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Comunicação

Relação que engatinha sem sair do papel
Sérgio Augusto Soares do Nascimento é jornalista

O relacionamento das organizações com a mídia no Brasil engatinha. Na melhor das hipóteses ainda nem saiu do papel. E isso se compararmos alguns aspectos dessa relação, infelizmente ainda promíscua, levando-se em consideração o menor grau de profissionalismo adotado no mercado de Comunicação Empresarial dos países desenvolvidos.

A cada dia nos deparamos com grandes equívocos e absurdos praticados em nome da máxima "vale tudo para vender o cliente na mídia e sociedade". Identificamos de pronto, ao abrirmos jornais e revistas, notas e textos inteiros comprados ou trocados por favores inacreditáveis.

Esse quadro ainda é comum nas principais capitais brasileiras. E trata-se de um agravante para um segmento de mercado que pretende se profissionalizar e um dia tornar-se respeitado. À medida em que tenta burilar a imagem de um cliente complicado, o profissional muitas vezes exagera no conteúdo e na forma da mensagem, praticamente inventando algo que não existe.

E a maioria dos leitores, ouvintes, telespectadores e internautas, nem sempre familiarizados com o processo de produção e divulgação de um produto na mídia, acaba não percebendo certas artimanhas e embarca na ilusão patrocinada pelo profissional da comunicação, que nesse momento deixa de lado o compromisso com a ética somente por alguns minutos ou horas de satisfação pessoal.

Em alguns casos, a relação de promiscuidade entre o assessor e os componentes da mídia é tão evidente que fica difícil saber se o jornal, emissora de TV ou rádio também não funciona como assessoria de imprensa do cliente. Tamanha a quantidade de informações que são publicadas sem o que convencionamos chamar de filtro ou menor grau possível de imparcialidade.

Escândalos

Atravessamos a última década do século XX assistindo o estouro seguido de escândalos nos jornais, envolvendo políticos, empresários e toda a sorte de picaretas. Boa parte desses escândalos rendeu incontáveis horas nos telejornais, rádios e impressos.

Também sabemos, infelizmente, que muitos dos personagens envolvidos nas tramóias chegaram a usar de expedientes vergonhosos para tentar calar ou mesmo amenizar as denúncias. E para completar o quadro de absurdos, alguns veículos de comunicação cederam ao som do tilintar das moedas.

Por conta da curiosidade mórbida que o escândalo desperta na opinião pública brasileira, este tornou-se banal. Por conseqüência, os espectadores se acostumaram a se indignar por alguns minutos, até a próxima catástrofe. Também a mídia faturou horrores especulando e explorando a desgraça alheia, sempre em busca dos picos de audiência, reduzindo nossa programação televisiva e impressa a programas inclassificáveis e falhos em termos de imparcialidade.

Exemplos, infelizmente, não faltam, neste particular. O que dizer dos programas de "reportagem policial" que infestam nossos canais de TV aberta? São incontáveis horas relatando a violência urbana, explorando a tragédia de cidadãos comuns, em troca da audiência. E o pior é que os telespectadores sentem-se atraídos pelo show de barbaridades na telinha.

Não bastasse a programação semanal dos canais de TV ser uma aberração, nos finais de semana, quando a família se reúne, a qualidade dos programas e telejornais torna-se ainda pior. Ao invés do espectador ter um momento de descanso e tranqüilidade na calma do seu lar, ele é bombardeado com imagens violentas, sangue e linguajar chulo, que ao final do domingo culminam com a exibição de filmes lamentáveis, sempre no estilo "porradaria e rancor".

Estamos em um país onde ainda há milhões de analfabetos ao mesmo tempo em que possuímos alguns dos mais conceituados intelectuais e algumas das melhores faculdades do mundo. Também dispomos de tecnologia e profissionais capacitados a nível de primeiro mundo, nas emissoras de televisão. Como explicar então a péssima qualidade de nossos telejornais e programas televisivos?.

Status

E o Assessor de Imprensa? Esse profissional ganhou espaço à medida que a década de 90 e a tecnologia avançavam em direção ao novo século. Aperfeiçoou-se, foi premiado com um novo status e teve bastante trabalho para amenizar as crises surgidas a cada minuto, envolvendo o cliente, na imprensa.

O Assessor de Imprensa deixou de ser um mero transmissor de recados, entre o clientes e a mídia, para tornar-se um multifacetado profissional da Comunicação. Atualmente precisa manjar de jornalismo, publicidade e relações públicas com o mesmo desembaraço que deve ter para freqüentar as redações, salões requintados e as ruas, especialmente para identificar o gosto do clientes, da mídia e, especialmente, o público consumidor de notícias e produtos.

Hoje temos a tecnologia a nosso favor. Mas muitos dos profissionais que trabalham do lado de cá do jornalismo, ou seja, assessorando alguém ao invés de correr atrás da notícia, ainda incorrem no erro de apostar todas as suas fichas na relação promíscua e coloquial com colunistas e editores, sempre em busca de espaço privilegiado na mídia.

Imaginam que poderão sustentar para sempre o cliente diante dos holofotes, obtendo sempre notícias positivas. A ilusão começa a desabar quando se instala uma crise na empresa e a especulação varre todos os seus departamentos, estourando o torpedo sobre a cabeça do próprio assessor.

Por maior que seja a "amizade" com os profissionais de dentro da redação, eles têm a obrigação de noticiar o fato. E caso não haja o mínimo de profissionalismo nesse momento, o risco de baixas, especialmente morais, tende a ser enorme após as primeiras rajadas de um vento contrário.

Pro-atividade

Já foi dito que a pro-atividade é uma das principais virtudes do assessor moderno. Aliás, gestor de relacionamento com a mídia. Ele deve estar atento aos acontecimentos 24 horas por dia, sete dias por semana. Deve ser pro-ativo e saber identificar quando uma crise se aproxima na empresa, antes mesmo que os demais diretores. Deve estar ciente de que o desempenho de seu cliente na mídia depende da estratégia que vai ajudar a elaborar.

Nem sempre é possível prever o momento em que a crise vai se abater sobre a organização. Aliás, quando estoura, o estrago já está feito e o melhor a fazer é agir com calma, para não precipitar tudo. Mas como usar a calma em meio à tensão dos executivos de um lado e a especulação da imprensa de outro?. Não há uma fórmula exata como resposta. A experiência adquirida com o passar dos anos é o melhor remédio.