõe a discutir a importância do uso de
relações públicas na relação da organização
com o público usuário (cliente-consumidor), a partir dos
Serviços de Atendimento ao Consumidor (SAC's). Pretende ainda estabelecer
a imprescindibilidade do desenvolvimento de ações estratégicas
com o público interno para a manutenção da qualidade
dessas relações.
Introdução
A necessidade do uso de relações públicas com o consumidor
é cada vez mais clara entre os profissionais que atuam nos setores
de atendimento e relacionamento com esse público. Primeiro porque
o fazer da atividade de relações públicas envolvem
estudos e pesquisas que englobam não só a relação
direta da empresa com o seu público usuário (cliente/consumidor),
mas, ações com os públicos internos, responsáveis
diretos pelo atendimento que o cliente recebe independentemente do canal
de comunicação utilizado para acesso a empresa.
Tendo em vista que algumas características da sociedade contemporânea
têm formatado um novo tipo de consumidor, muito mais exigente, seletivo
e com alto grau de insatisfação intrínseca, e ainda
que o advento das legislações de proteção
à prática do consumo enfatizou essas características,
percebemos que há uma necessidade de desenvolvimento de estratégias
comunicacionais e administrativas cada vez mais elaboradas para manter
a saúde e a competitividade de uma empresa no mercado.
Nesse sentido, este trabalho que é fruto de uma investigação
realizada do processo de relacionamento das empresas com os seus usuários
(clientes/consumidores), a partir dos SAC's, torna-se, não apenas
importante, mas essencial para os estudantes e profissionais de comunicação,
sobretudo, os de Relações Públicas, já que
a sua função principal é a gestão da imagem
institucional e dos relacionamentos entre a organização
e seus públicos.
O nosso objetivo geral de pesquisa foi o de descrever a atuação
dos SAC's das empresas de diversos setores que atuam em Salvador/BA, identificando
as relações dessas empresas com os seus clientes/consumidores
e as estratégias de comunicação adotadas.
Características do consumo e a relação
empresa-consumidor-órgãos de defesa
Numa sociedade midiática, como a que vivemos, sabemos que as pessoas
não adquirem produtos ou serviços apenas por necessidade,
pela qualidade ou pelo preço que está sendo ofertado, muito
menos pela relação custo-benefício que aquele bem
possa oferecer. Claro que esses itens são importantes e decisivos
na hora da compra, mas, uma compra pode ser efetivada por muitas outras
razões de valor meramente simbólico.
Os valores simbólicos, intangíveis, têm conquistado
espaços cada vez maiores em nossas vidas, especialmente pelo constante
bombardeamento da propaganda e da publicidade, e muitas vezes, mesmo que
a característica da intangibilidade ainda seja difusa e ambígua,
esses valores são determinantes na hora de nos decidirmos pela
compra de um produto ou pela contratação de um serviço.
Por sua vez, geralmente - se não criados - tais valores são
estimulados pela grande mídia, que utiliza, de forma cada vez mais
incisiva, elementos persuasivos e figuras de retórica na sua linguagem
publicitária, com a intenção de promover novos hábitos
e costumes, influenciando o comportamento dos seus públicos, tanto
quanto a necessidade de sua adaptação aos novos benefícios
(e efeitos colaterais) trazidos pelos produtos e serviços desenvolvidos
pelas empresas anunciantes.
Em uma pesquisa realizada pela Unity Marketing Consultoria, publicada
na Revista Você S/A (2005), foram detectadas 14 razões pelas
quais as pessoas compram produtos de que não precisam. A principal
razão apontada pela população pesquisada (classe
média norte-americana) foi a 'qualidade de vida', mas, há
que se destacar também os itens 'prazer', 'entretenimento', 'satisfação
emocional', 'aliviar o estresse' e 'status' que constituem respostas espontâneas
dos entrevistados e parecem apontar para uma busca de satisfação
ou de qualidade de vida que se situa além da simples necessidade.
Veja quadro completo abaixo:
14 razões pelas quais as pessoas compram produtos
que não precisam (em ordem decrescente de incidência):
Qualidade de vida
Prazer
Decorar a casa
Educação
Relaxar
Entretenimento
Compras planejadas
Satisfação emocional
Reposição de itens
Aliviar o estresse
Hobby
Se presentear
Comprar por impulso
Status
Fonte: Revista Você S/A, edição
de número 81, de março de 2005, pág. 72.
Pesquisas como esta, levantam a seguinte questão: o consumo é
de fato inerente ao homem?
A respeito dessa questão Cesca e Cesca colocam o seguinte:
"Ao comprar um alimento, ao procurar um médico, ao contratar
um serviço, estamos sempre consumindo. Consumimos até mesmo
ao dormir, porque utilizamos o produto do trabalho de outras pessoas materializado
em nosso lençol, em nosso travesseiro, em nossa cama, em nossa
casa [...]. Somos todos consumidores e é quase impossível
escapar a essa condição - pelo menos numa sociedade organizada,
em que o homem não se relaciona diretamente com a natureza (LAZZARINI,
1999, p.7 apud CESCA; CESCA, 2000, p. 41)."
As afirmações dos autores e os resultados da pesquisa colocada
acima subsidiam as empresas no desenvolvimento de planos de marketing
cada vez mais eficientes, com uma comunicação personalizada,
tendo em vista a satisfação do cliente e seus mais íntimos
desejos; focada em segmentos, como crianças, jovens, idosos, mulheres,
dentre outros; nichos de mercado, como surfistas, skatistas, etc.; ou
ainda de forma massiva, com publicidade e/ou propaganda nos Meios de Comunicação
de Massa (MCM), mas sempre com apoio em pesquisas, conhecimentos e experiências
que dão sustentação as suas ações sejam
comunicacionais ou administrativas.
Uma das teorias mais utilizadas, tanto pelos profissionais de marketing,
quanto pelos de comunicação e administração,
no desenvolvimento de planos que visam à obtenção
dos objetivos organizacionais, é a Teoria da Motivação
(TM), de Maslow. Essa teoria diz que:
"O homem tem cinco necessidades: 1. fisiológicas: constituem
as básicas de seus desejos, como fome, sede; 2. segurança:
compreendem o medo do desconhecido, como falta de moradia, receio de perder
o que já foi conseguido; 3. efetivas: que surgem depois de satisfeitas
as anteriores, ou seja, o homem quer ser aceito pelo grupo ao qual pertence,
família, seus colegas de trabalho e de lazer; 4. estima: após
atingir as necessidades efetivas, o homem almeja o prestígio, o
status, o reconhecimento de todos que o cercam; 5. realização:
quando o indivíduo está com todos os outros níveis
satisfeitos, procura a realização, deseja desenvolver toda
a sua especialidade no campo profissional, deseja ser o melhor (CESCA;
CESCA, 2000, p. 40)."
Entretanto, para uma melhor interpretação dos resultados
da nossa pesquisa e uma melhor contextualização do nosso
objeto de estudo, é mister compreendermos melhor essa teoria. Uma
pequena subdivisão nas cinco necessidades sistematizadas por Maslow
nos permite chamar de 'necessidades' apenas os dois primeiros itens, as
necessidades fisiológicas e de segurança, têm a ver
com algo imprescindível a todos os homens, independentemente de
influências culturais por meio das relações sociais
estabelecidas. As outras, as 'afetivas', as de 'estima' e de 'realização',
chamaremos de 'desejos', pois, segundo nosso ponto de vista, transcendem
as questões meramente físicas e se inserem no plano da composição
dos hábitos e costumes da sociedade que aquele indivíduo,
especificamente, faz parte.
Se, de um lado, as empresas investem cada vez mais na relação
com os seus clientes, criando canais de comunicação em via
de mão dupla para tentar entender as suas verdadeiras necessidades
e desejos, de outro, o consumidor tem estado cada vez mais atento aos
seus direitos, exigindo, inclusive, do Estado, políticas públicas
voltadas à regulação dos mecanismos de mercado e
da comunicação de massa.
No Brasil existe um conjunto de regras bastante avançado que rege
essa relação empresa-consumidor desde os anos 90. É
o Código de Defesa do Consumidor (CODECON), Lei no. 8.078, de 11
de setembro de 1990, sancionada pelo então Presidente da República
Fernando Collor de Mello. Por meio do Decreto Lei no. 2.181, de março
de 1997, o Presidente Fernando Henrique Cardoso instituiu o Sistema Nacional
de Defesa do Consumidor (SNDC), que regulamentava a lei criada em 1990,
estabelecendo normas e aplicações de sanções
administrativas.
Entendemos que esse período marcou uma nova fase na relação
entre empresa-cliente/consumidor. A partir do SNDC, a relação
direta com o cliente deixa de ser uma questão meramente comercial
e se transforma em um elemento estratégico para a sobrevivência
das empresas no mercado. A reclamação do cliente deixava
de ser apenas uma "chatice" e uma possibilidade de prejuízos
de imagem e passara a representar uma ameaça de se transformar
em ação judicial, conjugada com pedidos de grandes indenizações
e, conseqüentemente, fortes perdas para os cofres da organização.
Nesse sentido, a concepção de atendimento aos clientes começa
a ser repensada e colocada em destaque nos planejamentos de marketing
e de relações públicas das empresas. João
Alberto Ianhez (1990, p.3) acredita que "esse tipo de atividade pela
sua importância exige uma visão global de relações
com todos os públicos da empresa e, sendo assim, deveria estar
ligada ao principal executivo de relações públicas
e este, ligado à presidência". Segundo Cesca e Cesca,
os conflitos existentes entre empresa-cliente/consumidor, mediados pelos
órgãos de defesa,
"podem ser evitados ou administrados com um programa de relações
públicas que atenda aos seguintes aspectos: a) divulgar a empresa
entre os consumidores; b) abrir a empresa para programas de visitas; c)
responder a todas as perguntas dos consumidores; d) oferecer produtos
honestos a preços justos; e) veicular propagandas honestas; f)
treinar as pessoas que irão atender os consumidores que se sentem
lesados ou buscam informações; g) ouvir, com disposição,
as reclamações dos consumidores; h) garantir ao consumidor
a qualidade daquilo que ele adquiriu, sob pena de restituir-lhe o pagamento,
se o que foi comprado não corresponder à sua finalidade;
i) atender às pretensões dos consumidores reais e potenciais
(CESCA; CESCA, 2000, p. 52)."
Cesca e Cesca apontam que, com esse novo quadro,
"muitas empresas criaram os seus Serviço de Atendimento
ao Consumidor (SAC's), até porque com o código vigendo,
as sanções vão muito além de prejuízo
de imagem, chegando a pesadas multas e até mesmo a prisão
(CESCA; CESCA, 2000, p. 55)."
Os SAC's, portanto, surgem da demanda das empresas de atender os clientes
com presteza, tanto para dar conta da nova postura de cliente-cidadão
desenvolvida pelos novos consumidores, muito mais exigentes e questionadores
dos seus direitos, quanto para atender às novas regras jurídicas
trazidas pelo CODECON e pelo SNDC.
Cesca e Cesca defendem que os SAC's, em linhas gerais, têm como
principais finalidades:
"1) permitir ao consumidor um contato direto com a empresa, por
meio de alguém que está ali especialmente para ouvi-lo;
2) ganhar a preferência do consumidor nas próximas compras,
como decorrência de um atendimento personalizado, independentemente
da localidade de onde ele esteja; 3) evitar que o consumidor recorra aos
órgãos de defesa oficiais, resguardando a empresa de prejuízo
de imagem e conceito; 4) colher sugestões e críticas que
permitirão à empresa o aprimoramento dos seus serviços/produtos;
5) manter a empresa informada quanto à satisfação
dos consumidores com relação a seus produtos e/ou serviços;
6) mostrar ao consumidor que ele poderá ter respaldo, antes e depois
de efetuar a compra; 7) responder a todos os questionamentos, seja pessoalmente,
por telefone, e-mail, fax ou carta, com rapidez e eficiência; 8)
solucionar todas as reclamações dos consumidores, desde
que sejam procedentes; 9) criar um sistema permanente de pesquisa; 10)
criar um banco de dados; 11) tratar o consumidor com cortesia, sempre;
12) respeitar todos os direitos do consumidor constantes no Código
de Defesa do Consumido (CESCA; CESCA, 2000, p. 63)."
Já os setores de um SAC podem ser:
"1) Setor de reclamações: recebe todas as reclamações
relativas a produto/serviço da empresa e faz os encaminhamentos
necessários para a sua solução. 2) Setor de atendimento
a cartas, e-mails e fax: responde a todas as solicitações
com preocupação na qualidade das respostas; cada solicitação
deverá ter uma resposta individualizada. 3) Setor de atendimento
telefônico: com horário definido, equipe permanente com treinamento
constante para satisfazer o consumidor, respondendo a todas as perguntas.
4) Setor de produção de material: produz manuais, folders,
folhetos e outros, podendo ser um setor com serviço terceirizado.
5) Setor de eventos: organiza todos os eventos necessários, como:
café da manhã, programa de visitas, lançamentos de
concursos, entrega de prêmios, encontros específicos e outros
que se fizerem necessários. 6) Setor de pesquisa: realiza todas
as pesquisas necessárias, coordenação de cadastros
e contatos com consumidores e líderes de opinião. 7) Setor
de serviços experimentais: para aquelas empresas ligadas principalmente
ao ramo alimentício, como cozinha experimental (CESCA; CESCA, 2000,
p. 63-64)."
Percebemos, portanto, que o SAC tornou-se um valor imprescindível
a ser agregado aos produtos e/ou serviços oferecidos pelas empresas.
Esse valor agregado, no entanto, não representa exatamente um problema.
Muito pelo contrário. Aquelas empresas que sabem utilizar os seus
SAC's para tentar entender os equívocos existentes nos seus processos
produtivos e administrativos, podem estabelecer, a partir das queixas
e reclamações dos clientes, níveis altíssimos
de eficiência e eficácia das suas operações
comerciais e, conseqüentemente, dos seus lucros e da sua competitividade
no mercado.
Segundo Ianhez (1990, p.4), "apenas 10% dos clientes insatisfeitos
reclamam formalmente, inclusive em países nos quais existe uma
legislação avançada de proteção ao
consumidor. Os restantes 90% dos clientes insatisfeitos vão em
busca de empresas concorrentes".
Nesse sentido, a empresa que utiliza bem as informações
geradas a partir das queixas e reclamações dos seus SAC's
e implementa as mudanças necessárias ao atendimento dos
desejos do seu cliente/consumidor, pode estar deixando de perder não
apenas os 10% que reclamam, mas também, os outros 90% que não
reclamam e que, por sua vez, procurariam a concorrência em busca
da sua satisfação.
Para um bom aproveitamento das informações dos SAC's, entretanto,
é de suma importância que ele esteja subordinado a um setor
que tenha habilidades naturais para lidar com os públicos. A esse
respeito, Cesca e Cesca fazem a seguinte colocação:
"Consideramos imprescindível a posição do
SAC junto ao setor de Relações Públicas e, na ausência
deste, de um setor com outra nomenclatura que exerça as suas atividades,
situação esta, infelizmente, muito comum no Brasil (CESCA;
CESCA, 2000, p. 60)."
As informações provenientes dos SAC's podem representar
muito mais que simples equívocos administrativos, desde que sejam
interpretadas por profissionais qualificados em antever crises, seja a
partir de indícios ou da reincidência de queixas que possam
afetar a imagem da organização. Uma crise prevenida pode
poupar a empresa, além de prejuízos relativos às
imagens institucional e corporativa, de despesas desnecessárias
e, conseqüentemente, de perdas de lucratividade e competitividade
no mercado.
A antevisão de crises de imagem institucional
e corporativa a partir dos SAC's
Os SAC's são um importante instrumento para detectar a latência
e evitar possíveis crises nas empresas. A partir das queixas e
reclamações dos clientes é possível identificar,
por exemplo, boatos que possam afetar a imagem e a credibilidade de uma
organização ou até mesmo mitos propalados pela mídia,
como o perigo de explosão dos celulares.
As grandes empresas desenvolvem esquemas de gerenciamento de crises bastante
avançados, em que o atendimento ao cliente tem função
estratégica, tanto em detectar possíveis problemas que possam
se transformar em crises, quanto na condição de canal de
acesso direto ao consumidor, pela posição privilegiada de
estar na ponta do atendimento e poder transmitir informações
qualificadas para esse público.
Mario Rosa em A síndrome de Aquiles coloca, com muita propriedade,
que,
"As crises de imagem se sucedem na rotina de nossas vidas, uma
após a outra, variando de personagem para personagem, na dinâmica
por vezes alucinante da vida real. Quando se está dentro de uma
crise, sem saber direito como enfrentá-la, sem dispor de mecanismos
para aferir sua evolução ou mensurar seus desdobramentos,
é só aí, infelizmente, que muitos se dão conta
de que bem melhor teria sido agir antes, muito antes, para que aquele
verdadeiro inferno não estivesse acontecendo (ROSA, 2000, p.19)."
Nesse sentido, o gerenciamento das informações geradas pelas
queixas e reclamações de consumidores insatisfeitos através
dos SAC's, torna-se um elemento que merece, da alta direção
das empresas, uma grande atenção e, sobretudo, empenho para
que sejam criados processos e dispositivos metodológicos que permitam
a análise de crises latentes.
Rosa (2000) nos chama atenção para o fato de que "o
sucesso não é um antídoto de crises. Ao contrário,
funciona muitas vezes como um passaporte para elas. Por maiores que sejam
a seriedade, ética e honestidade que você ou sua organização
tenham".
A monitoração constante das informações dos
SAC's, portanto, se faz necessária, mesmo quando a empresa vai
bem, os lucros estão consolidados, a mídia espontânea
está a seu favor, enfim, ainda que tudo esteja tecnicamente sob
controle.
Uma crise de imagem se diferencia das demais crises, segundo Ian Mitroff,
um dos maiores estudiosos do tema, essencialmente, pelo seu agente provocador:
o homem. Isso torna tudo mais difícil, chamativo e perigoso. Mitroff
explica que quando uma crise é causada por um desastre natural
não se pode culpar ninguém. Entretanto, quando a falha é
humana, imagina-se, em princípio, que o desastre poderia ter sido
evitado e procura-se sempre um culpado para responsabilizar (ROSA, 2000).
É importante colocar que as crises de imagem são sempre
simbólicas, ou seja, transcendem as questões técnicas
e operacionais sobre as quais uma organização pode manter
o controle. "Quando vem a público a história de que
se encontrou uma pílula anticoncepcional de farinha, não
se trata apenas de uma falha isolada de um laboratório - isso aumenta
a preocupação que todos temos sobre a qualidade dos medicamentos
que ingerimos e ministramos aos nossos entes mais queridos" (ROSA,
2000, p. 27).
A valor simbólico que está por trás do fato é
muitas vezes mais forte do que o fato em si. Nesse sentido, as reclamações
registradas pelos SAC's devem ser analisadas enquanto expressão
de valores por parte dos usuários, com a finalidade de se entender
o que sustenta aquela reclamação e qual a verdadeira razão
que motivou o cliente a apresentá-la.
Nesse sentido, os canais disponibilizados pelos SAC's deveriam favorecer
o maior grau de interação possível dos clientes com
a empresa, tendo em vista o aprofundamento das informações
disponibilizadas para análise pelos seus gestores.
No entanto, de nada adiantará um bom entendimento das informações
geradas pelos SAC's, se essas informações não forem
bem utilizadas pela organização para melhorar seus processos
comunicativos, administrativos e produtivos, visando a qualidade da relação
com os seus públicos. Essa condição irrestrita nos
remete à necessidade de utilização de estratégias
de relações públicas para a manutenção
de um relacionamento forte e duradouro com os nossos públicos prioritários
e de interesse, tais como o público consumidor, especialmente na
área de serviços, que demanda forte comprometimento do público
interno, o pessoal do atendimento.
A necessidade de relações públicas
estratégicas com o consumidor
Para entendermos a função estratégica das relações
públicas no processo de gestão de relacionamentos desenvolvido
pelos SAC's de uma grande empresa, será preciso estabelecer a sua
relação mais importante, que constitui o núcleo da
atividade de RP: a relação Organização-Públicos.
Neste binômio, estão todas as conexões das relações
sociais das organizações e sua complexidade (SIMÕES,
1995).
Podemos dizer que as funções estratégicas das relações
públicas, de um modo geral, são as de gerenciar as políticas
da organização e conduzir os seus discursos para com os
públicos, diferenciando-os, estrategicamente, em relação
ao seu posicionamento perante o poder da organização, e
visando sempre o interesse comum como um pressuposto do interesse específico
de legitimar o poder decisório da organização frente
aos seus diversos públicos.
Em relação aos SAC's, o processo estratégico de relações
públicas estará focado em dois grandes grupos: o público
interno (todos os funcionários, inclusive os de direção
e os terceirizados) e o usuário (cliente/consumidor).
Para o público interno, o Relações Públicas
deve trabalhar estrategicamente com programas de qualificação
profissional e aprimoramento dos processos de atendimento e processamento
das informações recebidas através dos SAC's. É
importante estabelecer para esses públicos canais de comunicação
em via de mão dupla, para que qualquer pessoa envolvida no processo
possa tirar dúvidas, criticar e/ou sugerir mudanças no sentido
de melhorar o andamento dos trabalhos, e, conseqüentemente, a qualidade
dos serviços prestados pela organização ao seu público
usuário (cliente/consumidor).
Não podemos perder de vista, nem por um instante, que o funcionário
é um público essencial para a existência da empresa,
portanto, precisa ser conquistado. Segundo Ianhez (1990), o grande aliado
da empresa na implementação de um novo e eficiente modo
de agir com o público consumidor é exatamente o funcionário,
que precisa se conscientizar da importância do cliente e obter treinamento
para lidar com ele.
Já o usuário, deve ser trabalhado no plano da cordialidade,
tentando se criar uma relação de afinidade deste usuário
com a marca da organização. A finalidade desse processo,
portanto, deve ser a fidelidade desse cliente à sua marca. Para
isso, é preciso que não faltem alguns elementos, como a
presteza, a cordialidade e a boa vontade em resolver os seus problemas,
quando forem apresentados.
Muitas vezes uma reclamação de um cliente significa que
ainda existe alguma chance de reverter o protesto em conquista de um cliente
fiel, que irá divulgar positivamente o nome da empresa. Para isso,
é necessário que as empresas criem dispositivos que permitam
ao cliente um maior nível de interação (IANHEZ, 1990).
Para que esses processos sejam implementados, as empresas devem trabalhar
as relações públicas em sua plenitude, pois o relacionamento
com o usuário deve ser permanente, não podendo a organização,
em nenhum momento, prescindir dele. Percebemos, porém, que muitas
vezes isso acontece devido à falta de conhecimento, por parte dos
executivos, da importância das relações públicas
nesse processo como atividade gestora da função política
da organização, produtora de instrumentos e institucionalizadora
de toda e qualquer comunicação, em via de mão dupla,
entre a organização e seus públicos.
Considerações finais
O bom relacionamento das empresas com os seus públicos, sobretudo
o público consumidor, tem se estabelecido, a cada dia, como um
dos principais elementos estratégicos do planejamento e do dia-a-dia
da sua administração, principalmente daquelas organizações
maiores e mais complexas.
As relações públicas por sua vez está voltada
para a formação e manutenção da imagem da
organização, buscando a cooperação dos públicos
para com as suas políticas e objetivos e cuidando permanentemente
da qualidade das relações da organizações
com os seus públicos.
Nesse sentido, percebemos que o uso de relações públicas
na relação da organização com o seu público
usuário (cliente/consumidor), a partir dos SAC's, não só
é interessante como imprescindível, pois garante a empresa
o estabelecimento de processos de gestão e controle da sua imagem
perante a opinião pública.
Referências
CESCA, Cleusa Gimenes; CESCA Wilson. Relação Empresa-Consumidor-Órgãos
de defesa. In: _______. Estratégias empresariais diante do novo
consumidor. São Paulo: Summus, 2000.
IANHEZ, João Alberto. A necessidade de Relações Públicas
com o consumidor. XIX Congresso Interamericano de Relações
Públicas e XI Congresso Brasileiro de Relações Públicas,
realizado em Florianópolis/SC, em 1990.
JACOMINO, Dalen. Porque você compra o que não precisa. Revista
Você S/A, São Paulo, n. 81, p.72, mar. 2005.
ROSA, Mário. A síndrome de Aquiles: como lidar com as crises
de imagem. Rio de Janeiro: Editora Gente, 2000.
SIMÕES, Roberto Porto. Relações Públicas:
Função Política. 5. Ed. Ver. Ampl. - São Paulo:
Summus, 1995.
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