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Comunicação
Super Size Me e a ofensiva contra a "imagem da
inocência" do McDonald´s
Carlos Henrique Baságlia, mestrando em Comunicação
Social pel UMESP
A obesidade tem matado tanto quanto o fumo. Nos últimos anos, tornou-se
uma das causas de maior incidência de mortes no mundo, especialmente
nos Estados Unidos, o pais com o maior número de obesos no mundo.
A expectativa, infelizmente, é de que dentro de muito pouco tempo,
os índices de mortes por obesidade nos EUA superem os do fumo,
o que poderia levar à óbito o sistema de saúde norte-americano,
e uma das grandes responsáveis por esses índices alarmantes
é o crescente aumento das redes de fast-food.
Além de contribuírem para o aumento de número de
obesos, as redes de fast-food influenciam consideravelmente no tipo de
alimentação que as pessoas estão comendo, devido
a massificação da cultura alimentar. Uma reportagem do jornal
"A Folha de São Paulo", do dia 10/03/2004, entitulada
"Obesidade pode matar mais que o fumo", traça bem este
quadro temeroso que instalou-se naquele país, cujas autoridades
estão tendo que gastar fortunas incalculáveis com o tratamento
dos males relacionados ao excesso de peso:
"Se nenhuma medida for tomada, a obesidade deve se tornar rapidamente
a principal causa evitável de morte nos EUA, superando o fumo.
Um relatório divulgado ontem pelo CDC (Centros de Controle e Prevenção
de Doenças, pela sigla em inglês) mostra que, na última
década, as mortes por obesidade aumentaram num ritmo quase quatro
vezes maior do que as causadas pelo fumo. Como o fumo, a obesidade e o
sedentarismo ampliam os riscos das três maiores causas de morte
no país: doenças cardíacas, câncer e problemas
vasculares no cérebro (como derrames), além de favorecer
a diabetes, a sexta principal causa de morte nos EUA. Com 64% de sua população
acima do peso, os EUA assistem a um drástico aumento nas mortes
ligadas a obesidade. Em 2000 (último dado disponível), problemas
provocados pela equação obesidade mais sedentarismo responderam
por 16,6% (400 mil) das mortes registradas no país, enquanto os
males ligados ao fumo mataram 435 mil americanos, o equivalente a 18,1%
dos 2,4 milhões de mortes naquele ano. Dez anos antes, o fumo provocara
a morte de 400 mil pessoas (19%) e a obesidade, de 300 mil (14%)".
Visando desmistificar esta visão falsa e mentirosa tão propalada
por eles (como são insistentes, não é verdade?) de
que as alimentações oferecidas pelas redes de fast-food
são nutritivas, Morgan Spurlock, um cinesta americano, resolveu
testar quais os reais valores nutricionais (se é que eles existem)
dos lanches oferecidos pelo McDonald´s, uma das maiores redes de
fast-food do mundo (em termos de porção também, "do
you want to super size it?"), alimentando-se exclusivamente na rede
durante um mês. O cineasta, nesta mesma reportagem da "Folha
de São Paulo" do dia 10/03/2004, comenta a sua experiência
nutricional:
"´Senti-me muito mal. Você ingere a comida do McDonald's
e sente-se ótimo logo em seguida. Mas, mais tarde, você começa
a ter dores de estômago e de cabeça e acaba ficando deprimido',
disse Spurlock à rede de TV NBC. Spurlock afirmou ter tido a idéia
pela primeira vez no Dia de Ação de Graças de 2002,
quando, depois de um jantar generoso, assistiu a uma reportagem sobre
duas meninas que queriam processar o McDonald"s porque a rede era,
segundo elas, responsável por sua obesidade. Quando começou
sua aventura alimentícia, Spurlock pesava 84 kg. Um mês depois,
ele ultrapassou os 95 kg. Seu nível de colesterol subiu 60 pontos".
Spurlock, no documentário Super Size Me - A dieta do palhaço,
critica abertamente a propaganda aliciadora e sedutora voltada para o
público infantil, a maneira como estes (especialmente aquele palhaço,
que é meio sem graça para falar a verdade) abordam as crianças
para que comam sua comida (que de saudável não tem nada),
bem como a responsabilidade das redes de fast-food pelo crescente aumento
do número de obesos entre os americanos. O McDonald´s até
que está se esforçando (vai precisar ter muito fôlego)
para vender uma imagem mais saudável (pelo jeito, vai ter que melhor
muito), mas a realidade é que o documentário de Spurlock
abalou os alicerces do McDonald´s e ampliou ainda mais o debate
em torno da responsabilidade da rede de fast-food no aumento da obesidade.
Apesar da pouca audiência (imagine se fosse maior, que estrago,
hein), Super Size Me deve ter tirado o sono de muita gente no McDonald´s,
que certamente tiveram que trabalhar dobrado (deve ter sobrado para muita
gente, como de costume) para reverter (se é que é possível)
este quadro altamente negativo. O lema agora é abusar das saladas
(o Mc está de dieta), afinal não precisa ser saudável,
basta parecer (será que o McDonald´s virou vegetariano?).
Depois do lançamento do documentário, o McDonald´s
resolveu contra-atacar (vai precisar de muita munição, pois
a batalha vai ser longa e duradoura) e tem procurado dar maior visibilidade
às saladas, o que justificaria o caráter nutritivo dos seus
lanches (que convenhamos, não são tão saborosos assim).
Veja este trecho da reportagem do dia 22/09/2004, da Revista Isto é
Dinheiro, entitulada "McDonald´s queima calorias", que
ilustra bem este nova tentativa do McDonald´s:
"Na terra do Big Mac, a ordem agora é comer salada. Seja em
comerciais para a televisão, seja em material publicitário
dentro da própria loja, o foco é colocar refeições
mais saudáveis no cardápio. "O McDonald's se importa
com o bem-estar de seus clientes", disse à DINHEIRO Charlie
Bell, presidente e CEO da companhia. "Estamos trazendo cada vez mais
variedades ao menu e informações nutricionais, além
de oferecer programas para os nossos clientes terem um estilo de vida
saudável."... A rede lançou no mercado americano o
Go Active, uma embalagem na mesma linha do McLanche Feliz, do Brasil,
que vem com uma salada e uma garrafa de água. De brinde, um contador
de passos para estimular a atividade física. Na semana passada,
o McDonald's também começou uma promoção na
qual o cliente que comprar uma das saladas recebe um cupom com direito
a duas semanas de academia grátis. O Brasil também está
na mira do McDonald's light. Uma nova linha de saladas chega ao País
até o final do ano. São as "Salads Plus", opção
em que o cliente pede uma salada e escolhe um acompanhamento, como sanduíche
ou fritas. Essa idéia, que nasceu na França, onde o padrão
de consumo se assemelha ao brasileiro, deve resolver de uma vez por todas
a indefinição no cardápio brasileiro em relação
aos pratos à base de alface, que até agora eram oferecidos
em caráter sazonal".
O documentário foi um soco no estômago (deve ter dado uma
bela indigestão) com luvas de pelica no McDonald´s. Certamente,
por essa eles não esperavam (é verdade, eles nunca esperam
nada!!!) que o mesmo pudesse ter tanta repercussão e visibilidade
na mídia (se eles sabem que a imagem da corporação
não é boa, deviam prever). Mas, como sempre, eles não
prevêem nada. Todos nós sabemos que qualquer indivíduo
que se dispõe a lutar contra uma grande corporação
contará sempre com a benevolência da mídia. Afinal,
é Davi contra o Golias.
Quando a mídia internacional começou a repercutir o documentário
o McDonald´s, inicialmente, tentou manter o silêncio (olha,
quem cala consente!!!), mas viram que esta não seria a melhor estratégia
e partiu para a defensiva (até parece time pequeno, vive se defendendo).
Uma atitude normal de quem vive "apagando incêndio". Afinal,
se eles ficassem calados, esta medida poderia ser encarada pelos consumidores
como uma atitude de quem estaria assumindo a sua culpa (já passou
da hora deles assumirem a sua parcela de responsabilidade). Agora, com
a ampla veiculação do documentário, a imagem inocente
(nem tanto!!!) que o McDonald´s projetou ao longo dos anos ficou
arranhada. Entretanto, em nota de acordo com uma reportagem da Folha Online,
do dia 05/07/2004 cujo título é "Para McDonald´s,
filme 'não tem compromisso com a informação'), eles
preferem amenizar o impacto do documentário. Para o McDonald´s,
Sper Size Me "
"O McDonald's Brasil, segundo a assessoria de imprensa da marca,
considera que "Super Size Me", de Morgan Spurlock, ´não
tem nenhum compromisso com a informação, e sim com o uso
sensacionalista de uma marca conhecida em todo o mundo'. A rede diz que
os clientes ´sabem muito bem que uma alimentação saudável
tem de ser variada, balanceada, de qualidade e nunca deve superar o limite
de 2.500 calorias por dia'"; (Folha Online -05/07/2004 -
Se ao menos eles tivessem um pouco de bom senso e, ao invés de
ficarem gastando milhões de dólares em propaganda (bancando
uma imagem mentirosa), querendo passar a imagem de bons moços e
de que os seus lanches são saudáveis (até o Papai
Noel sabe que não é!!!), revertessem este dinheiro para
ações mais direcionadas e melhor empregados, quem sabe esta
imagem não seria tão ruim. Estamos cheios de blá-blá-blá
(eles já estão parecendo político em véspera
de campanha, só promesa!!!). Com o crescente aumento da obesidade
no mundo, queremos sim que as autoridades desta corporação
tomem iniciativas concretas e mais eficazes no sentido frear o crescimento
da obesidade (doce ilusão a minha).
Claro que o McDonald´s não é única alimentação
que não é saudável no mercado (são tantas
que eu já perdi até a conta), mas o problema é que
eles insistem em dizer que os seus lanches são saudáveis
(com tanto poder de persuasão, já estou quase que acreditando
em duende, gnomos, mula-sem-cabeça, papai noel...) e bancar uma
imagem mentirosa e deslavada, desvirtuando a opinião pública.
Uma empresa que oferece serviços a milhões e milhões
de pessoas no mundo inteiro deveria ter por obrigação pensar
na sua responsabilidade social. Mas, como todos nós sabemos, responsabilidade
social para o McDonald´s é uma (mc)lenda urbana. Ou será
que o errado nessa história toda sou eu?
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