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Comunicação e Responsabilidade Social
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Comunicação
Os caminhos da Responsabilidade Social
Eduardo da Rocha Marcos é jornalista, especialista
em Teoria e Técnicas da Comunicação e mestre em Comunicação
e Mercado.
O termo Responsabilidade Social teve como uma de suas primeiras definições,
a conceituação clássica de Howard Bowen, em 1953
(apud ASHLEY, 2003, p.6). Para ele, significava "a obrigação
social do homem de negócios de adotar orientações,
tomar decisões e seguir linhas de ação que sejam
compatíveis com os fins e valores da sociedade".
Segundo Bowen, cinco são os tipos de públicos que podem
ser beneficiados com a Responsabilidade Social: funcionários, clientes,
fornecedores, competidores e outros que de alguma maneira tenham algum
vinculo com a empresa (definição que contempla o conceito
moderno de stakeholders).
Para Patrícia Ashley, a Responsabilidade Social pode ser definida
como:
compromisso que uma organização deve ter com a sociedade,
expresso por meio de atos e atitudes que a afetem positivamente, de modo
amplo, ou a alguma comunidade, de modo específico, agindo proativamente
e coerentemente no que tange a seu papel específico na sociedade
e a sua prestação de contas para com ela. A organização,
nesse sentido, assume obrigações de caráter moral,
além das estabelecidas em lei, mesmo que não diretamente
vinculadas as suas atividades, mas que possam contribuir para o Desenvolvimento
Sustentável dos povos. Assim, numa visão expandida, Responsabilidade
Social é toda e qualquer ação que possa contribuir
para a melhoria da qualidade de vida da sociedade. (ASHLEY, 2003, p.6)
Com o passar dos anos, o conceito de Responsabilidade Social, porém,
acabou se deteriorando, esvaziado num mar de definições.
O objetivo deste artigo é esclarecer que tipo de responsabilidade
cada agente social contempla e os mecanismos de consagração
traçados ao longo desse percurso.
Para tanto, nos discursos dos mais diversos teóricos e empresas
pode-se diferenciar dois níveis fundamentais de abordagem em relação
ao tema: um, comprometido com as razões do mercado e aqui denominado
Responsabilidade Social de Mercado (RSM). E outro vinculado à questão
do desenvolvimento, da cidadania, chamado de Responsabilidade Social Cidadã
(RSC).
- Responsabilidade Social do Mercado (RSM)
Para poder compreender o que significa a conceituação
e a prática perseguida pela RSM se faz necessário importar
algumas considerações sobre o conceito de 'campo social'
presente ao longo da obra de Pierre Bourdieu.
Os campos sociais são espaços de relações
estruturados e relativamente autônomos . Essa relativa autonomia
pressupõe singularidades e aspectos comuns a outros campos. O nível
da estruturação interna de um campo qualquer é definidor
do maior ou menor grau de sua autonomia em relação aos demais
campos. O campo jornalístico, por exemplo, possui suas próprias
regras de funcionamento, como o exercício diário de pautas,
matérias sobre prestação de serviço, reportagens
investigativas etc. Da mesma forma, o campo institucional/publicitário
detém mecanismos próprios de funcionamento, como os releases,
informes e anúncios. Um campo funciona de maneira autônoma
do outro, o que não implica que ambos ou demais campos possam estar
em contato mutuamente.
Assim, nesses espaços de relações sociais constituem-se
regras de ação que são em parte autônomas e
em parte coincidentes com outros espaços. Por essas normas de conduta,
define-se o dizível e o indizível, o adequado e o inadequado,
o pertinente e o impertinente, bem como distingue-se o que eticamente
é aceito e aplaudido pelo campo da conduta moralmente condenável.
Um campo será tanto mais autônomo quanto mais específicos
forem os seus troféus, isto é, os objetos de luta social
que lhe caracterizam. A atribuição ou a identificação
do valor social dos prêmios ABERJE (Associação Brasileira
de Jornalismo Empresarial), Top of Mind, bem como os concedidos pelo Instituto
Ethos e pelo jornal Valor Econômico implicam um certo engajamento
num espaço singular de relações e de disputas.
Essas disputas atribuem competência social aos atores envolvidos
e passam a ganhar uma carga ideológica maior, materializando-se
na forma como são vistos os agentes perante a sociedade. O fator
de premiações e títulos proporcionam aos atores sociais
uma exposição maior ou superexposição, agregando
a si mesmos, através dos mecanismos internos de funcionamento,
um capital social maior e qualificação na defesa de suas
posições.
Assim, uma empresa como a Shell, ao obter o título de empresa Top
of Mind, por exemplo, passa a deter o valor de reconhecimento social pelas
atividades que desenvolve, dentro de seu campo. O prêmio em si,
tendo como um de seus patrocinadores a Folha de S.Paulo, é a prova
material de sua importância social. A maior prova de que os campos
dialogam entre si é a atribuição do prêmio
por uma empresa jornalística oriunda de um outro campo social,
neste caso, o jornalístico.
Finalmente, a maior ou menor autonomia do campo se objetiva na especificidade
de suas instâncias de legitimação, isto é,
posições sociais que quando ocupadas por este ou aquele
agente lhe permitem o acúmulo de um capital específico.
Da mesma forma, podemos associar a busca de uma empresa pelo seu reconhecimento
social-econômico. Uma corporação que investe em fundos
sociais na Bolsa de Valores está buscando demonstrar à sociedade
que é preocupada com o desenvolvimento social através de
suas intervenções, o fortalecimento de sua marca, e por
fim, o objetivo principal, que é a valorização de
seus fundos no mercado, ou seja, maximização do seu lucro.
Assiste-se a uma transferência do capital institucional acumulado
por esta ou aquela organização a um de seus representantes,
ou porta-vozes. A especificidade das relações sociais e
a existência de troféus almejados por todos permitem ainda
a comparação do funcionamento de um campo com um jogo. Para
que este seja jogado é fundamental que todos se submetam a certas
regras e que todos admitam desde o início o valor indiscutível
do prêmio a ser obtido.
Desta forma, todo o agente social, ao agir, respeita uma certa lógica.
Isto é, há sempre um complexo de causas materiais que lhes
faculta a adoção desta ou daquela estratégia. Isto
não significa, no entanto, que estes agentes sejam necessariamente
racionais, ou seja, operem para cada instante de sua existência
um cálculo racional de custos e benefícios.
Os jogos sociais são processos estruturados de relação
que não se deixam flagrar como jogos. A importância de participar
não é calculada, mas implícita, considerada óbvia.
Essa evidência decorre de uma certa atribuição de
valor a este ou aquele objeto de luta definida em processos de socialização
e decorrentes do pertencimento ao campo. Em outras palavras, atribuir
um certo valor a um troféu é também condição
de pertencimento a campo e condição de participação
no jogo, no seu jogo. O troféu é considerado objeto de valor
porque é socialmente definido como troféu no interior do
campo.
Resumidamente, as empresas criam ou fomentam a criação desses
troféus e a partir deles, passam a adquirir o capital do qual são
originariamente desprovidas, que é o capital social. Como exemplo
podemos citar a criação do Instituto Ethos, que recebe financiamento
indistintamente das corporações, quer elas estejam preocupadas
com a efetivação do social ou não.
Desta forma, as instituições criam, jogando o jogo, mecanismos
de legitimação própria, dentro das regras estabelecidas
pelos concorrentes e pelo mercado. Estabelecem parâmetros para se
enquadrarem como capazes socialmente de promover o bem seja através
dos troféus sociais, seja através da auto-premiação
com a aquisição de selos (AA 1000, SA 8000, BS 8800, ISO
14000, Empresa Cidadã, Empresa Amiga da Criança etc) e normas
distribuídas sem o devido rigor, ou sem estabelecimento de conexões
com as causas defendidas. Isto, sem falar na criação de
fundos sociais que legitimam a busca pelo lucro.
Em nenhum momento do jogo, a busca pela cidadania ou responsabilidade
social é colocada como fundamental. Como afirma o próprio
porta voz do pensamento neoliberal Milton Friedman, não é
função das empresas praticar a responsabilidade social,
mas sim gerar lucros.
- Responsabilidade Social Cidadã (RSC)
Por outro lado, temos a Responsabilidade Social Cidadã, uma visão
muito mais abrangente que refuta determinados aspectos dentro do cumprimento
das normas. Nesta visão, os agentes sociais têm uma visão
de campo necessariamente interligada, ainda que por temas específicos,
mas de relevância extracampo. Para esses agentes, a responsabilidade
social transcende o conceito de campo específico e engloba piamente
a terminologia do campo social, pois entende que a sustentabilidade e
o desenvolvimento social invadem os demais campos. Sumariamente, o conceito
de Desenvolvimento Sustentável comporta simbolicamente os pilares
econômico, ambiental e social. Mas, no entanto, a responsabilidade
social no sentido específico, estudado a partir do ponto de vista
cidadão, engloba as demais instâncias sociais como cultura,
política etc.
A própria busca de troféus deixa de ser o objetivo principal
do jogo. Esse mesmo jogo passa a ser direcionado a outros troféus
não legitimadores do poder simbólico, mas das relações
entre os indivíduos do campo e da valorização das
próprias ações dentro do jogo. Tal ótica é
compactuada pela significação do conceito de sustentabilidade,
segundo Ignacy Sachs (apud VIEIRA e BREDARIOL, 2001, p.58):
...) um processo criativo de transformação do meio, com
a ajuda de técnicas ecologicamente prudentes, concebidas em função
das potencialidades deste meio, impedindo o desperdício inconsiderado
dos recursos e cuidando para que estes sejam empregados na satisfação
das necessidades reais de todos os membros da sociedade, dada a diversidade
dos meios naturais e dos contextos culturais. Promover o Ecodesenvolvimento
é, no essencial, ajudar as populações envolvidas
a se organizar, a se educar, para que elas repensem seus problemas, identifiquem
suas necessidades e os recursos potenciais para receber e realizar um
futuro digno de ser vivido, conforme os postulados de justiça social
e prudência ecológica.
Os troféus sociais tornam-se objetos secundários dentro
do campo de origem das ações sociais. Ainda assim, eles
podem continuar coexistindo nos demais campos, com ou sem o consentimento
dos atores sociais.
Neste contexto, o conceito de responsabilidade social ganha nova dimensão,
podendo ser definido como "o exercício planejado e sistemático
de ações e estratégias e a implementação
de canais de relacionamento entre uma organização, seus
públicos de interesse e a própria sociedade"(BUENO,
2003, p. 106).
O campo passa a ser delimitado por novas regras. Empresas tabagistas,
bélicas, e fabricantes de agrotóxicos, por exemplo, tornam-se
excluídas, através de especificidades (morais e éticas)
do campo social. Por outro lado, o maior troféu a ser conquistado
é o balanço social, instrumento de mensuração
de conduta, desde que observadas as suas especificidades já descritas.
No entanto, o troféu neste caso (balanço social) não
passa a ser um objetivo em si, mas um meio para se atingir a sustentabilidade.
Este sim, o maior troféu daqueles que a elegeram como campo fértil
para o exercício da cidadania plena.
Bibliografia
ASHLEY, P. Responsabilidade Social nos Negócios. São Paulo,
Saraiva, 2003.
VIERA, L e BREDARIOL, C. Cidadania e Política Ambiental, Rio de
Janeiro. Record, 2001
BOURDIEU, Pierre. Questões de sociologia. Rio de Janeiro. Marco
Zero, 1983
_______________. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro. Jorge Zahar
Editor, 1997
BUENO, Wilson da Costa. Comunicação Empresarial: teoria
e pesquisa. São Paulo, Editora Manole, 2003
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