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Artigo

Relações Públicas e a participação popular na Administração Pública Municipal. A experiência do modelo colaborativo implantado no bairro do Cajuru, em Curitiba
Lucélia Auriquio Newton e Maria José da Costa Oliveira, Curso de Comunicação Pública da Faculdade Metropolitana de Campinas

Resumo

O artigo expõe a experiência da implantação do Modelo Colaborativo no Bairro Cajuru em Curitiba no ano de 1999 e propõe a atuação das Relações Públicas na implantação e continuidade do modelo. O modelo colaborativo é um processo de participação da comunidade nas ações do poder público.
Palavras-chave: Relações Públicas, participação popular, poder público.

1- Introdução

Na última década é notável o crescimento da participação da sociedade civil na administração das cidades. Os gestores públicos têm procurado incentivar a participação dos cidadãos, visto que atender aos anseios da coletividade é garantia de qualidade na gestão pública. Recentemente também os agentes financiadores exigem propostas de participação da comunidade nos projetos financiados por eles.
Porém, a falta de experiências sistematizadas em mobilização popular traz dificuldades para o poder público que segue na busca de modelos mais eficientes de participação popular.

Curitiba implantou há quatro anos o Modelo Participativo de Colaboração - uma experiência de desenvolvimento comunitário centrado no cidadão.

Inicialmente, o modelo colaborativo foi desenvolvido no Bairro do Cajuru, onde se encontravam os maiores níveis de problemas sociais de Curitiba. A região concentra uma população de 32.000 habitantes. Para viabilizar o trabalho colaborativo a região foi dividida em 8 áreas e foram criados 8 grupos de colaboração local. Neste documento fazemos a exposição do trabalho desenvolvido nestas regiões no período de 1999 a 2003.

Durante todo o processo de implantação do modelo colaborativo não houve o acompanhamento de profissionais de comunicação ou, especificamente, de relações públicas. Os profissionais de comunicação só trabalharam em momentos pontuais quando necessária a divulgação do modelo e seus resultados junto aos veículos de comunicação. Portanto, este documento pretende sugerir alguns caminhos que podem ser trilhados pelas relações públicas no desenvolvimento comunitário, especificamente, no modelo colaborativo implantado na cidade de Curitiba. Não pretende de forma alguma ser definitivo, nem propor um modelo ideal, mas pretende, baseado nos trabalhos de relações públicas já desenvolvidos na área comunitária, transferir conhecimento e efetivar propostas de atuação.

FIGURA 1 - RELAÇÃO DOS GRUPOS DE COLABORAÇÃO LOCAL - REGIONAL CAJURU



FONTE: PMC/SMS/DS Cajuru (2002)
População estimada
1. Grupo de Colaboração Local Autódromo - 3.800 habitantes.
2. Grupo de Colaboração Local Vila Florianópolis - 4.150 habitantes.
3. Grupo de Colaboração Local Vila São João Del Rei - 4.498 habitantes
4. Grupo de Colaboração Local Andorinhas - 6.520 habitantes.
5. Grupo de Colaboração Local União Popular - 14.060 habitantes.
6. Grupo de Colaboração Local Vila São Paulo - 16.000 habitantes.
7. Grupo de Colaboração Local Jardim Savana - 360 habitantes.
8. Grupo de Colaboração Local Uberaba de Cima - 12.000 habitantes.

2- Referencial Teórico

Trabalhar colaborativamente, gestão compartilhada, participação comunitária, estes são termos que vem se tornando mais comuns na última década. Portanto, não poderia deixar de iniciar este capítulo com a afirmação da Prof. Cicilia Peruzzo (1993, p.125-133):

"Hoje, teórica e praticamente, é possível falar de relações públicas populares, ou comunitárias, orgânicas às classes subalternas. Ou seja, de um trabalho de relações públicas comprometido com os interesses dos segmentos sociais subalternos organizados, ou num sentido mais amplo com o interesse público."

Ao definir a contribuição das relações públicas no processo do Modelo Colaborativo, devemos olhar para esta nova atuação das relações públicas que pressupõe o entendimento da importância da participação comunitária nas ações do poder público. Ainda é uma novidade para a maioria dos governantes a forma desta participação, mas não deve ser para nós profissionais de relações públicas que já trabalhamos há muito focados em públicos específicos, que já conhecemos a necessidade de diferentes instrumentos de comunicação para públicos diversos e a importância da comunicação pública, aproximando o poder público da comunidade e vice-versa.

Afirmando o crescimento desta participação popular, apresentamos a declaração de John Mac Knight - principal idealizador do ABCD (Desenvolvimento Comunitário Baseado em Valores) e responsável pela base conceitual do Modelo Colaborativo implantado em Curitiba (CURITIBA, 2002b, p.10).

Nos bairros das cidades e em pequenas comunidades rurais em todo o mundo existe um movimento crescente que está centrado no cidadão. Esse movimento reflete uma nova percepção de responsabilidade local por determinar e produzir o futuro. O movimento está crescendo por dois motivos: primeiro cada vez mais pessoas estão acreditando na democracia no mundo inteiro e esse movimento é a expressão local do compromisso com a democracia. Segundo, as pessoas que moram nas comunidades estão começando a entender as limitações que as grandes instituições têm na produção do seu bem-estar. Vêem cada vez mais provas de que sistemas comerciais, governamentais ou militares não são capazes de produzir comunidades saudáveis, embora possam ajudá-las.

Está ficando claro para as pessoas das comunidades em todos os lugares que são elas mesmas que deverão tomar a responsabilidade primária pelo seu futuro. E elas estão assumindo essa responsabilidade através da criação de organizações comunitárias que identificam e mobilizam as habilidades, capacidades, dons e sabedoria dos cidadãos locais. Uma vez estruturados esses grupos, as demais instituições poderão auxiliar na formação de uma visão centrada no cidadão. Contudo, instituições externas ao bairro não conseguem formar ali uma comunidade. Para ser efetiva, a comunidade precisa surgir de dentro, com cidadãos agindo com força e com responsabilidade. Assim, quem está fora poderá auxiliar efetivamente quem está dentro.

Com certeza, a vantagem do desenvolvimento local centrado no cidadão é que todo mundo sai ganhando a longo prazo. As pessoas das comunidades fortalecem suas capacidades de criar uma visão e de realizar ações significativas para transformá-las em realidade. Aprendem como agir coletivamente dentro de um processo democrático. Esse aprendizado cria um alicerce sólido para a democracia nos países em que vivem.

À medida que a comunidade cresce em termos de capacidade e segurança, as instituições maiores descobrem que colaborar com grupos locais faz com que seu trabalho tenha mais êxito. Assim, passam a ter um colaborador verdadeiro e forte, em vez de uma localidade repleta de pessoas alienadas. E, nesse novo ambiente de colaboração, estas instituições (ONGs, entidades filantrópicas, governo e iniciativa privada) aprendem a servir a sociedade, em vez de mandar nas localidades.

Desenvolvimento comunitário a partir das potencialidades existentes é um dos nomes dados a esse novo movimento, que se manifesta quando cidadãos organizados estão no centro da sociedade e as instituições locais apóiam a visão e as ações das organizações de moradores. É exatamente neste sentido que se dá a experiência desenvolvida em Curitiba, através do Modelo Colaborativo, numa parceria que envolve as três esferas da sociedade: o Estado, a iniciativa privada e a sociedade civil.

Analisando o texto acima, temos a certeza da tendência do crescimento da participação popular no futuro das localidades. E vemos a importância de mobilizar todos os valores, talentos, recursos de todos os interessados para uma mesma visão. Só a partir desta realidade é que podemos pensar as relações públicas e seu novo papel.

Segundo Durkhein (1968, p.38), "é à sociedade que devemos interrogar, são suas necessidades que devemos conhecer, já que é a essas necessidades que devemos satisfazer".

Esta afirmação pode nos levar a pensar que caberia então às relações públicas o planejamento e a aplicação de pesquisas quantitativas elaboradas para conhecer as necessidades da população orientando as ações do poder público e assim teríamos garantido o melhor futuro das localidades. E, na verdade, é isso que percebemos como atuação de diversos poderes locais, ou na comunicação política. Mas, esta fórmula está perdendo sua eficiência, basta ver o crescimento do número de organizações da sociedade civil criadas para uma interlocução mais adequada aos seus públicos.

Cicilia Peruzzo define: (1993, p.125-133) Relações Públicas populares, ou comunitárias, são aquelas comprometidas fundamentalmente com a transformação da sociedade e com a constituição da igualdade social.

Nesta definição, podemos então perceber que às relações públicas cabe um papel fundamental na transformação da sociedade e que aplicar suas técnicas no processo do Modelo Colaborativo pode trazer soluções eficazes.

Cicilia Peruzzo relaciona a participação popular à cidadania

"No centro desta temática está a questão da cidadania. Uma cidadania que realize a participação da pessoa humana enquanto sujeito, que pensa, propõe, discute, decide, constrói e usufrui. E, os profissionais de relações públicas, até enquanto cidadãos, com seu saber especializado podem dar sua parcela de contribuição na construção de uma sociedade que supere a degradação humana e a desigualdade social, e desenvolva uma cultura democrática e a própria democratização econômica, política e cultural (1993, p.125-133)."

Mais uma vez, as palavras da Prof. Cicilia Peruzzo lembram a contribuição que as relações públicas devem dar para um país mais democrático, com uma sociedade mais participativa e co-responsável.

Joan Gillespie e Joanne Linzey, (CURITIBA, 2002c, p.15) os profissionais canadenses que participaram da implantação do modelo colaborativo durante 2 anos em Curitiba expõe aqui suas observações sobre o desenvolvimento comunitário:

Os trabalhos de Desenvolvimento Comunitário estão sendo realizados em vilarejos e cidades no mundo inteiro. A maior parte deste trabalho é realizada a partir da perspectiva de que pessoas que moram em comunidades carentes precisam que "se dê um jeito nelas". Trata-se de uma visão de que estas pessoas moram em lugares onde não há esperança e que "especialistas" de fora trarão as soluções para os problemas locais.

A eficácia e a sustentabilidade desta abordagem, que vem sendo utilizada durante décadas e que requer bilhões de dólares de financiamento, estão sendo cada vez questionadas. Com poucas exceções, este modelo não leva a melhorias fundamentais de longo prazo na qualidade de vida das pessoas porque não consegue provocar uma mudança cultural necessária no processo do desenvolvimento social.

No cerne de trabalho do Modelo Colaborativo estão as convicções de que:
" cidadão precisa estar no centro de qualquer trabalho de capacitação comunitária
" Qualquer pessoa, por mais carente ou marginalizada que seja, possui habilidades, experiências e atributos que podem contribuir para o bem comum.
" É somente através do desenvolvimento dos relacionamentos humanos que as pessoas passarão a estar dispostas a trabalhar em prol de suas comunidades.
O que isso significa para nós que trabalhamos nesta área? Parece simples, mas não é.
Significa que nós, como capacitadores de comunidades, precisamos mudar a forma como enxergamos as pessoas que estamos tentando ajudar. Precisamos encontrar formas de incentivá-las a deixar de se verem como pessoas vazias e sem esperança, esperando por alguém que vai arrumar suas vidas, para que passem a se ver como cidadãs que têm a capacidade de mudar suas vidas e a vida de sua comunidade.
Significa que precisamos ser extremamente hábeis na forma como contribuímos para ajudar as pessoas a construírem relacionamentos entre si, e conosco, de modo que passem a assumir o compromisso de utilizar seus talentos e habilidades em prol da comunidade.
E também significa que nós, como pessoas de fora, devemos ser convidados a colaborar pelas pessoas que moram na comunidade. Precisamos pensar com muito cuidado a respeito das nossas ações. O maior desafio que enfrentamos neste tipo de trabalho colaborativo é ajudar as pessoas a serem cidadãs ativas, e não a serem a clientela de mais um programa."

3 - Metodologia

A metodologia é de natureza qualitativa e foi desenvolvida em duas fases. Na primeira, uma coleta em fontes de dados secundários. Foram consultados documentos da prefeitura, tais como o histórico do projeto, pesquisa em matérias publicadas na imprensa, relatórios das reuniões com a comunidade e publicações específicas sobre o Modelo Colaborativo.

Na segunda, para obter o relato da experiência das pessoas que dela participaram, a coleta de dados foi feita utilizando-se de entrevistas semi-estruturadas com os principais atores do projeto: técnicos do Instituto de Administração Municipal, lideranças comunitárias, técnicos da Fundação de Ação Social e pessoas da comunidade envolvidas no processo.

Foram entrevistadas cinco pessoas da comunidade envolvidas no processo, dois líderes comunitários, três técnicos de área que desenvolveram o trabalho no Cajuru, uma técnica do Instituto de Administração Municipal e um técnico da Fundação de Ação Social responsável pelo planejamento e encaminhamento do projeto da Operação Cajuru ao Banco financiador de todo o projeto de infra-estrutura. Foram utilizados também diferentes depoimentos que constam das publicações sobre o Modelo Colaborativo.As entrevistas foram feitas no período de janeiro a abril de 2004.

4- A Pesquisa

Este trabalho se baseia na implantação do Modelo Colaborativo no Bairro do Cajuru, em Curitiba.

As experiências de participação popular nas decisões do poder público, anteriores à implantação do Modelo Colaborativo tratavam as necessidades da comunidade de forma segmentada na atuação dos Conselhos Comunitários, tratavam da saúde, da segurança, infância e adolescência, enfim, assuntos tratados isoladamente para atender a mesma comunidade. Nestas reuniões dos conselhos já surgia uma demanda da comunidade por ações de outras áreas do poder público. Essa demanda era reprimida, pois não havia canais de comunicação estabelecidos para atendê-la.

Em especial, a situação do Cajuru era dramática, diagnosticava-se na região níveis elevados de problemas sociais. Em 1995 ocorreu uma grande enchente na área e houve uma mobilização para atender os problemas que surgiram em conseqüência desta enchente. As diversas secretarias da Prefeitura se articularam neste momento e trabalharam de forma conjunta para resolver os problemas. Mas, esta atuação se dava apenas em situações de emergência extrema, posteriormente, as equipes voltavam à difícil tarefa do trabalho isolado e, conseqüentemente, de poucos resultados em médio e longo prazo.

Em 1997 a Prefeitura iniciou um grande investimento em melhoria da infra-estrutura da região do Cajuru. Foi o inicio de uma grande transformação na infra-estrutura, mas os problemas sociais continuavam. Foi então que em 1998 deu-se o primeiro contato com o conceito do Modelo Colaborativo, uma iniciativa da Coordenação Nacional da Pastoral da Criança que, como membro da GETS - Grupo de Estudos do Terceiro Setor iniciou os contatos locais para realizar a experiência do Modelo Colaborativo na capital paranaense.

"Curitiba tornou-se o lugar de realização dessa experiência inovadora de desenvolvimento social a partir da confluência de interesses de diversas instituições. A UWC-CC - United Way of Canadá - Centraide Canadá e o GETS - Grupo de Estudos do Terceiro Setor desejavam desenvolver uma metodologia de trabalho comunitário, a partir de instrumentais teóricos desenvolvidos no Canadá, envolvendo diferentes instituições do Terceiro Setor, a iniciativa privada e o Estado; a Prefeitura Municipal de Curitiba desejava experimentar uma nova prática de desenvolvimento social, buscando um modelo que pudesse ser disseminado a outras comunidades, criando um canal de comunicação eficaz entre a administração pública e a própria comunidade. O Modelo Colaborativo é o resultado da prática levada a cabo a partir desses interesses (CURITIBA, 2002, p.11)."

4.1 O modelo colaborativo, uma nova maneira de desenvolver o trabalho comunitário

Para entender melhor o que é o Modelo Colaborativo podemos utilizar parte do testemunho de John Knight (CURITIBA, 2002a, p.11) sobre o Modelo Colaborativo de Curitiba:

"Desenvolvimento comunitário a partir das potencialidades existentes é um dos nomes dados a esse novo movimento, que se manifesta quando cidadãos organizados estão no centro da sociedade e as instituições locais apóiam a visão e as ações das organizações dos moradores. É exatamente neste sentido que se dá a experiência desenvolvida em Curitiba, através do Modelo Colaborativo, numa parceria que envolve as três esferas da sociedade: o Estado, a iniciativa privada e a sociedade civil."

Para as técnicas da Fundação de Ação Social que trabalharam na implantação do Modelo Colaborativo no Cajuru, o sucesso de resultados aconteceu porque o Modelo apresenta premissas fundamentais para projetos que tenham necessidade de inter-relações na conquista de seus objetivos. Entre as principais premissas, citam a valorização do potencial das pessoas, a facilitação da inter-setorialidade que o modelo permite e o estímulo ao diálogo e aos relacionamentos - ferramenta fundamental ao desenvolvimento comunitário.

Alguns desafios, como tornar alguns projetos implantados auto-sustentáveis, não obtiveram sucesso. Mas, trouxeram mais um aprendizado: o processo de trabalhar colaborativamente em comunidades é lento. A abordagem colaborativa é um processo contínuo e nunca um produto acabado.

Também o depoimento da técnica do IMAP demonstra que houve grande esforço na implantação do Modelo, havia a necessidade de mudança de cultura, o poder público mudando seu olhar na comunidade, deixando de vê-la como dependente, reivindicatória e carente para enxergar uma comunidade cheia de talentos e recursos para transformar sua realidade. Coube ao poder público quebrar paradigmas arraigados, não temer as demandas da comunidade, mostrar que o poder público não possui todas as soluções. E, por outro lado, a comunidade teve que rever a atuação do poder público, entender que o governo não consegue resolver todos os problemas da cidade, que muitas das questões precisam também de mudanças de cultura, comportamentos e atitudes e, finalmente perceber que só sendo co-participante do processo poderiam acontecer as mudanças.

Na visão do técnico de planejamento da Fundação de Ação Social, o modelo funcionou porque tinha objetivos e missão específicos, mensuráveis. Caso contrário, se a comunidade não definir com clareza a missão do processo, o modelo se torna ineficiente.

Os depoimentos de algumas lideranças comunitárias e membros da comunidade envolvidos no processo mostram que o modelo colaborativo impôs, realmente, uma mudança de atitude no relacionamento com o poder público. Líderes que participavam de forma reivindicativa e pontual aprenderam a participar do processo decisório de forma compartilhada, gerando co-responsabilidade e cidadania. Segundo a maioria deles, ganhou a comunidade. Outros, ainda preferindo o exercício isolado do poder e o assistencialismo, afastaram-se.

Alguns depoimentos também mostram que ao participar do processo e obter êxito, as pessoas mudaram sua relação com a vida, transferindo o poder de mudança que experimentaram na comunidade para suas vidas pessoais.

Na visão dos atores do poder público, a comunicação poderia ter ajudado em todo o processo de implantação e desenvolvimento do processo do Modelo Colaborativo e consideram que este é ainda um desafio a ser enfrentado. Se a comunicação comunitária não é ainda conhecida pelos próprios profissionais de comunicação, profissionais de outras áreas têm ainda menor conhecimento sobre a utilização dos instrumentos adequados de comunicação conforme suas necessidades.

A necessidade de atingir o maior número de pessoas para estimular a participação popular e a necessidade de transmitir credibilidade e confiança torna o papel da comunicação fundamental no processo, conforme observa a técnica do IMAP.

Para os profissionais que trabalham no Cajuru, o papel da comunicação, apontando instrumentos para a equipe e a comunidade fomentar o desenvolvimento do trabalho comunitário partilhado, é fundamental. Também citaram ações que já foram definidas nos grupos de colaboração, mas não foram operacionalizados por falta de profissionais, tais como: aproximar as Universidades do trabalho comunitário desenvolvido com a implantação do modelo colaborativo; tornar transparentes as ações desenvolvidas e a realidade da região; fomentar a participação da sociedade como um todo; sensibilizar a iniciativa privada para as ações comunitárias.

Nestes depoimentos podemos sentir o grau de envolvimento e entusiasmo destes que participam do processo do modelo colaborativo no Bairro do Cajuru em Curitiba. E, lembrando que este é um processo contínuo, identificar o importante papel das relações públicas nesta gestão compartilhada para o desenvolvimento comunitário.

5 - Conclusão

Ao concluir este trabalho observo minha grande preocupação durante toda a exposição na defesa da importância do estímulo à participação popular no planejamento das ações do poder público. Esclareço que esta preocupação é justificada pela ainda novidade do tema na comunidade dos profissionais de comunicação e, portanto, conhece-la é fundamental para estabelecer um planejamento de Relações Públicas.

Observo também que existe uma linha tênue ao se fazer uma proposta de atuação das relações públicas para a área do poder público, já que, em algum momento, podemos pensar que as propostas deveriam estar inclusas no movimento popular organizado. Mas, como podemos entender e trabalhar o poder público se não pensarmos no público principal que é o cidadão? Como podemos nos excluir deste momento em que a democratização é uma realidade? E que o fortalecimento da participação popular é fundamental para balizar o futuro das cidades?

Conforme observa Cicilia Peruzzo (1998, p.276): A participação popular implica uma decisão política e o emprego de metodologias operacionais que o favoreçam. Em matéria de comunicação, não basta incentivar o envolvimento. É necessário criar canais para tanto e mantê-los desobstruídos. Isso tem a ver com os objetivos estratégicos, ou seja, aonde se quer chegar.

Cabe às relações públicas uma parcela fundamental na garantia do exercício da cidadania, no bom relacionamento entre os três setores que constituem a nossa sociedade: governo, iniciativa privada e sociedade civil organizada. Estes são alguns dos princípios que devem permear o trabalho das relações públicas na atualidade.
Partindo desta visão ampla da nova realidade das relações públicas, podemos agora propor algumas ações de relações públicas no processo do Modelo Colaborativo implantado no Bairro do Cajuru em Curitiba.

Para iniciar este pensamento, o posicionamento de Denise Siqueira (2002, p.134):
As "funções" oficiais de Relações Públicas, assessoramento, pesquisa, planejamento, execução (comunicação) e avaliação deixam entrever o cunho persuasivo da atividade. As Relações Públicas atuam no campo da informação (divulgação da informação), utilizando-se da persuasão (de forma educativa e, assim, diferindo da publicidade e propaganda) para gerar interação e, em segundo plano, integração. Dessa forma, admite-se a persuasão em Relações Públicas. Persuasão para incitar ao diálogo e promover a participação (o que é ético) ou persuasão com fins ideológicos (indução). A opção vai depender do posicionamento da organização e dos profissionais envolvidos.

As relações públicas podem atuar no Modelo Colaborativo na divulgação das informações específicas dirigidas a públicos específicos, também podem atuar na persuasão de forma educativa, estabelecendo relações com os grupos estruturados da comunidade, promovendo o diálogo e a participação.

Mas, acima de tudo, as relações públicas devem aproximar-se desta comunidade, ouvir seus anseios, suas contribuições, perceber seus valores e princípios e, junto com ela definir as prioridades de comunicação e um planejamento que tenha como meta principal partilhar a missão definida pela comunidade e pelos grupos nela inseridos.

Poderíamos propor agora, conforme o material já pesquisado algumas ações que já podem ser desenvolvidas na comunidade do Cajuru: a implantação de uma rádio comunitária, o estabelecimento de uma relação com as universidades visando sua participação efetiva no modelo colaborativo, a organização do histórico da implantação do Modelo Colaborativo, enfim, já poderíamos sugerir ações concretas. Mas, estas talvez não sejam as prioridades da comunidade neste momento. E se estamos nos propondo a um trabalho partilhado, devemos antes de tudo, envidar nossos maiores esforços em nos aproximarmos desta comunidade, conhece-la e estabelecer, em conjunto, o nosso planejamento de ações de relações públicas.

No livro Comunicação nos Movimentos Populares, a autora Cicilia Peruzzo analisa as questões que permeiam o assunto de forma precisa, provocando reflexões importantes sobre a participação popular, sobre o exercício do poder e, claros e vastos caminhos que as relações públicas devem trilhar no trabalho com os movimento populares. Com certeza, material fundamental para o desenvolvimento do planejamento de relações públicas no processo do Modelo Colaborativo de Curitiba.

Na conclusão deste trabalho, reproduzo mais uma vez as palavras da Prof. Cicilia Peruzzo que resumem a razão da proposta deste trabalho e da continuidade dele, participando do processo colaborativo do Bairro do Cajuru:
Se o homem e a mulher, respeitando as individualidades e o pluralismo, exercerem o direito e o dever de participar ativamente da construção da sociedade, coletivamente, como sujeitos livres da história, estarão ajudando a transformá-la em um espaço e um habitat digno de sua espécie (PERUZZO, 1998, p.276).


Referências

CURITIBA, Prefeitura Municipal. Modelo colaborativo: experiência e aprendizado do desenvolvimento comunitário em Curitiba. Prefeitura Municipal de Curitiba; GETS - Grupo de Estudos do Terceiro Setor; United Way of Canadá - Centraide Canadá. Instituto de Administração Pública IMAP 2002. p.11.

CURITIBA, Prefeitura Municipal. Modelo colaborativo: experiência e aprendizado do desenvolvimento comunitário em Curitiba. Prefeitura Municipal de Curitiba; GETS - Grupo de Estudos do Terceiro Setor; United Way of Canadá - Centraide Canadá. Instituto de Administração Pública IMAP 2002. p.10.

CURITIBA, Prefeitura Municipal. Modelo colaborativo: experiência e aprendizado do desenvolvimento comunitário em Curitiba. Prefeitura Municipal de Curitiba; GETS - Grupo de Estudos do Terceiro Setor; United Way of Canadá - Centraide Canadá. Instituto de Administração Pública IMAP 2002. p.10.

CURITIBA, Prefeitura Municipal. Modelo colaborativo: experiência e aprendizado do desenvolvimento comunitário em Curitiba/ Prefeitura Municipal de Curitiba; GETS - Grupo de Estudos do Terceiro Setor; United Way of Canadá - Centraide Canadá. Instituto de Administração Pública IMAP 2002. p.15.

DURKHEIN, Emile. Educação e sociologia. In: CASTRO; DIAS. Sociologia: uma introdução ao pensamento sociológico. Rio de Janeiro: Eldorado, 1968. p.38

PERUZZO, Cecília Kholing. Comunicação nos movimentos populares - a participação na construção da cidadania. Rio de Janeiro: Vozes, 1998. p.276, 303.

PERUZZO, Cecília Kholing. Relações públicas, movimentos populares e transformação social. Revista Brasileira de Comunicação, São Paulo, v.XVI, n. 2, p.125-133, 1993.

SIQUEIRA, Denise da Costa Oliveira. Persuasão, poder e dialética em relações públicas. In:: FREITAS, Ricardo Ferreira; LUCAS, Luciane (orgs.). Desafios contemporâneos em comunicação. São Paulo: Summus Editorial. 2002. p.134.