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Comunicação
Jornalista versus Assessor: que ethos incorpora?
Maria de Fátima Costa de Oliveira, jornalista
formada pela UFJF atuou nos últimos 12 anos como editora executiva,
editora de rede, chefe de redação, coordenadora de produção
e repórter em emissoras da Rede Globo em MG, RJ, BA e SP. Mestranda
em Lingüística Aplicada pela UNITAU, atualmente leciona Telejornalismo,
Jornalismo Empresarial, Comunicação e Discurso e Agência
de Notícias em duas faculdades de São Paulo. Assina coluna
semanal sobre televisão pelo Jornal Santuário de Aparecida.
Resumo
O presente artigo discorre sobre o ethos do jornalista quando se contrapõe
ao papel do assessor de imprensa, ou gestor da comunicação
empresarial nas organizações. Procura delinear o ponto de
conflito entre a posição social do jornalista que trabalha
em redações e a daquele que responde pela comunicação
de empresas públicas ou privadas. Toma por base de análise
o fórum de discussões realizado durante o curso de Comunicação
Empresarial à distância, promovido pela Comtexto e aulas
trabalhadas neste mesmo curso, em abril de 2005, confrontando as posições
do sujeito, com o pressuposto teórico da objetividade jornalística.
O ethos
Para tentar compreender o ethos do jornalista, é importante situar
teoricamente uma definição do termo para este trabalho.
Aquela que interessa aqui pode ser encontrada no Dicionário de
Análise do Discurso, assinado por Charaudeau e Maingueneau (2004,
p.220):
Ethos - termo emprestado da retórica antiga, o ethos designa
a imagem de si que o locutor constrói em seu discurso para exercer
uma influência sobre seu alocutário. Essa noção
foi retomada em ciências da linguagem e, principalmente, em análise
do discurso no que se refere às modalidades verbais da apresentação
de si na interação verbal. O "ethos" faz parte,
como o "logos" e o "pathos", da trilogia aristotélica
dos meios de prova. Adquire em Aristóteles um duplo sentido: por
um lado designa as virtudes morais que garantem credibilidade ao orador,
tais quais a prudência, a virtude e a benevolência; por outro,
comporta uma dimensão social, na medida em que o orador convence
ao se exprimir de modo apropriado a seu caráter e a seu tipo social.
Nos dois casos trata-se da imagem de si que o orador produz em seu discurso,
e não de sua pessoa real.
Qual é a imagem já cristalizada pelo senso comum em relação
ao ethos jornalístico? A de que o jornalista é um profissional
imbuído da capacidade de relatar a "verdade" dos fatos
com o maior senso de objetividade possível. Embora não haja
dúvidas de que esta pretensa objetividade (um dos mais fortes pilares
que sustentam a atividade jornalística) é impossível
de ser conquistada - já que todo jornalista é um sujeito
situado histórica e ideologicamente num contexto social - a função
de noticiar os acontecimentos, muitas vezes em tempo real, atribui ao
jornalismo este caráter.
Esta pressuposição de que se pode apreender o mundo objetivamente,
é herdeira do racionalismo cartesiano e do positivismo científico.
Talvez por isso, o exercício do jornalismo seja o de querer auferir
cientificidade (apesar de não ser na área de Exatas e sim
na de Humanas) à sua própria matéria.
Os manuais de redação dos grandes veículos e a grade
curricular dos cursos de comunicação social, estão
aí para atestar que até hoje as regras básicas da
atividade exigem obediência ao lead americano e impõem uma
redação centrada em um "texto imparcial e objetivo"
(1)
Confundido entre a forma e o conteúdo, o jornalista de redação
faz um pré julgamento do seu colega assessor de imprensa, caracterizando-o
como parcial no fornecimento das informações. É bem
verdade que a origem das assessorias alicerçada na propaganda chapa-branca
proliferou durante anos esta imagem comprometida ao favorecimento político,
institucional ou empresarial em detrimento da ética e da isenção.
De todo modo, também é verdade que o século XX projetou
os meios de comunicação de massa ao patamar das ações
mercadológicas, capitalistas e de poder ideológico.
Conceituados teóricos da comunicação como Chaparro
(1993) e Duarte (2003) concebem três campos de atuação
jornalística na atualidade brasileira: a) nos veículos de
comunicação de massa, onde o profissional exerce as atividades
tradicionais; b) em organizações não-jornalísticas
onde ele, a rigor, pratica a deontologia da profissão; c) em empresas
onde ocupa amplamente o cargo de comunicador organizacional.
Este artigo não pretende discutir as ações de bons
e maus jornalistas, sejam eles assessores ou não; mas sim, questionar
o por quê da diferença de conceitos - entre os próprios
jornalistas - à medida que um colega de profissão passa
a ocupar o cargo de assessor. Também não será abordada
a (desgastante) polêmica envolvendo a quem se deve atribuir determinadas
funções dentro da Comunicação Empresarial:
se aos jornalistas ou ao profissional de relações-públicas
(2). Já bastam as dicotomias estabelecidas entre o próprio
ethos jornalístico, que aqui se pretende relacionar.
Arranhando o cânone
A atividade jornalística como se conhece hoje, está marcada
pelo fetiche da velocidade. Os meios de comunicação investem
alto em tecnologia para "informar em tempo real" de qualquer
lugar do globo. À parte os riscos de uma apuração
equivocada que a Internet propicia, os demais suportes, como rádio,
tv e impresso também se acotovelam pela notícia em primeira
mão. A notícia, como produto, há muito adquiriu valor
de venda.
E para que a prática jornalística seja possível,
seria absurdo pensar que diariamente fosse necessário estabelecer
parâmetros sobre o que deve ser noticiado. Por isso, o jornalista
dos veículos já se sente (automaticamente) apto a distinguir
os "valores-notícia" relacionados por Wolf (2003, p.196):
"pode-se dizer também que a noticiabilidade corresponde
ao conjunto de critérios, operações e instrumentos
com os quais os aparatos de informação, enfrentam a tarefa
de escolher cotidianamente, de um número imprevisível e
indefinido de acontecimentos, uma quantidade finita e tendencialmente
estável de notícias."
Recentes pesquisas (3) feitas com os profissionais das redações
atestam que o mesmo jornalista que deseja a ubiqüidade e a onipotência
em determinar o que se deve noticiar, censura, paradoxalmente, boa parte
das informações fornecidas pelas assessorias de imprensa
- muitas vezes ocupadas por competentes jornalistas que já trabalharam
em veículos de massa. Seria este um critério objetivo?
Existe objetividade jornalística na escolha da matéria de
capa; na escolha dos assuntos que vão para a escalada do telejornal;
no tamanho da foto; no tempo de exibição de determinada
entrevista; na ordem de quem fala; no lugar de onde se narra os acontecimentos...?
Não, não existe. Sem falar da crescente segmentação
dos veículos, como bem lembrou o professor Wilson Bueno durante
aula no Curso de Comunicação Empresarial: "os veículos,
ao compartimentalizarem o seu espaço editorial, tornam mais difícil
entender o conjunto complexo de interesses (cada vez mais diversificados)
que estão por trás da notícia" (4).
Uma leitura ou audiência crítica, comparando os nossos veículos
de comunicação de massa, é suficiente (até
para os leigos com bom senso de observação) para se identificar,
no discurso jornalístico, a linha editorial de cada jornal ou emissora
(estendendo-se às rádios, revistas, sites, etc). Simples
assim: o jornalista de redação é o melhor assessor
que o veículo, para o qual trabalha, poderia ter.
A imagem de si
Na opinião dos jornalistas e de grande parte da população,
o assessor de imprensa é contratado por uma empresa, corporação,
entidade, órgão público ou mesmo uma pessoa física,
para projetar na mídia, a imagem positiva de seu empregador. Os
próprios especialistas em assessoria alertam aos que pretendem
se candidatar ao cargo:
"se entre os seus assessorados, estiverem empresas líderes
em seus segmentos, com os melhores produtos e serviços, saiba de
antemão que elas vão considerar inaceitáveis matérias
que atribuam essas qualificações aos concorrentes. Não
tenha dúvidas de que, quase sempre, a cobrança deverá
recair sobre você." (MAFEI, 2004, p.55).
Posicionamentos como este levam os editores ou repórteres de jornal,
tv, webjornal, revista ou rádio, a minimizar - isso sem dizer da
visão pejorativa que circula nas redações - o trabalho
do jornalista assessor de imprensa. Mas este último poderia estudar
um pouco mais algumas características que tornam substancialmente
frágeis as argumentações do primeiro.
Porém, ao invés de se instigar mais este espírito
de luta livre, o que se espera é que os jornalistas de redação
enxerguem o mesmo ethos nos bons profissionais da comunicação
empresarial, ou, na impossibilidade de tal desprendimento, voltem os olhos
com mais criticidade ao papel que de fato desempenham ao assinar reportagens
em veículos de comunicação que pertencem aos órgãos
estatais, aos grupos religiosos, aos caciques políticos ou às
empresas familiares de declaradas posições político-econômicas.
Notas
1) O conceito é abordado nos manuais de redação da
Folha de S.Paulo, do Estado de São Paulo; entre as normas da Rede
Globo; além dos pressupostos teóricos que indicam como escrever
para jornal ou televisão.
2) Vasta bibliografia a respeito do tema pode ser encontrada no site www.comtexto.com.br
3) Acerca das pesquisas, há referências em Duarte(2003) e
no site www.comuniquese.com.br
4) Disponível em http://www.comtexto.com.br/comempre2aulas_8.htm
Referências
CHAPARRO, Manuel Carlos. Pragmática do Jornalismo. Buscas práticas
para uma teoria da ação jornalística. 2.ed. São
Paulo: Summus, 1993.
CHARAUDEAU, Patrick; MAINGUENEAU, Dominique. Dicionário de Análise
do Discurso. São Paulo: Contexto, 2004.
DUARTE, Jorge. Assessoria de imprensa no Brasil. In: DUARTE, Jorge (Org).
Assessoria de Imprensa e Relacionamento com a Mídia. 2.ed. São
Paulo: Atlas, 2003.
MAFEI, Maristela. Assessoria de Imprensa. Como se relacionar coma mídia.
São Paulo: Contexto, 2004.
WOLF, Mauro. Teorias das Comunicações de Massa. São
Paulo: Martins Fontes, 2003.
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