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Comunicação e Responsabilidade
Social |
Comunicação e Responsabilidade Social
Resumo Este artigo resgata os primeiros debates sobre a conduta ideal das empresas jornalísticas e analisa a aplicação do conceito de responsabilidade social no jornalismo, tendo como objeto o jornal Folha de S.Paulo. O trabalho também procura apontar caminhos para um jornalismo mais socialmente responsável. Palavras-chaves: responsabilidade social, jornalismo, Folha de S. Paulo. Os debates sobre a conduta ideal das empresas de jornalismo surgem nos EUA no início do século XX, orientados pelas teorias libertárias da imprensa. Essas teorias, representadas nos princípios de watchdog role (o papel de cão de guarda da imprensa) e de "quarto poder" (expressão surgida na Inglaterra e amplamente difundida nos EUA, para comparar o poder da imprensa aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário), ainda hoje influenciam o modus operandi do jornalismo ocidental e vêem, como principal função da imprensa, o seu direito e dever de atuar como fiscal das ações do governo em favor da sociedade. Sob essa perspectiva, a imprensa só cumpriria fielmente seu papel social se mantivesse a independência do poder estatal e ajudasse a resolver os problemas da sociedade por meio da discussão de todas as suas variáveis, ou seja, se mantivesse um posicionamento pluralista, com total liberdade de expressão. Esses debates são revistos e ampliados a partir de 1950, pela Commission on Freedom of the Press, presidida pelo pedagogo Robert Maynard Hutchins, que desenvolve a teoria da responsabilidade social da imprensa. Segundo Carlos Eduardo Lins da Silva (1991, p. 95), essa nova teoria "origina um corpo teórico com muitas vertentes, que mostra os perigos da liberdade absoluta de imprensa para valores também prezados pela sociedade americana, tais como: a privacidade individual, a moral pública e a segurança do Estado.". A partir da década de 60, acelera-se a cobrança por uma imprensa independente nos EUA. Os analistas da comunicação procuram separar a comunicação relativamente verdadeira, desinteressada, de sua opositora, a mensagem relativamente tendenciosa, que serve a interesses particulares (GERALD, 1962, p. 20). Essa separação é possibilitada pelo crescimento da publicidade no meio jornalístico, que propicia maior independência dos jornais do poder estatal. O partidarismo na empresa jornalística passa a ser cada vez mais visto como um desvio da função primordial da imprensa, que é atender aos anseios da sociedade. As empresas de comunicação são inseridas na lógica do mercado e a notícia passa a ser considerada uma mercadoria, que deve estar a serviço exclusivamente do leitor. No Brasil, país com forte influência do jornalismo americano, a Folha de S.Paulo orgulha-se de aplicar pioneiramente esses preceitos jornalísticos, com os princípios editoriais do apartidarismo, pluralismo, crítica e independência e com a postura de comprometimento apenas com o leitor, presentes em seu projeto gráfico e editorial, o Projeto Folha, idealizado a partir de 1981. Com isso, o jornal acredita estar cumprindo o seu papel social como empresa jornalística. Mas será que a Folha realmente vem cumprindo esses preceitos? O marketing da democracia Criada em 1921, a Folha de S. Paulo é hoje o jornal com maior tiragem e circulação no Brasil, segundo o Instituto Verificador de Circulação (IVC). Seu crescimento e destaque em relação ao principal concorrente, O Estado de S.Paulo, aconteceu na década de 1980, principalmente a partir de 1984 com o movimento das Diretas Já. Numa estratégia oportunista de marketing, o jornal encampou a campanha pela redemocratização do país, que encontrava grande apoio popular após os sofríveis anos da ditadura, para poder passar a ser reconhecido como "o jornal da democracia". O apoio do jornal às Diretas foi expresso não só na grande divulgação de notícias sobre comícios e manifestações realizados no interior da campanha, mas também por meio de convocações feitas a toda sociedade. Segundo José Arbex Jr (2001, p. 144), "o que estava em curso não era a adesão da FSP a um projeto democrático de sociedade, mas uma estratégia de sedução do leitor". A primeira versão do Manual de Redação do impresso, de 1984, no verbete "mandato do leitor", conforme aponta Arbex (2001, p. 145), demonstra a preocupação que o jornal passaria a ter com sua "clientela" a partir daquele momento, com objetivos puramente comerciais: "Nas sociedades de mercado cada leitor delega, ao jornal que assina ou adquire nas bancas, a tarefa de investigar os fatos, recolher material jornalístico, editá-lo e publicá-lo. Se o jornal não corresponde às suas exigências, o leitor suspende esse mandato, rompendo o contrato de assinatura ou interrompendo a aquisição habitual nas bancas. A força de um jornal repousa na solidez e na quantidade dos mandatos que lhe são delegados.". Desde então a Folha passa a se vender como um jornal diferente dos demais, por se voltar exclusivamente ao seu leitor, não se deixando influenciar, portanto, por qualquer outro interesse. Mas existem críticas ao impresso justamente em relação a este posicionamento. Ana Lucia Novelli, no artigo Projeto Folha e a negação do quarto poder, presente no livro Imprensa e Poder, organizado por Luiz Gonzaga Motta, destaca que, por ser uma empresa jornalística, o jornal não deveria se preocupar em atender apenas o seu grupo de leitores, numa relação interesseira entre produtor e consumidor, mas a toda sociedade. "Aparentemente não há nada de errado nessa postura típica da imprensa comercial e capitalista, mas, ao estabelecer o grupo de leitores como sua base social, o jornal esquece-se do restante da sociedade que, embora não faça parte do seu grupo de leitores, também tem interesses que devem ser preservados para o pleno funcionamento da sociedade democrática. " ( NOVELLI, 2002, p. 194). O marketing da independência
Um estudo da cobertura da Folha nas eleições presidenciais
realizadas no Brasil após a redemocratização contradiz
esses princípios. O jornalista Bernardo Kucinski, que analisa a
cobertura da imprensa nas eleições para a Presidência
de 1989, 1994 e 1998, no livro A síndrome da antena parabólica
- ética no jornalismo brasileiro, cita diversos casos de manipulação
da informação pela Folha de S. Paulo, no sentido de minar
a candidatura do petista Luiz Inácio Lula da Silva, que se apresentou
nesses pleitos como o candidato mais próximo de desbancar os representantes
da elite brasileira no poder. "A maioria dos jornais, por ser conservadora, deveria apoiar Collor no segundo turno, mas um jornal liberal como a Folha de S. Paulo deveria apoiar Lula, mesmo que criticamente. No segundo turno, Lula era o candidato das mesmas forças esclarecidas e organizadas que se engajaram na campanha das Diretas." (KUNCISKI, 1998, p. 111). O jornal teria chegado ao ápice de fraudar reportagens, com objetivo de denegrir o candidato petista, como teria acontecido com a matéria "Carro de Lula foi para doador eleitoral", de 15 de agosto de 1998, produzida a partir de um certificado falso de transferência de propriedade de um veículo de Lula. A fraude, segundo Kucinski (1998, p. 148), chegou a causar constrangimento à ombudsman do jornal, na época, a jornalista Renata Lo Prete, que se pronunciou a respeito: "a manchete não foi fruto de uma conspiração, mas da necessidade compulsiva da imprensa em veicular denúncias". Nessa afirmação a ombudsman acabou admitindo a postura denuncista que o jornal tenta refutar. A manipulação feita pela Folha, como reflexo do comportamento da própria imprensa neoliberal, aconteceria especialmente em cadernos estratégicos, como os de Política e Economia, e em períodos igualmente estratégicos, como as eleições presidenciais, quando o poder das elites é ameaçado. Esse comportamento da mídia em momentos estratégicos faria parte de um processo indicado por Noam Chomski como "construção de consenso", onde a imprensa, por trás de uma ideologia de imparcialidade, se comporta de modo a manter as estruturas dominantes no poder. A falta de independência e imparcialidade, em prejuízo da sociedade, não é exclusividade da Folha de S. Paulo. Trata-se de uma atitude típica do jornalismo, especialmente em países periféricos, onde a dependência da imprensa de grandes grupos políticos e econômicos é ainda maior. Conforme aponta Ciro Marcondes Filho (1989, p. 11), "o jornalismo, via de regra, atua junto com grandes forças econômicas e sociais: um conglomerado jornalístico raramente fala sozinho. Ele é ao mesmo tempo a voz de outros conglomerados econômicos ou grupos políticos que querem dar às suas opiniões subjetivas e particularistas o foro da objetividade.". O que se questiona é o fato de a Folha pretender se diferenciar dos demais jornais pela independência, quando é tão ou mais parcial que os outros impressos. A responsabilidade social na Folha Analisando os fatos anteriormente relatados à luz do conceito de responsabilidade social de Wilson Bueno (2003, p. 106-107), segundo o qual, a empresa para ser socialmente responsável deve, dentre outros pontos, "assumir a transparência e a ética como atributos fundamentais, tornado o interesse coletivo como a referência maior na condução dos negócios" e "praticar a excelência na fabricação de produtos e na prestação de serviços, tendo em vista os interesses, expectativas e demandas de seus consumidores ou usuários. [...]", sendo que, "mais do que excelentes, no entanto, esses produtos têm de ser éticos, não podem, por seu consumo ou utilização, acarretar prejuízos aos seus consumidores/usuários", podemos concluir que a Folha de S. Paulo não pode ser considerada uma empresa socialmente responsável. A excelência e a ética na fabricação de seus produtos, no caso a notícia sem partidarismos e manipulações, não vem sendo respeitada. Essa constatação é fortalecida quando tentamos aplicar à Folha outro ponto fundamental do conceito de responsabilidade social de Bueno - o que diz que a empresa deve "propiciar condições ideais de trabalho para os seus colaboradores, além de remuneração justa, capacitação profissional, realização pessoal e estímulo ao diálogo e à participação no processo de tomada de decisões.". Conforme relata José Arbex Jr, que foi repórter especial da Folha, no livro Showrnalismo (2001, p-141-172), o processo de produção do jornal é marcado por um "mal-estar" e um autoritarismo, que entram em contradição com a postura democrática e moderna que o impresso vende por meio do seu marketing. Com o grande salto no campo ideológico conquistado com as Diretas, o jornal passou a ter como objetivo a reforma nos campos tecnológico e organizacional, com a adoção de cronogramas e mecanismos industriais de controle da produção da notícia. A Folha adotou um plano de metas trimestrais, cujo objetivo básico é diminuir o número de erros ortográficos e de informação e adiantar o horário de fechamento da edição. Um programa de qualidade foi instalado e, por meio de um sistema de quantidade de erros por centimetragem, os jornalistas do impresso passaram a ser avaliados, muitas vezes de forma humilhante. Foi instigado o clima de competição capitalista entre os funcionários. Os jornalistas que não conseguiram se adaptar a essas novas regras foram trocados por profissionais mais jovens, aos quais se podia pagar menos e persuadir mais facilmente. Esse rígido controle sobre a produção da notícia acarretou à Folha um dos maiores índices de rotatividade na redação da imprensa brasileira. Segundo Arbex (2001, p. 148), "a própria direção de redação da Folha reconhecida a instauração de um sistema que estimulava uma extraordinária rotatividade de mão-de-obra [...]". Além da grande rotatividade na redação e do barateamento da mão-de-obra, a Folha de S. Paulo se utiliza, com freqüência, da contratação de freelas fixos, como forma de não precisar arcar com os encargos trabalhistas aos funcionários. Se por um lado o jornal se destaca por possuir uma prática mais transparente de contratação dos jornalistas, por meio de concursos públicos, driblando a famosa "indicação" comum na política de contratações da imprensa brasileira, por outro exige que seu candidato, no teste de seleção, declare sua opção ideológica, o que, segundo Arbex (2001, p. 158), tem poder decisivo na escolha do jornalista, de acordo com o apartidarismo objetivado pelo impresso. A Folha, portanto, tolhe a liberdade de expressão de seus funcionários, ao tentar impedir que seus jornalistas possuam diferentes posicionamentos ideológicos. A política de concessão de bolsas de estudo para qualificação profissional, que poderia ser considerada um aspecto positivo da Folha em relação aos demais jornais, não pode ser exaltada quando se constata que o jornal não sabe aproveitar o investimento que faz em seus jornalistas, perdendo constantemente profissionais que não suportam conviver com o clima de autoritarismo, a falta de valorização profissional e a humilhação no controle nos processos de produção da notícia. Conclusões e alternativa
As discussões sobre a conduta ética no jornalismo hoje parecem estar mais voltadas para a postura do profissional de imprensa, que é quem normalmente tem menos poder sobre a informação e é mais pressionado pelo sistema de produção de consensos, do que para a empresa jornalística, formuladora da linha editorial. Os próprios manuais de redação dos impressos, incluindo o da Folha, caminham mais no sentido de punir o profissional do que na direção de fiscalizar a conduta da empresa. O professor da UNIVALE, Rogério Christofoletti, no artigo Dispositivos de Avaliação da Conduta Ética no Jornalismo, defende o monitoramento da mídia como forma de assegurar a responsabilidade social no jornalismo. Baseado no conceito de MARS (Meios de Assegurar a Responsabilidade Social da Mídia), de Claude Jean Bertrand (1999), Christofoletti afirma que, mais do que apontar deslizes éticos e adotar princípios, "é preciso dispor de mecanismos para a avaliação da mídia, sedimentando novas práticas sociais de acompanhamento dos veículos de comunicação". Esses mecanismos iriam desde páginas na Internet a publicações e organismos destinados a avaliar a conduta da imprensa, onde a sociedade, que é quem possui maior legitimidade para fiscalizar a mídia, pudesse atuar. O objetivo seria transformar o monitoramento constante da mídia numa prática dos leitores. Talvez essa seja uma das soluções para garantir um jornalismo um pouco mais socialmente responsável. Referências ARBEX JÚNIOR, José. Showrnalismo. São Paulo: Casa Amarela, 2001 BUENO, Wilson da Costa. Comunicação Empresarial: teoria e pesquisa. Barueri, SP: Manole, 2003. CHRISTOFOLETTI, Rogério. Dispositivos de Avaliação da Conduta Ética no Jornalismo. Disponível em: <http://www.cehcom.univali.br/monitordemidia/paginas/artigos/Christofoletti.pdf>. Acesso em 12 jun. 2005. GERALD, Edward. A responsabilidade social da imprensa. O Cruzeiro. 1962 KUCINSKI, Bernardo. A síndrome da antena parabólica. São Paulo: Perseu Abramo, 1998. MARCONDES FILHO, Ciro. O Capital da Notícia. São Paulo: Ática, 1989. MOTTA, Luiz Gonzaga (Org.). Imprensa e Poder. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2002. SILVA, Carlos Eduardo Lins da. O Adiantado da Hora. São Paulo: Summus, 1991.
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